HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO

O curta Eu Não Quero Voltar Sozinho (2010) de Daniel Ribeiro foi alvo de uma confusão no Acre.Selecionado para fazer parte do programa Cine Educação e portanto ser exibido nas escolas públicas, o filme foi censurado por sua temática gay. Sorte de Daniel. Sorte de todos nós! Por conta da atitude preconceituosa o curta rapidamente se espalhou como viral na rede e não havia quem assistisse e não se encantasse pela história delicada de amor entre dois adolescentes em plena descoberta da sexualidade: Leonardo, deficiente visual, e Gabriel. Com a notícia meses após o boom na internet de que a história poderia ser contada em um longa, todos os fãs angariados neste período torceram e muito para que fosse verdade. E era! O filme com o título Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é o desdobramento do roteiro em longa. Na verdade Ribeiro disse que havia escrito um longa metragem,mas antes espertamente decidiu por explorar melhor o roteiro e possibilidades experimentando o formato curta. Não poderia ter acertado mais. O longa foi ganhador de dois prêmios no Festival de Berlim, de crítica e o Teddy Bear, voltado para a temática LGBT. A estréia no Brasil foi um estouro e hoje ( 6 de maio de 2014) a distribuidora Vitrine anunciou em seu facebook que havia feito mais de 150mil espectadores. Um fenomeno!

Eu poderia focar este texto em alguns problemas de roteiro apresentado pelo filme, acredito que o curta é melhor resolvido em termos narrativos, entretanto prefiro focar em outros aspectos. Eu só havia visto filme ser aplaudido no final em Mostras, pois em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho eu vi a sessão vir a baixo em uma das cenas finais. Já tinha lido relato de outros amigos no facebook sobre o mesmo comportamento. A sala estava repleta de casais…héteros!

O filme de Ribeiro saiu do nicho específico LGBT e atingiu um público amplo, sensível e aberto para um romance adolescente construído de maneira bela e delicada pelo diretor e também roteirista. Leonardo precisa enfrentar o fato de ser deficiente visual num mundo onde é minoria, é afirmar sua identidade em casa, na escola, na rua, tarefa árdua para qualquer adolescente já construir uma identidade, imagine ter de afirmar uma? Ele nunca beijou ninguém, tampouco parece ter se apaixonado por outra pessoa, até conhecer Gabriel, menino novo que se muda para sua escola e rapidamente entra para seu ciclo mais íntimo de amizade, constituído basicamente por Giovanna, sua melhor amiga. Ele nunca beijou ninguém, ele nunca viu um homem, uma mulher, entretanto acaba se apaixonando pelo garoto novo. O longa vai construindo esta descoberta do adolescente, de sua sexualidade, de sua identidade, de sua independencia, a relação super protetora dos pais, o bullying sofrido na escola. Um filme adolescente…

…um filme adolescente que eu gostaria de ter tido a oportunidade de ver quando estava nesta fase. Ser adolescente já é confuso, descobrir que sua sexualidade não se encaixa nos padrões heteronormativos da sociedade é um pouco mais, garanto. Pela primeira vez no cinema nacional, um jovem gay pode se identificar com o que vê na tela. Não é pouco. Se enxergar no outro, se sentir representado é importante para formação, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho permite isto. E como disse, ele é muito mais, não só os gays se identificam, todos que assistem se comovem com a história, a ponto de aplaudirem quando Leonardo age de maneira contundente e esperta para lutar contra o preconceito ( tanto por sua sexualidade quanto por ser deficiente visual) que sofre ao longo do filme.

O longa de Daniel Ribeiro,me permito dizer, é um filme necessário para filmografia brasileira. Que desta porta aberta, saiam muitos mais!

A Batalha do Passinho

 

“É som de preto e favelado, mas quando toca ninguém fica parado”.

Hoje, dia 07 de fevereiro de 2014, outro juíz expediu uma liminar proibindo rolezinhos em São Paulo. Poucos dias atrás um garoto de rua no Rio foi espancado e acorrentado a um poste com uma trava de bicicleta. Dois dias atrás uma professora ( uma professora!) postou uma foto de um homem no aeroporto Santos Dumont com a seguinte legenda: aeroporto ou rodoviária?

