Carol

Faz dois anos desde a minha ultima postagem. Curiosamente, um post sobre o casal lésbico da novela das nove. Abandonei o blog por inúmeras razões, entretanto o longa Carol me deu impulso para voltar a escrever novamente. Pode ser um post solitário ou quem sabe um retorno, ainda não sei.

O que sei bem é como o filme de Todd Heynes baseado no livro “Price of a Salt” de Patricia Hightsmith mexeu comigo. Poderia fazer um post sobre como a direção de fotografia chega ser de tirar o fôlego, ou como a direção de arte é magnífica e tem aquela matiz de cores bem característica de Hoper, ou da direção sempre elegante e sensível de Heynes, ou como Cate Blanchett é uma deusa ou Rooney Mara é maravilhosa, ou como tudo, absolutamente tudo funciona perfeitamente neste filme! Mas não…é um post que extrapola o filme através de seu roteiro.

Patricia era lésbica. Phyllis Nagy, roteirista, também. Não achem mero detalhe, é importante. Após a estreia de Carol e a esnobada dada pela Academia ao filme eu li vários textos em revistas de cinema, blogs de audiovisual e feministas tentando explicar o inexplicável: como um filme sensível e excelente pode ter sido solenemente ignorado pelo Oscar? Um dos textos, se não me engano na própria Variety, falava em não compreensão de seus membros: a esmagadora maioria composta por homens, héteros e com 60 anos ou mais. Parece bobo dizer isto, mas o curioso é que não, não o é!

Ouvi de gays que faltou pegada na cena de sexo entre as duas, faltou algo como Azul é a Cor Mais Quente. Ouvi de mulheres héteros que faltou um embate de como era difícil a questão da homossexualidade na época, quase um panorama histórico.

Eu acho Azul…um excelente filme, já escrevi sobre ele aqui, entretanto muitas ( e muitas MESMO) lésbicas o acham um filme deveras heteronormativo. Sim, ele tem algo mesmo nesta pegada: uma assume o papel da dona de casa, a outra é o espírito livre, pegadora. O longa é uma adaptação de uma grafic novel escrita por uma mulher, Julie Maroh, e o plot é bem diferente do que o filme se tornou ( só dar uma busca rápida na winkipedia), este roteirizado e dirigido por um homem. Não, este também não é mero detalhe porque ao ler os três parágrafos sobre como a narrativa se desenvolve nos quadrinhos é possível perceber que a escritora é mulher e lésbica. Sutilezas e detalhes…

…estes presentes em Carol e em qualquer relação lésbica.

A cena chave no longa de Heynes é quando Therese ( Rooney Mara) vai encontrar seu novo amigo no New York Times. Ele a convidou dizendo ser uma boa conhecer a redação e que podia a apresentar para o editor de fotografia, quem sabe ela poderia descolar um emprego de assistente. Não há nem o que pensar, a oportunidade de trabalhar com o que gosta de fazer e deixar a enfadonha loja de departamento. Pois bem, ela chega e só há ele no jornal. Isto já não é o que era para ser, penso logo eu. Realmente não é, conversa vai, conversa vem e ele a beija. Ela não corresponde e vai embora. É uma cena rápida, talvez as pessoas tenham prestado atenção no excelente diálogo entre os dois sobre como gostamos de alguém ( uma referencia entre a vida ser um jogo de pimball, bolinhas esbarrando o tempo todo uma nas outras, e como gostamos ou não de alguém, simples assim) do que neste gesto, porque ele já está naturalizado. Sim, podemos até ficar incomodadxs pela cara de pau do cara, entretanto não damos muita atenção e a vida segue.

Imaginem: ao invés do cara, ela é quem trabalha no jornal e  o convida da mesmíssima maneira e o beija como ele o fez. Não, eles nem precisam estar na década de 50, posso afirmar para vocês que não seria nem de longe encarado com a naturalidade com que a audiência viu a iniciativa dele. Afinal mulher mesmo em pleno século XXI sofre quando quer ela tomar a iniciativa e sinceramente não consigo imaginar uma mulher tomando uma atitude destas, quando não há NENHUM sinal de reciprocidade. Imaginem mais: é Carol quem trabalha no jornal e a convida para conhece-lo. Piorou não?

Sutilezas e detalhes… Repito porque é importante e porque o filme é isto!

