Carol

Faz dois anos desde a minha ultima postagem. Curiosamente, um post sobre o casal lésbico da novela das nove. Abandonei o blog por inúmeras razões, entretanto o longa Carol me deu impulso para voltar a escrever novamente. Pode ser um post solitário ou quem sabe um retorno, ainda não sei.

O que sei bem é como o filme de Todd Heynes baseado no livro “Price of a Salt” de Patricia Hightsmith mexeu comigo. Poderia fazer um post sobre como a direção de fotografia chega ser de tirar o fôlego, ou como a direção de arte é magnífica e tem aquela matiz de cores bem característica de Hoper, ou da direção sempre elegante e sensível de Heynes, ou como Cate Blanchett é uma deusa ou Rooney Mara é maravilhosa, ou como tudo, absolutamente tudo funciona perfeitamente neste filme! Mas não…é um post que extrapola o filme através de seu roteiro.

Patricia era lésbica. Phyllis Nagy, roteirista, também. Não achem mero detalhe, é importante. Após a estreia de Carol e a esnobada dada pela Academia ao filme eu li vários textos em revistas de cinema, blogs de audiovisual e feministas tentando explicar o inexplicável: como um filme sensível e excelente pode ter sido solenemente ignorado pelo Oscar? Um dos textos, se não me engano na própria Variety, falava em não compreensão de seus membros: a esmagadora maioria composta por homens, héteros e com 60 anos ou mais. Parece bobo dizer isto, mas o curioso é que não, não o é!

Ouvi de gays que faltou pegada na cena de sexo entre as duas, faltou algo como Azul é a Cor Mais Quente. Ouvi de mulheres héteros que faltou um embate de como era difícil a questão da homossexualidade na época, quase um panorama histórico.

Eu acho Azul…um excelente filme, já escrevi sobre ele aqui, entretanto muitas ( e muitas MESMO) lésbicas o acham um filme deveras heteronormativo. Sim, ele tem algo mesmo nesta pegada: uma assume o papel da dona de casa, a outra é o espírito livre, pegadora. O longa é uma adaptação de uma grafic novel escrita por uma mulher, Julie Maroh, e o plot é bem diferente do que o filme se tornou ( só dar uma busca rápida na winkipedia), este roteirizado e dirigido por um homem. Não, este também não é mero detalhe porque ao ler os três parágrafos sobre como a narrativa se desenvolve nos quadrinhos é possível perceber que a escritora é mulher e lésbica. Sutilezas e detalhes…

…estes presentes em Carol e em qualquer relação lésbica.

A cena chave no longa de Heynes é quando Therese ( Rooney Mara) vai encontrar seu novo amigo no New York Times. Ele a convidou dizendo ser uma boa conhecer a redação e que podia a apresentar para o editor de fotografia, quem sabe ela poderia descolar um emprego de assistente. Não há nem o que pensar, a oportunidade de trabalhar com o que gosta de fazer e deixar a enfadonha loja de departamento. Pois bem, ela chega e só há ele no jornal. Isto já não é o que era para ser, penso logo eu. Realmente não é, conversa vai, conversa vem e ele a beija. Ela não corresponde e vai embora. É uma cena rápida, talvez as pessoas tenham prestado atenção no excelente diálogo entre os dois sobre como gostamos de alguém ( uma referencia entre a vida ser um jogo de pimball, bolinhas esbarrando o tempo todo uma nas outras, e como gostamos ou não de alguém, simples assim) do que neste gesto, porque ele já está naturalizado. Sim, podemos até ficar incomodadxs pela cara de pau do cara, entretanto não damos muita atenção e a vida segue.

Imaginem: ao invés do cara, ela é quem trabalha no jornal e  o convida da mesmíssima maneira e o beija como ele o fez. Não, eles nem precisam estar na década de 50, posso afirmar para vocês que não seria nem de longe encarado com a naturalidade com que a audiência viu a iniciativa dele. Afinal mulher mesmo em pleno século XXI sofre quando quer ela tomar a iniciativa e sinceramente não consigo imaginar uma mulher tomando uma atitude destas, quando não há NENHUM sinal de reciprocidade. Imaginem mais: é Carol quem trabalha no jornal e a convida para conhece-lo. Piorou não?

