DJANGO LIVRE

 

De cineasta desconhecido quando veio à São Paulo com Pulp Fiction a diretor mega estrela. Tarantino sempre foi pop,pelo menos no universo de seus filmes. Django é menos espetacular do que Bastardos Inglórios em relação ao elenco estrelado e muitas locações,mas é o filme mais “comercial” do diretor, a violencia é na medida certa,o que para seus padrões significa bastante sangue,entretanto sem o banho de Kill Bill,nem considerá-la normal como em Pulp Fiction. Ele sabe  o que a audiencia,seja a sua fiel ou principalmente a nova, quer dele e faz de tudo para agradar a maioria,entretanto para atingir o mainstream ele se torna previsivel, quer dar espetáculo,mas carece da consistencia dos trabalhos anteriores. Não entendam mal, Django não é um mal filme,entretanto não é Tarantino em sua melhor forma. Uma coisa é certa, é impossivel não rir muito. O papel do mercenário europeu parece ter sido feito especialmente para Christopher Waltz, o austríaco faz miséria como um caçador de recompensas alemão com ideias liberais, um contraponto enorme ao caipirismo dos rincões norte- americanos.Tiradas politicamente incorretas, sátiras, tem de tudo, a audiencia se delicia com o humor ácido de diretor e a atuação do austríaco. Jamie Foxx também está ótimo, um ex escravo durão, o cowboy negro que ao invés de lutar contra índios como nos filmes westners,luta contra a dominação branca.

Tarantino anda numa fase histórica, enquanto Bastardos Inglórios salva a história de si mesma como pontuei neste mesmo blog, Django inverte os papéis de mocinho e bandido e adiciona uma pitada sarcástica e certeira sobre a escrevidão na “América”. O Nascimento da Nação de Grifft,considerado um marco na história do cinema, nos mostra a força branca como força motriz para a construção dos Estados Unidos, a glorificação protestante! Por muitos anos a industria cinematográfica norte americana forjou o herói americano já popular na literatura nacional: o cowboy branco, duro, forte, honrado no meio de ladrões e saqueadores e principalmente no meio de peles vermelhas sedentos por matar de forma bárbara os colonos, pessoas de bem, comuns que só querem uma chance de construir sua casa.Pois bem,o diretor vai e subverte isto. Primeiro,os nativos nem aparecem,ele se concentra nos negros, que não tem papel nos westners,a escravidão africana aparece apenas nas fitas do sul dos Estados Unidos, e os colonos não tem nada de John Wayne, são todos “white trash” e são tratados como. Os mocinhos são um estrangeiro e um negro,John Ford se revira no tumulo!E principalmente o herói torna-se diferente com propósitos outros. Ele como qualquer outro cowboy quer sobreviver,mas quer sobreviver aos brancos e salvar sua esposa.
É neste ponto que o filme se perde, a primeira metade do filme é superior ao encontro de Django com sua Brunhilde. Até ele encontrá-la é que temos as melhores sacadas,as melhores cenas e o roteiro vai por uma trilha certa. A melhor sequencia desta parte com certeza é quando a dupla chega à uma fazenda enorme a procura de 3 foragidos. O diálogo do senhor de terras com sua escrava tentando explicar o que é um negro livre como o é Django é impagável. Uma sociedade pautada pela escravidão: brancos mandam, negros obedecem, entretanto nada é tão estanque e temos nos EUA quanto aqui no Brasil as relações entrincadas entre senhores e escravos : paizinho para um lado, os escravos da casa, os que gozam de prestígio ( nada entretanto que demonstre uma democracia racial como alguns tentam até hoje insistir) e os brancos empregados no meio de tudo isto. Se aqui em terras tupiniquins os trabalhadores libertos, geralmente os capatazes,eram cablocos,cafuzos, nos EUA a segregação mais acirrada os fazia “caucasianos” também como os senhores, entretanto a relação de capital já se impunha o que tornava os capatazes não muito melhores do que os negros. O senhor explica à escrava que Django não deve ser tratado como um “nigger”, ela espantada retruca “então paizinho devo tratá-lo como um branco?”, ele diz “claro que não, entende?”,é obvio que ela não entende, se ele negro não deve ser tratado como um, como o tratar? O senhor setencia ” sabe o fulano que concerta coisas na cidade? Então ele é como ele, isto trate Django como ele”, diálogo genial!
Tarantino tem o mérito de conseguir fazer um retrato interessante sobre a escravidão,sair de posições  que separam negros e brancos radicalmente  inserindo como as relações se dão de forma complexa, deixando bem claro que o branco dono de terra SEMPRE será o dominador mas sem maniqueísmo em só colocar o embate nem em querer dizer que os senhores e escravos se dão maravilhosamente bem. O papel mais controverso e intrigante é o de Samuel L. Jackson, um escravo velho que serviu a vida inteira o dono da fazenda e agora serve o seu filho, ele chama a atenção do patrão, grita com os escravos e com os empregados brancos, gosta de manter o status quo,o que significa brancos mandando de um lado e negros servindo e sendo tratados como animais de outro, o que causa repulsa. Ele não se identifica como negro,mas também não pode se identificar como branco, é o lacaio e seu senhor o coloca em seu lugar, é alguém sem identidade. Imagino que o movimento negro não deva ficar feliz com personagens assim,entretanto muito pior é tentar tampar o sol com a peneira e dizer que nunca existiram. Na verdade,individuos assim consistituem o que há de mais perverso e cruel no racismo, negar sua própria identidade para se sentir superior, entretanto nunca pertencer ao lugar que almeja.São como nada, desprezados pelos seus e pelos que gostaria de ser.
São temas muito bem tratados num objetivo frágil: Django,o herói, enfrenta o mundo para salvar sua Brunhilde. Entretanto antes ele dá uma pequena pausa para se tornar um bom caçador de recompensas e depois vai atrás de sua amada que se encontra em posse de um grande senhor de terras, representado por Leonardo Di Caprio. Para conseguir comprar sua liberdade a dupla inventa um plano para lá de complicado e complexo, sem pé nem cabeça e é descoberta, temos então um banho de sangue e no final Django atinge seu objetivo ao mandar literalmente tudo e todos pelos ares. Assim temos duas partes bem divididas, com dois andamentos distintos,com sacadas ótimas sobre um tema espinhoso como escravidão e um fio condutor duvidoso. Poderia ser Tarantino em sua melhor forma,poderia…
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