Mais contexto histórico da luta pelos direitos LGBT? posso dizer que a minha vida e de outras lésbicas é uma luta praticamente diária no micro, no cotidiano, no sutil. Não importa o quão aceita você é pela família, amigos, a sociedade está aí e juntar ser homossexual e mulher é ser oprimida. Pior do que isto só as trans, imagine nascer homem e querer perder esta dádiva para ser mulherzinha? A questão é: a vida de uma lésbica não se dá no macro em seu dia dia, nós vivemos, respiramos, amamos, sofremos, como qualquer pessoa. E honestamente Carol é uma paulada violenta. Perder a guarda da filha, se submeter aos caprichos do ex marido escroto, de sua família nojenta, ter seu comportamento tachado de imoral e precisar ir a um analista para se corrigir é de uma brutalidade gigantesca. Me embrulhou o estômago.

Entretanto também amamos e vivemos. Não se enganem, não é uma roadtrip bobinha. Sutilezas e delicadeza, certo? Existe a tensão sexual entre as duas,  mais do que isto, existe companheirismo, carinho, cuidado, entretanto mesmo estando claro que há algo ali obviamente, elas precisam cruzar metade do país para finalmente consumarem o que sentem. Pode ser os anos 50, pode ser o fato de Therese nunca ter tido uma experiência homossexual e até uns dias atrás ter um namorado,pode ser o fato de mulheres não serem criadas para expressar seus desejos, pode ser tudo isto. Tão mais fácil roubar assim do nada um beijo, não? Então não!

Chega ser tocante a aparente facilidade em que duas pessoas que se gostam decidem ficar juntas. Você gosta ou não gosta de alguém, bolinhas de pimball se batendo por aí…e ao mesmo tempo nas camadas internas de uma dificuldade abissal: família e sociedade que cobram um preço alto por aquilo que você é. Carol dizendo que ela não irá deixar de ser quem é, correndo o risco de perder completamente a filha é doído, é muito forte porque é algo que ao negar é morrer em vida.

Carol é o filme com a melhor identificação com o universo lésbico. É tão bom se ver representada na tela. O amor é universal, até a página 10, as formas de amar são muitas e nós somos bombardeadxs com o modelo heteronormativo. E isto inclui Azul…com uma inclinação para esta “normalidade” e um olhar masculino ( e repito acho um excelente filme), a tal cena de sexo para mim é sem graça, o filme é muito mais do que uma trepada de 10 minutos, total visceral, já em Carol a cena é mais delicada e tem muito mais verdade, nem acho tão essencial a cena em si, o primeiro beijo delas, apaixonado, terminando com toda a tensão sexual, a dúvida e angustia é muito mais interessante.

Eu acho  ótimo o fato de não ter atingido universalmente, porque isto mostra o quanto precisamos avançar em narrativas, em olhares outros. Não só na produção, mas na fruição também e nas relações. Empatia é a chave.

Como disse o texto extrapola o filme. É quase um desabafo do porque te-lo achado genial. E para quem é lésbica e já assistiu muitas produções ( das mais mainstream às toscas) sabe como os longas com esta temática terminam mal, na impossibilidade do encontro. Terminar da maneira bonita como termina chega ser um alento…

 

 

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A Trapaça

David O. Russel reúne em  A Trapaça atores que já dirigiu em outros excelentes filmes: Jennifer Lawrence, Amy Adams, Christian Bale e Bradley Cooper. Ele também assina o roteiro. Dizem ser o favorito ao Oscar, o que não quer dizer nada, afinal na maioria das vezes, o melhor nem sempre vence. O que é importante saber é que A Trapaça é um senhor filme! Uma história muito bem contada, simples assim. O roteiro é muito bem amarrado, com sacadas ótimas, boas reviravoltas e personagens muito bem construídos. A direção é segura, muito boa, com bons jogos de camera, um ritmo um pouco acelerado, na medida certa. O elenco é um show a parte, temos quatro grande atuações e todos foram indicados ao premio máximo do cinema norte-americano.

Irvin é um trapaceiro de marca maior, junto com a amante Sydney forma uma dupla de estelionatários trambiqueiros com bastante sucesso, até serem pegos pelo agente do FBI, Richie. A partir daí para sairem ilesos de seus crimes precisam colaborar com os federais para captura de outros falsários. Só que o agente é ambicioso e quando vê a oportunidade de pegar um político ele agarra com unhas e dentes,para desespero de Irvin que sabe bem que isto não pode acabar bem. Para adicionar uma pimenta a mais no meio desta quase comédia de erros, a esposa do trambiqueiro, Rosalyn, aparece entornando mais o caldo.

