Azul É a Cor Mais Quente

 

Quando La Vie d’ Adèle ( o nome em português é detestável) ganhou a Palma de Ouro em Cannes todos os jornais se apressaram em perguntar ao presidente do júri, Steven Spielberg, se aquele era um prêmio político pelo tema que o longa abordava e por estar Paris tomada por protestos pela aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Engraçado, ou melhor triste, como a imprensa é tomada por sensacionalismo barato, ao invés de analisar de fato o filme vencedor. Acreditar que eventos políticos não tenham nenhuma influencia  num júri é ser ingênuo e não levar a história do cinema em conta, agora apontar para um longa excelente como o é La Vie d’ Adèle como vencedor pela política apenas, é leviano. Cannes em 2004 deu sem pestanejar a Palma de Ouro para Fahrenheit 9/11, que tinha entre seus concorrentes Old Boy, Edukators e 2046, no mínimo difícil de acreditar que o documentário de Moore seja melhor cinematograficamente que qualquer um dos três. A lebre do oportunismo político foi levantada na época é claro, entretanto não com o mesmo vigor que se viu na imprensa pelos meses seguintes à Cannes como este ano.

Outro ponto explorado exaustivamente  foi em torno das cenas de sexo. A sociedade anda “encaretando” de maneira absurda, fico imaginando um filme de Pasolini nos dias atuais, deve chocar mais do que há 40 anos atrás…as cenas de sexo entre as duas personagens principais do longa chocam porque fogem completamente do esteriótipo lésbicas de filmes pornográficos, fakes, na verdade as cenas chocam porque não são esteticamente bonitas, não foram feitas para plasticamente serem aprazíveis, muito pelo contrário são cruas, desajeitadas, vicerais, como uma boa trepada. Se compararmos apenas com as cenas dos trailers apresentados de Ninfomaniac, Abdellatif Kechiche mostra muito mais sexo do que Lars, ou pelo menos mostra de maneira muito mais real do que as bonitas cenas que recheiam as pílulas do filme que foram lançadas até agora.

Posto o problema político levantado e as cenas de sexo ( acredite, elas não estão ali apenas como chamariz de público) vamos ao filme propriamente dito.

La vie d’Adèle acompanha Adèle desde sua adolescencia até o início de sua vida adulta tendo como fio condutor sua relação com Emma, sua primeira namorada, mais velha.

Não, acredito que não de para ir ao filme propriamente dito…tinha me preparado para escrever um texto que falasse das escolhas de câmera do diretor, muito interessantes aliás, com planos muito fechados, tudo muito intenso, vivo, latente, sexual como a adolescencia costuma ser; para falar nos conceitos de tragédia que o longa é permeado e nos deixa como texto claramente em duas passagens: o conceito grego de tragédia, o destino já traçado, e o conceito sartriano trágico, o homem moderno já dotado de  livre arbítrio, no qual “a existencia precede a essencia”.

De fato, acho que não me desviarei de analisar o trágico, por ser ele o fio condutor das nossas vidas, acredito eu. Entretanto fiquei com outro existencialista na cabeça após assistir o longa: Camus. “É preciso imaginar Sísifo feliz”, setencia o argelino em seu livro ‘“O Mito de Sísifo”. Sísifo condenado pela eternidade a carregar uma rocha morro a cima e sempre, sempre na esperança que desta vez ela fique parada no cume, e ela rola morro a baixo toda vez, uma esperança débil, fugidia, para novamente a decepção, a tristeza, entretanto para Camus, Sísifo sabe que seu destino é este carregar morro a cima e a ver sempre despecancar morro a baixo e mesmo assim, mesmo com tudo contra, ele encontra um meio de ser feliz, um momento que seja. Relacionamentos podem ser as pedras, todavia, ao contrário de Sísifo que tem consciencia plena de que a rocha não permanecerá no cume, nós não temos ( coloco nós porque acredito que 99,9% da humanidade não seja composta por Sísifos e Mersaults), nós possuímos  a parca esperança que lá em cima ela repousará, para ve-la rolar e rolar e rolar novamentee assim entramos e saímos de relacionamentos, felizes, esperançosos, destruídos, dilacerados.

La Vie d’ Adèle pode ser um filme que trate de um relacionamento entre duas garotas,mas pode ser qualquer relacionamento. Um encontro entre duas pessoas que ao longo do tempo vai se desgastando, um combinado que precisa do esforço de ambas as partes.

Emma é mais velha, está na faculdade, estuda “Belas Artes” , Adèle está no primeiro ano do colegial, é prática, não quer estudar e não encontrar um emprego depois, quer ser professora primária. No início vemos uma vontade destes dois mundos distintos se encontrarem, Adèle acompanha Emma em museus para conhecer o seu mundo, entretanto não vemos o esforço contrário. Corta. Passaram-se uns dois anos. Adèle é professora assistente, ao invés de sair com seus colegas, volta para casa para preparar um jantar para os amigos de Emma, o desconforto é latente, enquanto Adèle tenta se ocupar com qualquer coisa, ser útil, para não precisar sentar e conversar com aquelas pessoas com as quais ela não compartilha muito, sua namorada parece muito a vontade com os outros, com uma amiga principalmente. A câmera que falei alguns parágrafos a cima, em closes fechados, é toda planos mais abertos quando se refere ao olhar de Adèle para Emma, tão distante. Na única cena juntas, uma garota, artista plástica, discorre sobre seu doutorado sobre um artista X, Emma diz para Adèle que a apresentou a obra deste artista, mas ela não se lembra, não faz idéia de quem seja, e os diálogos continuam como se ela não estivesse lá, afinal a roda de conversa entra em debate sobre as diferenças conceituais entre artistas X e Y. No fim da noite Emma diz à Adèle que gostaria muito que ela fizesse algo que ela gostasse e não apenas trabalhasse, era muito bacana ela ficar em casa cozinhando para os amigos dela, mas queria a ver mais ativa, Adèle responde que faz o que gosta, gosta de trabalhar e gosta da vida das duas, isto basta e questiona sobre a amiga com a qual ela passou boa parte da noite, se era uma ex namorada por estarem assim tão próximas. Emma apenas diz que não, nunca tinham tido nada, mas que ela também era pintora. Basta…qual “vida das duas basta”? E para quem? “Existencia precede a essencia” disse bem Sartre, cada uma vivendo uma vida, em paralelo, ter um relacionamento basta, mas e a construção diária? Não sei do seu mundo, você não sabe do meu…Corta. Três anos após o término, as duas se encontram num café. Tenso. Melancólico. Triste. Adèle não esqueceu Emma, Emma já está em outro relacionamento faz tempo. O típico Je t’aime, moin non plus. Atire a primeira pedra quem ao encontrar a (o)  ex pela primeira vez não sentiu algo estranho. Atire a  primeira pedra quem nunca demorou ao esquecer a (o) ex. Era o primeiro relacionamento de Adèle, relacionamento sério mesmo, anos juntas, uma vida juntas, a transição  entre a adolescencia para a maturidade. Seria este o motivo para o não desligamento de Adèle? Será que nos tornamos mais cínicos com o tempo? O longa termina com Adèle indo embora, sozinha pela rua, dando as costas para o acaso, ou talvez quem sabe estando aberta justamente para ele… estes foram apenas os capítulos I e II, ainda existirão muito pela frente… empurrando rochas morros a cima, esperando que não rolem para baixo. É preciso imaginar Sísifo feliz…e miserável também.

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