Este deveria ser um post sobre um documentário, A Batalha do Passinho, e é…mas não só, todas as notícias do parágrafo a cima estão diretamente relacionadas com o filme. Totalmente relacionadas!

Conheci o fenomeno cultural que as batalhas do passinho são nas comunidades cariocas através de texto da Ivana Bendes, bastante envolvida com estas manifestações. O grande diferencial das batalhas é que a internet serviu como um mediador poderoso em sua propagação. Desde o início dos anos 2000, meninos das favelas inventaram um novo tipo de dança, baseada no passinho, ou seja no gingado com a perna, para dançarem os bailes funks, uma forma de diversão, na pista desafiavam um aos outros para ver que dançava melhor, até o dia em que um deles colocou um dos registros no youtube e o negócio cresceu de maneira exponencial, a garotada acessava os vídeos feitos e remixava a coreografia, colocando a sua na rede e isto foi crescendo, juntando comunidades, um garoto de uma favela x não teria como saber de outros dançarinos e outros modos de dançar se não fosse a rede mundial de computadores. A coisa foi ficando sofisticada em vários níveis: as coreografias começaram a incorporar vários estilos de musica, teatralidade, uma comunidade no orkut foi criada e dois agitadores culturais criaram a Batalha do Passinho, unificando todas as comunidades num evento no qual os dançarinos duelavam entre si para ver quem sairia coroado.

O documentário acompanha a batalha entre os anos de 2011 e 2012 e entrevista a “elite” da manifestação cultural. Crianças de todas as idades, adolescentes, adultos, todos dançando. Uma das moderadoras da comunidade explica bem a importancia do passinho nas comunidades ” hoje em dia tem poder na favela, o traficante e o dançarino do passinho”. “Mas geeeeeente, como pode um dançarino ter tanto prestígio assim?” pensa o leitor da classe média ( da qual me incluo). Por que um dançarino de passinho, um menino que coloca vídeos bobos e ingenuos e se torna o rei do rolezinho, adquirem tanto prestígio na periferia? O que eles tem? A rigor se pensarmos a fama nos dias atuais, nada. Mas se você caro leitor pode ficar maravilhado quando ve um ex-BBB num restaurante ( eu espero que não fique, mas tem quem fique) por que eles também não podem? O garoto, ou a garota, do passinho, tem a admiração por dois motivos, primeiro pela dança mesmo e depois é porque estão ali mesmo na comunidade, são próximos. Sabe qual a chance dos adolescentes que moram no morro darem de cara com um ator gostosão global na praia? Quase nula, ainda mais com a atitude do governo do Rio de parar todo e qualquer ônibus proveniente da ZN indo para as praias da ZS. Assim como as chances da menina que mora na periferia extrema de São Paulo encontrar um galã no shopping center em São Paulo. É o que mais próximo eles tem da fama. Pff, por favor, irão dizer alguns. Longe de mim querer acabar com a ilusão de alguns que acham que a cidade é para todos, mas vou contar uma historinha que pode ser elucidativa: trabalhei durante muitos anos como arte educadora, mas foi em 2009 e 2010 que tomei o que chamo de choque de realidade. Trabalhava numa instituição cultural na av. Paulista e recebia muitos grupos da extrema periferia de São Paulo e sabem quantos daqueles jovens já haviam pisado no centro expandido? Uns 3% se isto, sim a esmagadora maioria estava saindo da sua região pela primeira vez, sabe por que? Porque eles precisam pegar umas duas conduções ou mais, e isto leva muito tempo,muito mesmo, aí eles chegam no centro e tudo será absurdamente caro e eles serão olhados tortos pela população que habita e frequenta normalmente o espaço. O que nos leva às batalhas e aos rolezinhos e ao menino no Flamengo e ao moço “mal vestido” no aeroporto. Estamos falando de querer ser visto. O triste é pensar que nos dias atuais se é cidadão pelo consumo. Para não ser confundido com ladrão, “vagabundo”, o garoto da periferia quer desesperadamente consumir marcas, no documentário de 2011/2012 os motivos dos rolezinhos de SP estavam já ali, todos eles gastavam uma pequena fortuna para ter roupas da Nike, Adidas, original, cabelo arrumado, perfume, sobrancelha aparada. Ter é ser. Bom para você branco, de cabelo liso e castanho claro sair de chinelo e bermuda sem camisa, no máximo vai levar um enquadro pois vão achar que pode ser “maconheiro”, agora vai o menino da favela sair assim, periga acontecer o que ocorreu com o menino no Rio. E isto mostra o abismo social brutal em que nossa sociedade vive e o consequentemente o racismo velado também. No documentário os meninos não acreditavam na fama repentina que eles adquiriam nas comunidades e nem nas chances que estavam tendo na vida, de conseguir começar a viver do passinho: shows de dança, Olimpíadas e idas à programas de tv. Um deles não se deslumbrava, sabia que um dia isto poderia acabar,mas ia vivendo até onde desse. Outro, um dos garotos mais cativantes do documentário, grande dançarino, esperto, o Gambá diz que seu chefe ( era auxiliar de gesseiro) o chamou para um “papo reto”, ele precisaria escolher entre a dança e o trabalho, a dança não pagaria suas contas e se ele faltasse no dia em que ele havia pedido ele não precisava mais voltar. Gambá preferiu pedir as contas para poder gravar com a Xuxa. Por que seu patrão não o deixou faltar?! Hoje saíu um texto muito bom na Carta Capital sobre o recalque da classe média quando o seu subordinado consegue também os mesmos “privilégios”, Gambá não podia ir na Xuxa, mas gostaria de ver qual reação este senhor teria se o chefe de seu filho tomasse a mesma atitude…o que nos leva novamente aos rolezinhos: preto e favelado não pode, agora alunos da FEA podem entrar aos berros no Eldorado.

