ELA

Dirigido e escrito por Spike Jonze, ELA é um primor. Assim como em seu longa prévio, Onde Nascem os Monstros, a fotografia, direção de arte e trilha sonora compõem de maneira delicada a atmosfera do filme. Não que em Quero Ser John Malkovitch ou em Adapção, não estejam lá estes elementos, mas em ELA é marcante a cor lavada da fotografia, um filtro nostálgico anos 70, as cores magenta e pastéis, o design lindo e clean dos cenários. A história se passa em algum lugar do futuro e é como se os personagens vivessem num lindo comercial da Apple.

Theodore é um escritor de cartas à mão, depressivo com o final do casamento, que se apaixona por seu sistema operacional, Samantha, na voz sexy, divertida de Scarlett Johanson.

É um filme de muitas camadas, para no final na verdade falar de desejo, ser, matéria, abstração. Através do amor Jonze constrói um filme filosófico sobre o existir, sobre a relação com o outro.

A perda, a projeção no outro, a impossibilidade de ser completo são temas recorrentes em sua filmografia e em ELA é o amadurecimento destas questões, um romance melancólico, uma busca infinita por ser feliz. A personagem de Amy Adams, melhor amiga de Theodore, lhe diz que tudo que pode buscar na vida são momentos de alegria. Ele re encontra estes lampejos na figura de Samantha, sem carne, sem concretude, uma voz, um sistema operacional.

Interessante ver como Jonze coloca em questão a emergencia artificial destes programas, como num plano ideal eles poderiam evoluir continuamente ao ponto de sentirem emoções reais, em bites, em algorítimos, colocando em questão o que nos torna humanos, nossa capacidade de nos emocionar, de abstrair em relação a máquinas programadas, as quais no caso também podem, também se apegam. A própria existencia em jogo: Cogito, ego sum. Assim, Samantha também existe, ela reflete e principalmente ela sente: amor, ciúmes, medo. Existe não num plano material, palpável, concreto, num plano de números, escrita binária, no tempo e não no espaço, sem a finitude.

Theodore, um homem que vive as emoções de outras pessoas: ser escritor de cartas para os outros, colecionando fragmentos da vida deles e naquele pedaço de papel viver intensamente um recorte, uma situação. Tão fake quanto uma nota de 3 dólares, o consumidor que pede há anos para que cartas a outros sejam enviadas, os que recebem a carta e que provavelmente sabem que não se trata de algo real e o fato de num mundo cheio de computadores, as cartas serem ” à mão” para dar um toque pessoal, ao invés dos caractéres gerados por computador, uma falácia, sendo que a letra manuscrita também é gerada por um programa. Ele que se cala e prefere o silencio ao invés de dizer o que sente em um relacionamento até o insuportável explodir, ou implodir. Que projeta no outro desejos. Sua ex esposa lhe diz que ele não sabe lidar com emoções reais. E quem sabe?

No mundo de ELA, existe uma relação cada vez mais cumplice entre homem e máquina, uma multidão silenciosa entre si, se relacionando com seus dispositíveis, apenas um simulacro da realidade ou um novo paradigma tão real quanto, apenas em planos distintos? É interessante esta posição de Jonze, ele não julga, ele, aliás, coloca a A.I em outra posição, não mais a desagregadora da sociedade, ou alienante, mas uma nova organização. Humanos desesperados por afeto, por sentir, pelo outro, como sempre. É preciso um corpo? É preciso tocar? Rir, se divertir e se sentir vivo não são o bastante?

Aliás, o que é o bastante?

A eterna busca pelo impossível. Pela completude.

 

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