Sutilezas e detalhes… Repito porque é importante e porque o filme é isto!

Mais contexto histórico da luta pelos direitos LGBT? posso dizer que a minha vida e de outras lésbicas é uma luta praticamente diária no micro, no cotidiano, no sutil. Não importa o quão aceita você é pela família, amigos, a sociedade está aí e juntar ser homossexual e mulher é ser oprimida. Pior do que isto só as trans, imagine nascer homem e querer perder esta dádiva para ser mulherzinha? A questão é: a vida de uma lésbica não se dá no macro em seu dia dia, nós vivemos, respiramos, amamos, sofremos, como qualquer pessoa. E honestamente Carol é uma paulada violenta. Perder a guarda da filha, se submeter aos caprichos do ex marido escroto, de sua família nojenta, ter seu comportamento tachado de imoral e precisar ir a um analista para se corrigir é de uma brutalidade gigantesca. Me embrulhou o estômago.

Entretanto também amamos e vivemos. Não se enganem, não é uma roadtrip bobinha. Sutilezas e delicadeza, certo? Existe a tensão sexual entre as duas,  mais do que isto, existe companheirismo, carinho, cuidado, entretanto mesmo estando claro que há algo ali obviamente, elas precisam cruzar metade do país para finalmente consumarem o que sentem. Pode ser os anos 50, pode ser o fato de Therese nunca ter tido uma experiência homossexual e até uns dias atrás ter um namorado,pode ser o fato de mulheres não serem criadas para expressar seus desejos, pode ser tudo isto. Tão mais fácil roubar assim do nada um beijo, não? Então não!

Chega ser tocante a aparente facilidade em que duas pessoas que se gostam decidem ficar juntas. Você gosta ou não gosta de alguém, bolinhas de pimball se batendo por aí…e ao mesmo tempo nas camadas internas de uma dificuldade abissal: família e sociedade que cobram um preço alto por aquilo que você é. Carol dizendo que ela não irá deixar de ser quem é, correndo o risco de perder completamente a filha é doído, é muito forte porque é algo que ao negar é morrer em vida.

Carol é o filme com a melhor identificação com o universo lésbico. É tão bom se ver representada na tela. O amor é universal, até a página 10, as formas de amar são muitas e nós somos bombardeadxs com o modelo heteronormativo. E isto inclui Azul…com uma inclinação para esta “normalidade” e um olhar masculino ( e repito acho um excelente filme), a tal cena de sexo para mim é sem graça, o filme é muito mais do que uma trepada de 10 minutos, total visceral, já em Carol a cena é mais delicada e tem muito mais verdade, nem acho tão essencial a cena em si, o primeiro beijo delas, apaixonado, terminando com toda a tensão sexual, a dúvida e angustia é muito mais interessante.

Eu acho  ótimo o fato de não ter atingido universalmente, porque isto mostra o quanto precisamos avançar em narrativas, em olhares outros. Não só na produção, mas na fruição também e nas relações. Empatia é a chave.

Como disse o texto extrapola o filme. É quase um desabafo do porque te-lo achado genial. E para quem é lésbica e já assistiu muitas produções ( das mais mainstream às toscas) sabe como os longas com esta temática terminam mal, na impossibilidade do encontro. Terminar da maneira bonita como termina chega ser um alento…

 

 

CLUBE DE COMPRAS DALLAS

Cinco milhões de dólares. Para nós, é um orçamento alto, para os padrões norte americanos é bem modesto ( só por crowdfunding o filme sobre a série Veronica Mars arrecadou mais de 7milhões). Vinte anos separam a escrita do roteiro por Craig Borten e a realização finalmente do longa. Muitas foram as tentativas até que finalmente diretor e equipe toparam.

Jared Leto após ter ganho o Oscar afirmou ter sido dificil a jornada, dificil exatamente pelo orçamento bem limitado que possuiam, tempo escasso de filmagens. Ao contrário de super produções, a equipe era enxuta e precisava ser multi task ( acho que o máximo o quanto uma produção cinematográfica norte americana com seus sindicatos deixa).