Gambá foi na Xuxa, continuou indo aos bailes, continuou dançando. Gambá foi assassinado no dia 31 de dezembro de 2011, ou melhor dia 01 de janeiro de 2012 ao sair de um baile funk. Foi espancado. Ele tenta buscar ajuda e em todos os lugares que tenta achar proteção é escorraçado. O documentário só chega ao ponto em que ele é morto e tem imagens de segurança da rua mostrando um ônibus em movimento que não pára para ele. O que sabe nos ultimos meses é que ele pode ter despertado a fúria de um traficante local por dançar com a namorada deste, ele tenta se proteger, ninguém o ajuda e o pior o acabam matando. Negro. Pobre.

A mulher que deu  depoimento no primeiro rolezinho de SP, diz ter visto um moleque armado. Ninguém viu nada. Negro. Pobre.

O menino no Flamengo foi acusado de ter assaltado várias pessoas na região junto com um “bando”, quem é o bando, quem faz parte dele? Ninguém sabe, só sabem que eles são negros e pobres.

Estamos à beira de uma guerra civil e ninguém se dá conta. Nem a elite, nem a periferia ainda tentando procurar seu espaço. Ela força limites e a elite responde na truculencia. Quando esta maioria vai responder realmente à altura? Ninguém sabe….

TATUAGEM

 

Tatuagem é o primeiro longa de Hilton Lacerda como diretor. Me pergunto porque demorou tanto para ele dar vasão na direção( de um longa, afinal já era diretor de curtas faz tempo) aos seus próprios e premiados roteiros, acredito que seja o encontro mais feliz entre seus diálogos, estrutura narrativa com imagem e som que assisti. Não são palavras fáceis, muitas vezes discursos poéticos, verborragia declarada, para ficar forçado só é preciso errar na mão um pouco, entretanto ele sabe muito bem como transpor suas idéias em planos. Temos um filme poderoso imagéticamente e sensorialmente.