O longa começa com um aviso ao público: alguns destes eventos são verdade. Veja bem, alguns… é a partir desta premissa da verdade pela metade, ou a meia mentira, que o roteiro se desenvolve brilhantemente. Tudo parece meio falso, nada é o que diz ser, ninguém é e assim se sobrevive. A história se passa no final da década de 70 entre New Jersey e Nova York e os personagens parecem saídos de um filme da máfia de Las Vegas. Causa um incomodo a caracterização dos personagens, não dá para embarcar completamente naquilo, é como se a direção de arte avisasse ” acredite…mas duvide um pouquinho”, Bradley Cooper está absolutamente ridículo com permanente no cabelo, Christian Bale gordo e com um topete ridículo, Jenniffer Lawrence faz a esposa loira fatal ( no melhor estilo mulher de mafioso de Michelle Pfeiffer em  Scarface e Stone em Cassino) mas os traços de menina permanecem, a única que parece ali de verdade é justamente aquele que constrói outra identidade para si: Sydney, papel de Amy Adams. Neste jogo de aparencias e de xadrez vamos aos poucos sacando um pouco mais dos personagens, às vezes o discurso não bate com as ações, muitas vezes não dá para saber se o você espectador está sendo enganado junto, o roteiro é muito habilidoso em criar nós, em nos deixar em dúvida sobre as reais intensões de cada um ali, um dos recursos muito bem utilizados é a criação de momentos de fluxo de pensamento dos personagens nos contando a história do ponto de vista de cada e eles sem embaralham entre a narrativa do filme.

Para dar certo este jogo de cena só atuações absolutamente sólidas poderiam dar conta do recado. Bradley Cooper é o mais fraquinho dos quatro, o que não signifique que sua atuação seja ruim, nada disso, ele está bem convincente e engraçadíssimo como um agente ególatra, frustrado pela vidinha que tem e absolutamente transloucado. Amy Adams vai para sua quinta indicação, é uma atriz excelente, ela trabalha no pequeno, nas nuances, nos olhares e sua personagem é muito difícil exatamente por ser a única a fugir do registro mais histriônico que os outros demandam. Entretanto o show é de Bale e Lawrence. O interessante do Bale é como ele opera muitas vezes no limiar do caricato para criar um tipo, mas faz isto com tanta destreza e sensibilidade que geralmente seus personagens são absolutamente vivos, é o caso de Irvin, no início vem uma estranheza, aquele homem bonito sendo barrigudo, calvo, com roupas estranhíssimas, o objetivo é este, o choque, entretanto isto se incorpora de tal maneira que no final ele é o personagem por completo, os gestos, os tiques, a fala. E Jennifer…Lawrence merece um parágrafo a parte! Vinte e cinco anos e é capaz de coisas maravilhosas, ela se entrega, mergulha de um tal modo…ela faz a femme fatale e  ao mesmo tempo,mesmo linda, maquiada, ela tem aquele rosto de garota, esta dubiedade é por si só interessante, sua personagem é desequilibrada e infantil, carente, desesperadamente carente e ela cria um tipo irresistível, insuportável e digno ao mesmo tempo de compaixão. Sua cena mais marcante é uma cena rápida, muito rápida, ela com ódio do marido, diz mais do que deveria para um outro personagem, ela está em casa furiosa, o filme vem vindo num crescente de tensão, a trilha sonora num rock psicodélico é muito, muito alta, ela aparece, um plano fechado em seu rosto, ela canta a música ( não a ouvimos, ouvimos a música mesmo) de maneira furiosa e ridícula, a camera é lenta, ela agita todo o corpo cantando e dançando de maneira vigorosa, ela está linda e maquiada e…com luvas amarelas de limpeza na mão, limpando a sala…é absolutamente ridícula a cena, engracadíssima e só alguém sem o menor senso de ridículo, só um ator sem nenhum pudor para abraçar aquilo com tanta verdade e parecer ridículo e demasiadamente humano ao mesmo tempo, não é fácil, nem um pouco aliás.

Se A Trapaça ganhará ou não tudo em março nos Academy Awards, como disse, tanto faz, o importante é saber que se trata de cinema: uma história muito bem contada através de direção, roteiro e atuações trabalhando para isto.