Angariar patrocinadores para este projeto com certeza não foi tarefa fácil: retratar a história real de um cowboy homofóbico que em plenos anos 80 contraíu AIDS ao se relacionar com uma prostituta dependente de drogas injetáveis e que para sobreviver apelou para tratamentos alternativos ao recomendado pela FDA- o AZT apenas disponível para pacientes triados para pesquisa- com  sucesso e mais do que isto cria um clube de compras destas drogas, para outros que como ele buscavam desesperadamente sobreviver.  O problema não está no vírus HIV, o problema está em escancarar o lobby das poderosíssimas industrias farmaceuticas, em dilemas éticos e jurídicos em não permitir que pacientes em estado terminal (porque o que era a AIDS em plena década de 80 se não isto?) tentem qualquer forma de tratamento que possam ajuda-los, em alternativas simples como vitaminas, boa alimentação, proteínas puras, remédios naturais que podem ser tão eficazes quanto esta droga potente e no início tão letal quanto a própria doença ao destruir mais ainda o sistema imunológico. Clube de Compras Dallas é um vespeiro. E dos bons!

O roteiro acompanha o desenvolvimento da doença em Ron Woodroof, um cowboy eletricista trambiqueiro. Ao parar no hospital por um acidente de trabalho, ele descobre que sua tosse e sua aparencia cadavérica são resultado do vírus HIV, o prognóstico mais otimista do médico: 1 mes de vida. A partir daí,malandro que é ele dá um jeito de conseguir a nova droga testada em humanos para tratar a AIDS, o AZT. É de saída o mal estar que o filme causa ao mostrar o que na década perdida as pessoas infectadas foram capazes de fazer para ter uma mínima tentativa de sobrevivencia e o total despreparo das autoridades para lidar com uma doença nova, letal e que se espalha com grande velocidade. Na busca pela sobrevivencia ele conhece Rayon, um transsexual viciado em drogas que foi escolhido para fazer parte da pesquisa. Os dois desenvolvem uma parceria comercial no Clube de Compras que abrem para tratar dos pacientes soro positivos com outras drogas, proíbidas pelo FDA, e ao longo da história vão desenvolvendo uma grande amizade, de uma maneira torta, permeada por comportamento arredio por parte de Ron, caipira homofóbico que vai aos poucos relaxando e mudando seu comportamento a medida em que sua aproximação com Rayon aumenta e também com outros homossexuais, membros de seu clube.

É um filme na medida certa, correto na direção, um bom roteiro sobre o início do clube até a FDA conseguir sua proíbição e principalmente trata-se de um filme de ator, a força do roteiro, a força do longa em si está na construção dos dois personagens principais: Ron e Raymon. Não acho Mathew McConaughey um grande ator, ele é na maioria das vezes limitado e canastrão, mas justiça seja feita, em Clube de Compras Dallas ele constrói um personagem rico, vibrante, dramático, complexo. Ajuda o fato do personagem ter um “que” canastrão no modo de se relacionar com os outros, ele se aproveita disto e cria um tipo delicioso. E claro ter como suporte Jared Leto como o transsexual Rayon só acrescenta. Leto é um dos melhores atores de sua geração, infelizmente pega papéis menores, faz poucos filmes ( há 4 anos não contracenava no cinema) e prefere excursionar com sua banda horrível. Ele cria com muita delicadeza Rayon, num tom certeiro, melancólico, trágico. Alguns grupos LGBT torceram o nariz pela escolha dele para o papel, achavam que era necessário um transsexual para o papel, entendo a luta das organizações para que os trans também tenham voz na industria, mas é deixar as coisas muito no preto e branco, só homossexuais poderiam interpretar outros homossexuais também? O argumento usado de que brancos no início do cinema interpretavam negros e isto seria a mesma coisa é muito frágil, não se sustenta.

Clube de Compras Dallas é um filme que merece e muito ser visto: ótimas atuações e um roteiro corajoso ao mostrar o lado perverso do lobby das indústrias farmaceuticas, um lado da epidemia da AIDS nos anos 80 não mostrado até então para o grande publico.