Temos um recorte temporal muito interessante em Tatuagem, apenas pela metade do longa uma época definida é estabelecida: final do regime militar. Repressão, moralismo e liberdade podem existir tanto em pleno século XXI quanto mais de 30 anos atrás e não deixa de ser de uma ironia fina que a palavra “futuro” seja tão usada pelo personagem professor, intelectual, como um devir a ser, como se logo a diante tudo o que buscam,vivem intensamente, será. Na realidade, a própria liberdade exaltada, sentida, encarnada da trupe de teatro Chão de Estrelas parece mais possível como coisa real em plena ditadura como resistencia, como vital à sobrevivencia, do que no moralista e “coxinha” século XXI, onde tudo é permitido.

O grande feito está na construção da narrativa  entre dois mundos: do diretor Clécio ( um absolutamente genial Irandhir Santos, o melhor ator nacional atualmente, impecável) e do cabo Fininha, um garoto de 18 anos, vindo do interior para Recife para servir o exército. Lacerda cria uma ponte entre estes dois universos de maneira natural, o menino está entre os dois lados mais pela família e sustento do que por convicção.  A arte é o fio condutor, a liberdade sexual como ato político, são estas duas vertentes que sustentam o amor do casal e o longa. Hilton cria imagens fortes,  sensoriais, é quase paupável o espaço de shows da trupe, é como se fizessemos parte daquela comunhão, fossemos cumplices daquele espetáculo. A criação artística é uma arma poderosa, transformadora, como a cena em que o ator com uma bandana vermelha cobrindo o rosto como personagem de faroeste nos aponta uma camera super 8mm ( como no curta experimental da década de 70 em que dois diretores “duelam” com suas cameras, ou seria um bandido?ou um herói de Sganzerla?).

A sensação ao sair da sala de exibição é de um espetáculo encarnado no espectador, “feito tatuagem”, assim como foi no cabo Finhinha. Podemos voltar para o cotidiano quarta-feira de cinzas, mas alguma purpurina sem prende para sempre.

Eu Receberia as Piores Noticias de seus Lindos Lábios

Desde Um Crime Delicado Beto Brant mudou seu olhar. As relações cruas,tensas,perigosas,nuas continuam é claro,mas o diretor se preocupa mais com a força imagética de seus quadros,poesia em forma de imagem.Tempos outros,não mais acelerados,e que entretanto também não se extendem por demasia,uma reflexão começada,mas interrompida.

Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios,é tão bonito quanto o título. O personagem principal é um fotógrafo,ele enxerga o mundo através de composições,jogos de luz,beleza e curiosidade instantanea. E o longa segue a mesma direção,uma belíssima direção de fotografia,dando espaço para os personagens na imensidão da floresta Amazonica,e que procura com o olhar que tudo quer seguir prolongar ao máximo esta experiencia,entretanto como nada ali são flores a interrupção é sempre abrupta,um plano sequencia que promete revelar mais,dar tempo ao tempo dos acontecimentos é cortado brutalmente,os cortes,secos.

O elenco é primoroso,como já escrevi anteriormente em Trabalhar Cansa,o cinema brasileiro finalmente parece ter encontrado um caminho de atuação para a linguagem cinematográfica que não caia no demasiado teatral ou naturalista bobo de tv e que não precise contar com os métodos para mim duvidosos da Fátima Toledo. É um pouco discrepante a diferença de atuação entre o elenco masculino principal formado por Gustavo Machado,Gero Camilo, Zé Carlos Machado,atores teatrais,com formação sólida e Camila Pitanga,atriz basicamente de tv.  A personagem feminina carece de força que ao me ver deveria ter. Um furacão,instinto puramente,mas que não encontra na atriz este potencial. Camila é linda,seu jeito moleca brejeira lembra um pouco Gabriela e é fácil entender como pode virar a cabeça do personagem,mas fica nas entrelinhas que a sua intensidade,seu jeito irracional é o que cativa mais. Pitanga seduz pela sua beleza estonteante.