BLUE JASMINE

 

Allen volta à tragédia moderna com Blue Jasmine, um tema recorrente em muitos de seus filmes e em suas peças. Destino, livre arbítrio, acaso, está tudo lá colocado de maneira agridoce, às vezes amarga e tendo como a cereja do bolo a atuação magistral de Cate Blanchett.

Não é o melhor de Allen, o que é uma pena, pois ele tende  a trabalhar a tragédia de maneira extremamente interessante e inteligente, como foi no caso de Match Point. Este seu ultimo longa é um pouco arrastado, com algumas barrigas no roteiro, personagens não muito bem desenvolvidos, a parte de Jasmine, a personagem central. Quem conhece Um Bonde Chamado Desejo consegue enxergar as semelhanças entre alguns pontos do texto de Tennessee e o filme de Allen, embora o trailer seja muito mais explicito do que o filme propriamente dito.

Não há nada de espetacular na vida pequena burguesa, nada. Pessoas desinteressantes, assuntos banais e vidas sem muito sentido, preenchidas por sub empregos necessários para sobreviver e pagar as contas e relações sem muita emoção e que poderiam ser tão melhores. Sou muito melhor do que isto, certo? Pensou já Blanche e pensa sua versão 2.1, Jasmine. Talhadas para a grandeza, a beleza e a riqueza. Perseguem um destino que não se concretiza a não ser de maneira efemera, pois a conjuntura muda, o cotidiano não permanece imutável e aí se encontra o problema para estas personagens: contarem com um destino que pensam que foram destinadas, não se encaixarem na pequenes da vida e tomarem péssimas decisões, mas não endossando nenhuma e não tendo consciencia da ação. “A existencia precede a essencia”, diz Sartre e elas não acreditam nisto, de forma alguma. E Allen é cínico neste ponto. Jasmine, ao final é responsável, a única responsável no limite, por sua derrocada, pelo seu fim. Ao tomar decisões infantis, ao ser irresponsável, ao se recusar a verdade. Ele vai dando estas pistas ao longo da narrativa, a personagem vai se enredando cada vez mais em suas fantasias, em sua realidade paralela. O “engraçado” é que ao mesmo tempo em que nega a realidade e sua responsabilidade, Jasmine repete ao menos três vezes ao longo do filme que não é possível jogar a culpa toda na genética, ou seja no determinismo, para os problemas da vida, ela diz isto para sua irmã, ambas adotadas por uma família, a caçula sempre diz que Jasmine tem os melhores genes ( linda, inteligente e casada com um cara milionário, enquanto ela é baixinha, feinha, empacotadora num super mercado). Se em Match Point, o acaso dá aquela forcinha para Chris, aqui ele é emplacável e é por conta de um encontro no meio da rua quando parecia que nossa anti heroína iria colocar a vida novamente nos eixos, iria conseguir,apesar de todas as mentiras contadas, sua vida de glamour novamente, que tudo volta a estaca zero, ou melhor a realidade vem avassaladora e a esmaga. Jasmine, assim como Blanche, não consegue lidar com este mundo concreto, nem um pouco bonito, nem um pouco brilhante, nem um pouco inspirador, ela se volta para dentro, para seu mundo de faz de conta, muito mais colorido e bonito.

Cate Blanchett carrega nas costas o filme inteiro, é um monstro. Sua Jasmine é cheia de nuances, humana, frágil, implacável, fria, amorosa, comica, trágica. A cena final é linda. Derrotada, esgotada, Jasmine sai com sua melhor roupa, com a cara limpa, cabelo desgrenhado, andando pela cidade, senta-se num banco e começa a falar sozinha, nem estranhos podem a ajudar agora, só ela, sozinha. Se tinhamos em boa parte do filme, uma diva que foi aos poucos se desmontando, uma mulher belíssima, chegamos ao seu final com um trapo, um resto de gente, humana, demasiadamente humana. Pode não ser o melhor de Allen, mas é uma das melhores atuações de Blanchett.

Album de Família

Álbum de Família é dirigido por John Wells, muito mais conhecido pelo seu papel como produtor executivo de séries de tv de grande sucesso como E.R, The West Wing e Bad Girls. O homem adora um drama e no caso de Álbum de Família, que drama! O roteiro é a adaptação de uma peça de mesmo nome ( August: Osage County). Apesar de um bom filme é possível vislumbrar o melhor funcionamento num palco do que nas telas de cinema, o ritmo impresso numa peça, o tempo se prestam mais a escala em espiral de loucuras e roupa suja lavada, do que no cinema, com o tempo mais espaçado e a escolha de direção de Wells.