O LOBO DE WALL STREET

Scorsese é um dos grandes diretores norte-americanos, vamos já começar assim o texto. Não só diretor, produtor também. Não bastasse tudo isto, ele também pensa o cinema como História, tem um bom livro sobre cinema norte-americano, material escrito sobre uma série de documentários produzidos para a BBC em 1995 ( Uma História Pessoal pelo Cinema Norte Americano) e é o diretor e fundador da World Cinema Foundation, fundação criada para, como o nome diz, preservação do cinema mundial.

Eu sou suspeita ao falar dele: Taxi Driver, Touro Indomável, A Ultima Tentação de Cristo, Cabo do Medo, Os Bons Companheiros, Cassino, Hugo Cabret são longas absolutamente excepcionais, a grande maioria está na minha lista de melhores filmes da vida. Sem contar os documentários sobre musica: blues, Dylan e Stones foram objetos de sua lente.

Pois bem! Por tudo dito nos dois parágrafos anteriores é que quero chorar com sua filmografia desde os anos 2000 ( tirando Hugo Cabret e os documentários). Querendo ou não para a indústria cinematográfica, o Oscar conta; conta na hora do teu próximo orçamento, conta na bilheteria, it´s business! E talvez também para a auto estima, uma vez que voce é norte americano. Dá para entender como nenhum dos filmes colocados aì em cima ganharam o Oscar de melhor filme ou direção? E parece que Martin entrou o século mirando a Academia e finalmente ganhou com  O Infiltrado, um remake de um filme chinês. Curiosamente o que menos tem cara de blockbuster entre todos seus longas ficção dos ultimos 14 anos, e entre todos os que mencionei a cima, o mais fraco, de longe!

O Lobo de Wall Street pode nem ser um filme que mirasse tanto à estatueta dourada, devido a ser tão politicamente incorreto (misógeno, cheio de drogas e com mais cenas de sexo grupal do que Nymphomaniac) mas tem sua estética blockbuster: planos, edição, narrativa. Não é um filme de todo ruim, o roteiro em primeira pessoa contando as aventuras do investidor trambiqueiro, ególatra e imoral para virar um milhonário é divertido, mas é tão chapado, tão sem nuances, que fica difícil. Os personagens podem ser histrionicos, os atores não, porque aí se torna insuportável, fica dificil acompanhar quase 3h de filme com um personagem principal que deveria ser sedutor (ganhando todo mundo na lábia, na venda) e claro ao mesmo tempo um maluco, mas que é apenas o desequilibrado. Queria entender porque Scorsese insiste em Leonardo Di Caprio, ok neste caso, o ator é o produtor executivo, ele trouxe o diretor para o projeto, mas por que 5 filmes com ele nos ultimos anos? O bonitinho era uma promessa quando ser um ator tomado e exagerado fazia sentido quando adolescente,mas crescido, ele é sempre over, sem sutileza alguma, não é capaz de obter várias camadas do personagem, é sempre muito, sempre um,dois tons à cima e como seus personagens são transloucados pode parecer num primeiro momento bom, só que 10min depois só se torna maçante e o roteiro se perde em caretas, em berros, em olhos esbugalhados. Acontece isto em O Lobo de Wall Street, potencializado por mil,porque o personagem pede uma canastrice e algo fora da casinha, Di Caprio acha então que precisa ir além do que geralmente já faz, o resultado é um desastre. Fico imaginando se fosse Daniel Day Lewis, Christian Bale, atores que criam muito bem tipos, interpretando o executivo, consigo ver sutilezas, humanidade e o roteiro fluiria melhor.

Espero ve-lo daqui dois anos num novo Oscar, desta vez com algo à sua altura.

 

ELA

Dirigido e escrito por Spike Jonze, ELA é um primor. Assim como em seu longa prévio, Onde Nascem os Monstros, a fotografia, direção de arte e trilha sonora compõem de maneira delicada a atmosfera do filme. Não que em Quero Ser John Malkovitch ou em Adapção, não estejam lá estes elementos, mas em ELA é marcante a cor lavada da fotografia, um filtro nostálgico anos 70, as cores magenta e pastéis, o design lindo e clean dos cenários. A história se passa em algum lugar do futuro e é como se os personagens vivessem num lindo comercial da Apple.