Fico com a impressão que o roteiro de Brant e Aquino,autor do livro do qual o longa foi adaptado, privilegia mais a força da imagem em si do que a narrativa. É um filme imagético,totalmente,mas que mesmo com o roteiro amarrado deixa o espectador com gosto de quero mais,como fosse possivel saber que existe mais recheio,que os personagens no livro vão muito além,algo confirmado por amigos que leram o livro.

Claro,literatura e cinema são duas linguagens distintas e o adaptador e diretor seguirão uma estética e farão escolhas baseados no que para eles é mais importante de tudo isso. Brant escolheu a imagem,o olhar do fotógrafo para o mundo.Fez bonito,é um bom filme. Mas agora para mim,restou a curiosidade de ler o livro e fazer a escolha pelos personagens.

Trabalhar Cansa

 

No cartaz do filme,uma frase de uma crítica de um jornal norte-americano ” De Sica encontra o Iluminado” . Uma combinação um tanto estranha é verdade,mas que podia ser bem interessante afinal estamos falando de dois grandes diretores. Entretanto fica apenas na promessa de uma frase de efeito.

Vittorio De Sica,aristocrata e membro do partido comunista,problematiza de maneira vertical e sempre de maneira delicada a sociedade capitalista,em nenhum de seus longas o tom é panfletário ou cheio de cliches,muito pelo contrário. Já não é possivel dizer o mesmo de Trabalhar Cansa. O filme usa e abusa de cliches opondo a classe média à classe trabalhadora,se carregasse menos na tinta,conseguiria dar um retrato mais humano desta dicotomia. A relação mais emblemática é entre a personagem principal e a empregada doméstica,a menina é nova,é o seu primeiro emprego,ela reluta em aceitar o posto pois não será registrada,ao que a patroa replica que será muito dificil encontrar um emprego de carteira assinada e os encargos são muitos para ela. Ao final do longa,a moça torna-se funcionária de limpeza de um shopping,quando está saindo do seu turno,um moço engravatado vem em sua direção, lhe entrega sua carteira e diz ” voce está registrada. Parabéns,agora voce existe”.Completamente desnecessário e sintomático do que acontece ao logo da narrativa.

O lado Iluminado fica por conta do supermercado adquirido pela personagem principal.Coisas estranhas acontecem por lá.Entretanto por serem tão espaçadas entre si,perdem um fio condutor e são situações jogadas que não acrescentam em nada ao longa. Para lembrar nem que de longe o filme de Kubrick o mínimo que deveria acontecer seria a personagem entrar em completa simbiose com o local e aquilo começar a afetá-la profundamente. Não acontece. Sua relação com o local vai se deteriorando porque sua relação com sua família cada vez mais é abalada pela falta de emprego do marido.

É um filme que pretender ser tudo ao mesmo tempo: critica social,drama,suspense,terror psicológico e não consegue verticalizar em absolutamente nada.Mas Trabalhar Cansa tem algo extremamente positivo: o casting e a direção de atores. É um filme de atores,se não fosse pela interpretação o filme seria ainda mais fraco. É impressionante a qualidade de atuação do casting. Muito bem resolvida. Longe do engessamento que às vezes nossos atores são acometidos,não conseguindo entrar na linguagem cinematográfica,ou da atuação histérica da Fátima Toledo,o casting de Trabalhar Cansa é afinado e em sintonia,muito bem colocados dentro de uma vertente naturalista.

O cinema nacional precisa ainda buscar o tom da critica social sem cair na denuncia panfletária e maçante.

MIS PARA PESSOAS

Em 17 de maio de 2011, o atual Secretário da Cultura do Estado de São Paulo, Andrea Matarazzo, afirmou ao Caderno Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo : “nossa ideia é aproximar o MIS das pessoas.” Mais adiante, no mesmo depoimento, ele sugeriu possíveis razões para o afastamento do público daquele espaço:  “O MIS tem esse aspecto de vanguarda, sempre teve, mas hoje está um pouco restrito demais às novas mídias, quando na verdade não precisaria perder a sua origem, que é a de ser um Museu da Imagem e do Som”.