O patriarca da família morre, a família volta para velha casa no meio oeste onde ainda mora a mãe, drogada, com cancer, insuportável, megera. As três filhas com suas respectivas famílias, a irmã da mãe e sua família. É um banquete para neuroses, segredos, mentiras virem a tona de maneira violenta, sem nenhum pudor. As relações são pura fachada, os laços desfeitos, muito cinismo substituindo o amor. A casa com pesadas cortinas todas cerradas é a própria metáfora daquelas pessoas: a vida não entra aqui, e ninguém sai para a vida também. Tenso.

Trata-se de um texto denso, sem respiro, que vai piorando cada vez mais, imagino a encenação como algo encerrado, claustrofóbico, é preciso sair dali, é preciso sair dali! Todavia no longa, Wells opta por cenas e mais cenas em panoramicas, abertas completamente, dando respiro ao calor insuportável do meio oeste norte americano e às loucuras da família. Seu grande trunfo está no elenco absolutamente genial capitaneado por aquele monstro chamado Meryl Streep. São os atores que conseguem manter coeso o ritmo e a tensão de um texto ótimo, mas que a direção falha, um elenco um pouco mais fraco e não perceberíamos a força daquela história, o tempo se esgarçaria demais e as tensões seriam dissolvidas. O bom de Wells é que sabendo a potencia de seus atores, ele também opta por deixar a camera em planos mais fechados no rosto de cada um deles, captando atuações fantásticas, especialmente de Streep, um assombro!

Um daqueles típicos filmes feitos para o Oscar, para as categorias de atuação. Apenas Cate Blanchett talvez possa fazer sombra a já onipresente Streep neste ano. Julia Roberts concorre como atriz coadjuvante, talvez por ser a american sweetheart porque falta dar profundidade a personagem, verticalizar mais, não que ela esteja ruim, tem bons momentos e os melhores textos ( fantásticos) são de sua personagem, mas o que lhe sobra em carisma, falta em sensibilidade e tecnica, fico imaginando o que a própria Cate Blanchett faria, ou uma Julienne Moore ou uma Jessica Chastain…

Albert Nobbs

Assistir Albert Nobbs no Dia das Mulheres foi um dos acasos da vida,e caiu feito uma luva. Ontem,a frase mais repetida nas redes sociais era “Não se nasce mulher,torna-se mulher” de Simone Bouvoir,assim como a foto de Laerte travestido. E o que significa tornar-se mulher?

Não o filme não responde esta pergunta,nem eu me sinto qualificada a responde-la de forma tão contundente. Sou mulher e posso dizer que o que me torna não são vestidos,maquiagem,maternidade e todos os clichês femininos. Assim como não o é com Albert Nobbs.

O longa tem como estrutura o abismo enorme que separa a classe trabalhadores dos ricos na sociedade britânica do século XIX,uma distancia absolutamente cruel e mesquinha ( tão diferente da atual?) e principalmente o papel da mulher nesta sociedade. Sim,trata-se de um filme sobre mulheres.

Albert Nobbs é vivido por Glen Close,e eu lamento muito que A Dama de Ferro tenha sido lançado concomitantemente,pois a atriz está fantástica neste trabalho. Como sempre Close é de perfeição cirúrgica ao fazer seus personagens,um controle enorme,e ao mesmo tempo dando espaço para um respiro,uma improvisação. E o sr Nobbs é todo controle!

Em pleno século XIX uma mulher travestida de homem,que vive sua pacata vida como garçon. Não se engane, uma mulher com um plano ambicioso: conquistar sua própria liberdade! Não existe nada maior do que este sonho. Ser dona de seu próprio nariz. Para isso é preciso poupar muito e assim um dia comprar a liberdade com seu próprio negócio. Um dia…é sempre o futuro,é sempre hipotético, até lá não se vive, até lá somam-se os dias, um após o outro, na mesma rotina espartana, no controle absoluto. Albert Nobbs é a encarnação de tudo isso, um homenzinho estranho, polido, rígido e tenso, com olhos grandes quase infantis de sonhador, mas que no presente está ali para passar despercebido de todos. Ah, e Glen Close faz isso com perfeição, o andar marcado e ao mesmo tempo como se não passasse pelo espaço, a postura ereta que não se permite nunca um deslize, a boca serrada como se sorrir fosse desmacará-lo.