Theodore é um escritor de cartas à mão, depressivo com o final do casamento, que se apaixona por seu sistema operacional, Samantha, na voz sexy, divertida de Scarlett Johanson.

É um filme de muitas camadas, para no final na verdade falar de desejo, ser, matéria, abstração. Através do amor Jonze constrói um filme filosófico sobre o existir, sobre a relação com o outro.

A perda, a projeção no outro, a impossibilidade de ser completo são temas recorrentes em sua filmografia e em ELA é o amadurecimento destas questões, um romance melancólico, uma busca infinita por ser feliz. A personagem de Amy Adams, melhor amiga de Theodore, lhe diz que tudo que pode buscar na vida são momentos de alegria. Ele re encontra estes lampejos na figura de Samantha, sem carne, sem concretude, uma voz, um sistema operacional.

Interessante ver como Jonze coloca em questão a emergencia artificial destes programas, como num plano ideal eles poderiam evoluir continuamente ao ponto de sentirem emoções reais, em bites, em algorítimos, colocando em questão o que nos torna humanos, nossa capacidade de nos emocionar, de abstrair em relação a máquinas programadas, as quais no caso também podem, também se apegam. A própria existencia em jogo: Cogito, ego sum. Assim, Samantha também existe, ela reflete e principalmente ela sente: amor, ciúmes, medo. Existe não num plano material, palpável, concreto, num plano de números, escrita binária, no tempo e não no espaço, sem a finitude.

Theodore, um homem que vive as emoções de outras pessoas: ser escritor de cartas para os outros, colecionando fragmentos da vida deles e naquele pedaço de papel viver intensamente um recorte, uma situação. Tão fake quanto uma nota de 3 dólares, o consumidor que pede há anos para que cartas a outros sejam enviadas, os que recebem a carta e que provavelmente sabem que não se trata de algo real e o fato de num mundo cheio de computadores, as cartas serem ” à mão” para dar um toque pessoal, ao invés dos caractéres gerados por computador, uma falácia, sendo que a letra manuscrita também é gerada por um programa. Ele que se cala e prefere o silencio ao invés de dizer o que sente em um relacionamento até o insuportável explodir, ou implodir. Que projeta no outro desejos. Sua ex esposa lhe diz que ele não sabe lidar com emoções reais. E quem sabe?

No mundo de ELA, existe uma relação cada vez mais cumplice entre homem e máquina, uma multidão silenciosa entre si, se relacionando com seus dispositíveis, apenas um simulacro da realidade ou um novo paradigma tão real quanto, apenas em planos distintos? É interessante esta posição de Jonze, ele não julga, ele, aliás, coloca a A.I em outra posição, não mais a desagregadora da sociedade, ou alienante, mas uma nova organização. Humanos desesperados por afeto, por sentir, pelo outro, como sempre. É preciso um corpo? É preciso tocar? Rir, se divertir e se sentir vivo não são o bastante?

Aliás, o que é o bastante?

A eterna busca pelo impossível. Pela completude.

 

12 ANOS DE ESCRAVIDÃO

“Sobreviver é não dizer à ninguém quem você é.”

Assisti ontem 12 Anos de Escravidão com o péssimo texto de André Forastieri na cabeça, intitulado “16 razões para não ver 12 Anos de Escravidão“. Se ele pretendia ser irônico é fraco, se queria chocar, existem pseudos filósofos que fazem melhor, agora, se for para valer, é patético. Eu ao contrário do blogueiro poderia dar 16 razões para ve-lo.

Já faz algumas boas décadas que Hollywood aborda os temas escravidão e segregação racial em seus filmes. De forma mais melodramática como Amistad e A Cor Púrpura, ambos de Spielberg, ou mais política como os filmes de Spike Lee,entretanto desde a chegada de Barak Obama ao poder é que tais temas se tornaram parte da agenda realmente e principalmente do Oscar: Histórias Cruzadas, Django ( já comentado aqui) e agora 12 Anos de Escravidão. Eles tem em comum o fato de não aliviar a condição sub humana na qual negros por séculos foram colocados nos EUA. São cruéis em retratar a bestialidade W.A.S.P e a intricada relação “paternalista”  entre negros e brancos.