Outro ponto crucial e que lança luz sobre o raciocínio empregado pelo Secretário em sua gestão e apontado durante sua entrevista deve ser mencionado aqui. Para Matarazzo “a fotografia se popularizou muito e poderia ser explorada melhor no MIS. O mesmo vale para os filmes e vídeos.” E vale também para os jornais, que reúnem várias linguagens “que se encaixam perfeitamente no MIS (…) É uma das coisas que a gente pretende no MIS. Não que ele abandone a vanguarda nem as novas mídias, mas que ele volte às suas origens e que amplie o seu público.”

Pois bem. A vanguarda, à qual o Secretário se refere, manifesta-se em pesquisas e trabalhos cuja essência está na hibridização das linguagens artísticas, na fronteira ampla e porosa entre os suportes tecnológicos – como a fotografia, o cinema, o vídeo e a hipermídia. Se a proposta feita pelo Secretário é voltar às “origens”, então qual é a grande mudança? Vale lembrar que todas as linguagens e formas de expressão artísticas são decorrentes e complementares umas das outras. Pois a fotografia  nasce da pintura; o cinema acrescenta movimento à fotografia; o vídeo amplia e transforma a linguagem cinematográfica; as artes visuais se apropriam do cinema e modificam sua estética de forma marcante desde a década de 1960. Por fim, em resumo, todas as frentes de expressão artísticas se retroalimentam, constantemente, num exercício de apropriação e ressignificação necessário ao caráter reflexivo, questionador e inquieto da arte.

Com a era da computação, dos softwares e da internet, a informação é popularizada e catapultada a centro dos relacionamentos entre os humanos e de humanos com o ambiente que os cerca. Um novo paradigma é estabelecido. A  rede, a nuvem de informação nos conecta via computador, tablets e dispositivos móveis. Nossa maneira de ver, ouvir, produzir, nos relacionar é a mesma do começo do século XX? Não.

Num ritmo cada vez mais veloz, participamos de mudanças de grande impacto em nosso cotidiano. Quer dizer, participamos agora, se escolhermos dizer sim à nossa vocação de agentes, nos envolvendo em pesquisas, debates e trabalhos dispostos a dialogar sempre com as novas mídias de maneira propositiva. Caso contrário, seremos engolidos passivamente, operando apenas como a ponta final desse sistema – meros consumidores de tecnologia, inebriados por seu feitiço imagético encantador.

A “origem”, mencionada pelo senhor Secretário como uma musa-mãe, é bastante difícil de indicar, já que sua existência é construída sempre social e culturalmente. Podemos tentar nomear o cinema moderno de narrativa clássica  e sonoro, por exemplo, como “a” origem. Plano, contraplano, plano sequência, profundidade de campo, a câmera como personagem e som! Imagine se na época em que um Fritz Lang, um Orson Welles ou um Fellini estivessem  pesquisando a linguagem do cinema fossem limitados pela obrigatoriedade de encher salas de cinema. Se deixassem sua gana de lado porque alguém lhes disse:  “nao, não. O público não está acostumado com isso! Cinema para eles é o que foi feito na origem: câmera estática, película muda e em preto e branco”.

O MIS São Paulo deveria ser motivo de orgulho por abrir espaço e investir em pesquisa em novas midias; por dar espaço e incentivar a arte contemporânea na vertente mais pulsante do século XXI : as estéticas tecnológicas. Com esse discurso, o Secretário parece querer jogar fora  a criança junto com a água do banho.

A falta de público que acomete a instituição não pode ser creditada ao nível de sua programação. Uma programação excelente, com ótimas exposições, grandes palestrantes,  oficinas do LABMIS espetaculares, tudo com a presença e esforço de profissionais renomados. Só para mensurar os feitos dos últimos dois anos,  a instituição recebeu, entre outros, Pipilotti Rist, Gary Hill, FLUXUS, Roj® e muitos outros. Em qual outro museu do mundo encontraríamos tal grade de programação? Talvez em Nova York ou Berlim, onde existem muito  mais aparelhos culturais e com melhores infraestruturas.