Pois bem levamos nossa vidinha até que algo nos choacalhe e o protagonista tem sua vida modificada ao encontrar um par. Ou seja outra mulher que se traveste de homem. Estranho se achar único no mundo e verificar que sim, há outros iguais. As histórias divergem, não são quem são pelo mesmo motivo. Percebemos que este outro amigo é muito a vontade no papel que escolheu para si, é casado, tem uma esposa adorável, sim é casado! Seu travestimento é confortavel  e ele pode ter sua vida sem ser importunado por preceitos cristãos, vive uma vida regular igual…bem a qualquer casal heterossexual. Já nosso protagonista…já ele tornou-se quem é por circunstancias outras : sobreviver com dignidade. Isto não significa apenas comprar sua independencia financeira, como também a independencia de seu corpo,que homens até nos dias atuais acham que lhes pertencem e podem utilizá-los quando bem o querem. Pois bem, a grande questão está em um saber muito bem quem é e como lidar com a sociedade,e em Nobbs já ser um homem de fato, e não saber e não entender um outro lado desta condição. Afinal ao descobrir que uma mulher que é um homem pode se casar e ter uma companheira, o faz pensar que possa ter o mesmo, mas pobre Nobbs em sua ingenuidade em não entender que algumas mulheres entenderão quem ele é, não serão todas. Não está errado não é mesmo? Se a moça cortejada me gosta de mim, então o resto não deveria atrapalhar. Sim, deveria bastar.

Soma-se ao enredo, uma camareira linda e nova, que por ser a única mulher que conhece Albert Nobbs “se apaixona” por ela. Mas a garota, que sonha em mudar de vida, conhecendo um homem rico, acaba do mesmo jeito que todas elas acabam : namorando um lindo e pobretão que querem tirar partido delas e da situação. E Nobbs tentando remediá-la.

OS homens não tem um papel muito decente no filme, que se volta a mostrar como cada mulher fará para sobreviver na sociedade patriarcal, moralista e extremamente injusta. Nenhuma delas tem chance de ser talvez quem realmente gostariam de ser.

A Dama de Ferro

Se o primeiro longa de Phyllida Loyd, Mama Mia,foi uma bomba (em termos de publico foi sucesso estrondoroso no Reino Unido,um espanto),ela possui a  chance de se redimir com A Dama de Ferro. O filme, cinebiografia de uma das pessoas mais controvérsias da política ocidental após a Segunda Guerra,a primeira ministra britanica Margareth Thatcher,possui cheiro de Oscar: correto cinematográficamente,com roteiro regular,uma história bonita de amor e uma pitada melodramática. Muitos outros longas sobre a história de pessoas reais como este concorreram ao maior premio da Academia. Neste ano,porém,este saiu perdendo pela qualidade a cima da média dos concorrentes (ainda bem,dado os ultimos dois anos de filmes medíocres no Oscar). Entretanto não estamos falando de um fracasso,pois todos sabem desde quando sua filmagem foi anunciada,que sua força estava na personagem. Margareth Thatcher é a estrela absoluta,ou melhor Meryl Streep. Seria um longa comum se não fosse ela a intérprete.A atriz faz com que  A Dama de Ferro seja um grande filme.

Meryl Streep concorre pela décima sétima vez à estatueta de ouro,tendo ganho duas.Nos ultimos doze anos concorreu seis vezes,um assombro. O premio, da industria cinematográfica,faz com que o lobby dos grandes estúdios muitas vezes prevaleça sobre o trabalho bem feito, e no caso da atriz, ela nos anos dois mil sofreu duas injustiças : Catherine Zeta Jones,mediocre ganhando melhor atriz coadjuvante ( bem na verdade,a injustiça não foi com Streep,mas com Julienne Moore em As Horas) e em 2010 perdendo para Sandra Bullock. Isto não significa que ela não deveria ter ganho os outros anos,sua performance foi tão extraordinária como as de Helen Mirren por A Rainha,ou Kate Winslet por O Leitor. Significa que estamos falando de uma atriz que transcendeu todos estes premios. A Academia poderia ter optado por ela em detrimento das duas atrizes britanicas,entretanto nestes dois anos,particularmente,foram o real reconhecimento de um trabalho. Streep é genial sempre,ano sim,ano também lá está ela concorrendo,e apesar de tanto Mirren,quanto Winslet já possuirem algumas indicações,os dois papéis poderiam ser considerados como trabalhos da vida.