Como em Django, o filme do diretor britanico Steve McQueen apresenta matizes variadas na relação entre senhores e escravos. Sempre nos foi mostrado como os EUA com uma relação muito bem definida entre brancos e escravos, cada um em seu espaço e no Brasil, ao contrário, uma pretensa democracia racial, onde os espaços são mais flúidos. O que nos mostram estes dois longas é que ao contrário do que pensamos estes limites na “América” também podem se borrar, entretanto em hipótese alguma é sequer levantada hipótese de uma democracia racial, no final os papéis estão bem sólidos. Podemos ter escravos que se beneficiam da simpatia do senhor, principalmente escravas, pelo viés sexual, entretanto mesmo gozando de prestígio na casa grande, eles continuam sendo propriedades e podem perder as regalias por absolutamente nada.

O longa é cruel não só pelas cenas fortes de açoitamentos, mas principalmente nas relações, em como seres humanos são objetificados, retirados de sua humanidade, reduzidos à nada, a corpos e mentes dos quais não são senhores. O mais desesperador, brutal no filme é ver a condição passiva dos escravos diantes aos senhores, lhes foi imposta, o medo, a sobrevivencia dentro de uma sociedade sufocante e absolutamente excludente os faz ali manter sua posição ( não conheço a história dos EUA a fundo para saber lá como aqui, existiram comunidades quilombolas, de resistencia). Salomon, o personagem principal, é um escravo liberto, leva uma vida no início do filme como um homem livre, é até chocante ver como ele é integrado à sociedade, se pensarmos que para negros libertos a vida não é fácil, entretanto é apenas para ao longo do filme nos mostrar que não, as coisas não são tão bonitas e democráticas quanto parecem, sua liberdade é retirada a força e ninguém, absolutamente ninguém faz nada, é contrabandeado ilegalmente e passa como o próprio nome diz 12 anos como escravo. 12 anos! McQueen nos mostra sua vida entre dois senhores, sem mostrar em absoluto a passagem do tempo, apenas somam-se os dias, todos iguais aos outros: colheita, violencia, revolta, submissão, sobrevivencia. Não sabemos quanto tempo ele já está lá, assim como nem ele. Negros jovens, velhos, todos “abaixando a cabeça para sobreviver”, como diz um escravo a outros,incluso Salomon, logo no início do longa. O chocante é ver em várias cenas, negros com facas, machados e em número infinitamente superior ao número de brancos, capatazes. É impossível não pensar “alguém se revolta e faz um motim!”. Sim e depois? São propriedade, a lei está lá para amparar o dono, eles não existem como pessoas perante à sociedade, irão acabar mortos de um jeito ou outro. Isto é muito cruel. Ser retirado o mais básico e fundamental de um ser humano: existir.

No mesmo diálogo onde aparece a frase do abre deste post e sobre abaixar a cabeça logo em cima, Salomon profere ” eu não quero sobreviver, eu quero viver”. Isto é quando ele ainda está sendo contrabandeado, ainda existia uma parca esperança de que alguém o ouvisse. Foram necessários 12 anos.

A Trapaça

David O. Russel reúne em  A Trapaça atores que já dirigiu em outros excelentes filmes: Jennifer Lawrence, Amy Adams, Christian Bale e Bradley Cooper. Ele também assina o roteiro. Dizem ser o favorito ao Oscar, o que não quer dizer nada, afinal na maioria das vezes, o melhor nem sempre vence. O que é importante saber é que A Trapaça é um senhor filme! Uma história muito bem contada, simples assim. O roteiro é muito bem amarrado, com sacadas ótimas, boas reviravoltas e personagens muito bem construídos. A direção é segura, muito boa, com bons jogos de camera, um ritmo um pouco acelerado, na medida certa. O elenco é um show a parte, temos quatro grande atuações e todos foram indicados ao premio máximo do cinema norte-americano.