Trazer o público ao MIS é sim uma necessidade urgente e que não deve ser tomada como tarefa das mais simples. Entretanto, isto não deve ser motivo ou justificativa para transformar o espaço num museu que usa da tecnologia como mero suporte técnico ou recurso discursivo para a reprodução de um modelo retrógrado, transformando o espaço em acervo e vitrine da grande e velha mídia brasileira.

Ao invés de aprisionar o visitante no conformismo, no “mais do mesmo” como pretende a Secretaria de Cultura, é necessário instigá-lo a conhecer coisas novas, a expandir seu repertório e a compreender a importância do investimento em pesquisa e novas linguagens. Se um garoto de 15 anos nunca for instigado a ver uma apresentação de videomapping, como ele poderá saber que, primeiro, tal coisa é possível, segundo, vir a apreciar e se interessar, modificando a sua relação com o mundo? Se o museu der a este garoto apenas o que ele já está acostumado, qual a importância de sua visita? Números? Queremos mais do que números, Secretário! Queremos um MIS para pessoas, sem negação de sua vocação vanguardista.

O MIS pode e deve ampliar sua parceria com escolas de ensino médio, tanto públicas quanto particulares, investindo em projetos a longo prazo, como oficinas e acompanhamento do setor educativo por instituições e organizações, na formação de pessoal cada vez mais capacitado a fomentar novos visitantes. A programação de palestras deve levar em conta horários mais viáveis para seu público-alvo, como universitários e jovens em formação, sendo deslocada talvez para os fins de semana e não para as noites durante a semana, como é no momento. Já existem bons parceiros como Senac, Kinoforum, Academia Internacional de Cinema, entre outros, só são precisos esforços para ampliar cada vez mais o número de interessados.

No site do museu há a informação que o acervo está para ser digitalizado. Deveria ser investido pesadamente numa plataforma multimídia para democratizar o acesso, incentivar a pesquisa e oferecer retorno imediato a tudo que o MIS já possui. Com o Plano Nacional de Banda Larga o acesso será ampliado e uma verdadeira rede entre instituições culturais, universidades, pontos de cultura, bibliotecas e ONGs pode ser criada.

Além disso, chegar ao MIS não é tarefa simples: existem poucas linhas de ônibus (Pinheiros, Butantã, Cidade Universitária – linhas estas que já demonstram, inclusive, um perfil de público possível, mas que se utilizam da avenida Europa apenas como via de passagem). O prédio, embora tenha passado por reformas recentes, ainda é um espaço frio e pouco convidativo ao convívio e permanência. Parecem detalhes, mas estes são alguns dos graves impecilhos para que o publico descubra e se aproprie do espaço.

É necessária uma ação pontual por parte do governo e que, diante de todo o esforço que o Secretário aparenta estar disposto a fazer, é bem simples. Micrônibus aos finais de semana poderiam ser disponibilizados, ligando regiões estratégicas, como a estação Consolação do metrô ou o Parque do Ibirapuera, ao MIS.

Este é um momento crucial para o MIS. Se a disposição demonstrada pelo Secretário em atrair público para o espaço for mesmo séria, pedimos que ele a faça como manda o regime democrático que o colocou nesta posição: com debate e rodada de conversas com o público, artistas, educadores, outras instuições, representantes da sociedade civil e formadores de opinião.

Não façamos do MIS mais um museu de cenografia suntuosa, midiático – no sentido mais raso que o termo pode ter -, amparado pelas pirotecnias tecnológicas e pobre em reflexão e inovação. Não vamos usar a necessidade da formação de público como pretexto para uma castração cirúrgica da vocação de um dos espaços mais importantes do país quando o assunto é arte e tecnologia. Pedimos, agora mesmo e sem demora, que o Secretário da Cultura do Estado de São Paulo, Andrea Matarazzo, abra espaço para o debate e coloque a mão na consciência para os rumos que dará ao MIS, a partir do poder que lhe foi concedido pela sociedade

Malu Andrade é produtora cultural. Lara Alcadipani é jornalista. Ambas são pós-graduandas em Estéticas Tecnológicas pela PUC-SP.