Talvez seja o caso de Meryl Streep este ano. O trabalho da vida. Se não de sua extensa e brilhante carreira,pelo menos da ultima década. Não há fio soltos em sua interpretação. Trata-se de precisão cirurgica. Entretanto,isto em hipótese alguma significa o tal mimetismo estéril: ela não imita Thatcher,ela é Thacher. Sua visão,seu entendimento,seu estudo de quem é a mulher mais poderosa do Ocidente por mais de 10 anos.

O lado positivo do roteiro está em humanizar a personagem que ainda hoje é conhecida justamente como “a dama de ferro”: implacável e intransigente. Entretanto não obteria resultado tão satisfatório se não tivesse como atriz,alguém tão competente quanto a norte-americana para o papel,pois as lacunas do roteiro,preocupado em cobrir toda a vida da ex primeira minista,em acontecimentos pontuais,seriam bem percpetiveis e estaríamos de frente com um longa que se propõe a tudo mas não mergulha em nada . Mas Streep supre a carencia com sua atuação magistral. Margareth Thatcher,já velha,demente,muito longe do que um dia foi,é o ponto alto. O cansaso,a duvida,a exitação, junto ao mesmo tempo com a força e opinião firme de sempre nos desvenda uma velha frágil,abandonada,confusa. O olhar exitante,mas que aos olhos de todos torna-se confiante,o bico quando contrariada,a mão precisa num gesto. Tudo muito preciso.

Duas cenas merecem atenção. A primeira cena do filme,na qual somos apresentados a Thatcher,e a cena na qual a personagem está no auge de seus governo. Naquela, nos é dado conhecer logo de inicio o lado que desconhecemos da primeira ministra,ou seja a senhora de mais de oitenta anos que não possui a mesma fisionomia,nem vigor de quando foi a toda poderosa da Grã Bretanha. Streep nos apresenta uma senhora muito frágil de corpo,mas de olhar fuzilante para as más maneiras de dois homens em uma loja de conveniencias.Naquele momento,ela não é nada mais do que uma idosa,como qualquer outra da Inglaterra,não é reconhecida por ninguém,nem pelo homem apressado que corta a fila e passa na sua frente no caixa,nem pelo dono da loja,nem pelo moço que reclama de sua demora em  sair da frente do caixa,devido a sua locomoção vagarosa. Corta,e em um plano aberto vemos Thatcher andando anonima pelas ruas,corpo vergado,um pouco manca,mas com passos determinados e firmes. A certeza,a determinação permanecem como registro corporal,como carater para usar expressão usada em outro momento no longa. Na segunda cena,a ministra está reunida com seu governo,unica mulher da sala,e num assesso de fúria,perfeccionismo,humilha de maneira firme seu secretário e termina a reunião. Ela não grita,ela apenas de forma firme coloca seu ponto. Todos saem da sala,ela se ve sozinha. O peso é muito grande,mas é preciso ficar firme. De posição de defesa,impávida,ela a cada respirada vai se despindo: o ombro que relaxa,as costas,o olhar frio dá lugar a um olhar triste. Mas ela é a primeira ministra,então o corpo é de novo ajustado,o olhar focado,e a mão se entrelaça. O corpo não voltou a velha posição,ele permanece em duvida até o fim da cena,assim como olhar duro mas pensativo ao mesmo tempo. Solidão. Foco. Clareza.Exitação. Estes são os norteadores de Streep para compor sua visão de Margareth Thatcher.

Visão esta que parece não ter agradado família,nem muitos políticos ( estes talvez por deixar claro o filme o processo de fritura ao qual foi exposto a primeira ministra pelo próprio partido,nada de muito original,ou novo na política).

O título “a dama de ferro” é muito pesado e dificil de ser tirado. Construir um legado como queria Thatcher não significa que a pessoa não possa ser humana,por sinal só é possivel se o é. O grande trunfo do longa  é expo-la,mas de maneira com que vejamos a fragilidade e solidão,e não em ridicularizá-la. Streep o faz de maneira brilhante!

Black Swan

 

Assisti The Black Swan pela primeira há duas semanas atrás,quando o filme terminou eu estava roendo as unhas tamanha ansiedade. Resolvi escrever sobre o longa depois que ele estreiasse nos cinemas pois queria reve-lo na tela grande para primeiro ver se ele realmente se sustentava,pois poderia ser mais o frisson do suspense de não saber o desfecho do que um bom filme em si, e em segundo lugar porque realmente é um longa para cinema,as tomadas são pensadas plásticamente para telas grandes. Resultado: não decepciona,é realmente um belo e bem dirigido filme.

Poderia ser um cliche,a garota bem comportada com uma mãe castradora e mau resolvida que desconta na filha todas suas frustrações. A disciplina espartana do balé e as consequencias muitas vezes nefastas da competição desmedida por um lugar ao sol,ser a única prima bailarina de uma companhia.The Black Swan tem tudo isto,e muito mais. Natalie Portman está absolutamente soberba na pele de Nina,uma bailarina de cotidiano rigoroso,obcecada pela perfeição. A atriz de porte delicado e voz meiga leva estes atributos ao extremo,a cadencia de sua voz,seus gestos são de menina não de uma mulher já adulta,não parece ter mais do que 12 anos.É como se fosse a própria bailarina das caixinhas de musicas,frágil e protegida do mundo.Entretanto como é impossível sermos apenas um lado da moeda,o longa concentra-se na transformação psíquica que sofre a personagem ao longo da história: pulsões de vida e destruição. Torna-se um thriller psicológico,onde seu duplo vai começando ocupar espaço,o lado da destruição,o cisne negro.

Não bastasse seu lado thanos cada vez mais latente,existe na cia de balé uma bailarina novata que é a representação real deste seu lado que tanto tenta reprimir,Nina desenvolve pela garota uma obssessão e repulsa ao mesmo tempo,sendo que muitas vezes em seus delírios as duas se confundem e esta convergencia em uma só vai num crescendo ao longo do longa chegando ao clímax ao final da história,deixando o espectador tão confuso e excitado quanto a bailarina.

Os grandes trunfos de Black Swan são a direção segura e primorosa de Darren Aronosfky e atuação espetacular de Natalie Portman. O diretor não faz uma tomada sem a presença da atriz,ela está presente em absolutamente em todas as cenas. Filmado com muitos closes,principalmente dos rostos das personagens,temos a sensação de sufocamento,de embate direto com o outro e com a própria Nina, na tela grande as expressões tão perto dos atores torna-se violento.  Além dos closes na parte superior de seu corpo por trás,bem em suas escápulas,as asas.Ele também utiliza inteligentemente muitos planos sequencias dos momentos da bailarina dançando,como se a camera dançasse junto,muito perto,como uma subjetiva de outra bailarina  a dançar com ela,só que no caso,ela acompanha todos os movimentos de Nina,ou seja,como se a camera fosse seu duplo a se libertar,causa vertigem e é novamente violento.

Violento. Talvez boa palavra para descrever o filme. O Balé se mostra ao publico como um espetáculo belo,leve,com suas bailarinas vaporosas,delicadas,entretanto o esforço físico da própria dança,e a disciplina são violentos e cruéis. Duas cenas ilustram muito bem esta definição.  A primeira,é a própria cena inicial,um um belo plano sequencia que abre o filme com Natalie Portman vestida de Cine Branco,toda alva e de toutou,leve,linda,virginal.Apenas um foco de luz em toda cena,diretamente nela,a camera vai se aproximando e começa a acomapanhar sua dança,cada vez mais rápido,o personagem responsável por sua transformação em cisne se aproxima por trás,um ser grotesco,grande todo de preto,a dança se torna mais vigorosa,o esforço é maior,belo porém violento.A segunda cena é quando a cia volta das férias,as bailarinas frageis e pequenas em seus tou tous praticamente esfolam seus instrumentos de trabalhos,as delicadas sapatilhas.Batem vigorosamente com a ponta no chão,para quebrar o gesso,arrancam a palmilha com força,riscam vigorosamente a sola com tesouras como se riscassem a carne de alguém,e protegem seus pés bastante maltratados com esparadrapos,pele em carne viva e praticamente deformados.A leveza é apenas aparente.Quem disse que balé é belo?

O final é surpreendente,e não devido apenas ao desfecho,mas a todo o caminho que leva a ele.Pode-se assitir ao longa uma,duas,tres vezes e todas as vezes a audiencia sairá com as mãos suando e roendo as unhas de tamanha ansiedade como se o assistisse pela primeira vez.