Irvin é um trapaceiro de marca maior, junto com a amante Sydney forma uma dupla de estelionatários trambiqueiros com bastante sucesso, até serem pegos pelo agente do FBI, Richie. A partir daí para sairem ilesos de seus crimes precisam colaborar com os federais para captura de outros falsários. Só que o agente é ambicioso e quando vê a oportunidade de pegar um político ele agarra com unhas e dentes,para desespero de Irvin que sabe bem que isto não pode acabar bem. Para adicionar uma pimenta a mais no meio desta quase comédia de erros, a esposa do trambiqueiro, Rosalyn, aparece entornando mais o caldo.

O longa começa com um aviso ao público: alguns destes eventos são verdade. Veja bem, alguns… é a partir desta premissa da verdade pela metade, ou a meia mentira, que o roteiro se desenvolve brilhantemente. Tudo parece meio falso, nada é o que diz ser, ninguém é e assim se sobrevive. A história se passa no final da década de 70 entre New Jersey e Nova York e os personagens parecem saídos de um filme da máfia de Las Vegas. Causa um incomodo a caracterização dos personagens, não dá para embarcar completamente naquilo, é como se a direção de arte avisasse ” acredite…mas duvide um pouquinho”, Bradley Cooper está absolutamente ridículo com permanente no cabelo, Christian Bale gordo e com um topete ridículo, Jenniffer Lawrence faz a esposa loira fatal ( no melhor estilo mulher de mafioso de Michelle Pfeiffer em  Scarface e Stone em Cassino) mas os traços de menina permanecem, a única que parece ali de verdade é justamente aquele que constrói outra identidade para si: Sydney, papel de Amy Adams. Neste jogo de aparencias e de xadrez vamos aos poucos sacando um pouco mais dos personagens, às vezes o discurso não bate com as ações, muitas vezes não dá para saber se o você espectador está sendo enganado junto, o roteiro é muito habilidoso em criar nós, em nos deixar em dúvida sobre as reais intensões de cada um ali, um dos recursos muito bem utilizados é a criação de momentos de fluxo de pensamento dos personagens nos contando a história do ponto de vista de cada e eles sem embaralham entre a narrativa do filme.

Para dar certo este jogo de cena só atuações absolutamente sólidas poderiam dar conta do recado. Bradley Cooper é o mais fraquinho dos quatro, o que não signifique que sua atuação seja ruim, nada disso, ele está bem convincente e engraçadíssimo como um agente ególatra, frustrado pela vidinha que tem e absolutamente transloucado. Amy Adams vai para sua quinta indicação, é uma atriz excelente, ela trabalha no pequeno, nas nuances, nos olhares e sua personagem é muito difícil exatamente por ser a única a fugir do registro mais histriônico que os outros demandam. Entretanto o show é de Bale e Lawrence. O interessante do Bale é como ele opera muitas vezes no limiar do caricato para criar um tipo, mas faz isto com tanta destreza e sensibilidade que geralmente seus personagens são absolutamente vivos, é o caso de Irvin, no início vem uma estranheza, aquele homem bonito sendo barrigudo, calvo, com roupas estranhíssimas, o objetivo é este, o choque, entretanto isto se incorpora de tal maneira que no final ele é o personagem por completo, os gestos, os tiques, a fala. E Jennifer…Lawrence merece um parágrafo a parte! Vinte e cinco anos e é capaz de coisas maravilhosas, ela se entrega, mergulha de um tal modo…ela faz a femme fatale e  ao mesmo tempo,mesmo linda, maquiada, ela tem aquele rosto de garota, esta dubiedade é por si só interessante, sua personagem é desequilibrada e infantil, carente, desesperadamente carente e ela cria um tipo irresistível, insuportável e digno ao mesmo tempo de compaixão. Sua cena mais marcante é uma cena rápida, muito rápida, ela com ódio do marido, diz mais do que deveria para um outro personagem, ela está em casa furiosa, o filme vem vindo num crescente de tensão, a trilha sonora num rock psicodélico é muito, muito alta, ela aparece, um plano fechado em seu rosto, ela canta a música ( não a ouvimos, ouvimos a música mesmo) de maneira furiosa e ridícula, a camera é lenta, ela agita todo o corpo cantando e dançando de maneira vigorosa, ela está linda e maquiada e…com luvas amarelas de limpeza na mão, limpando a sala…é absolutamente ridícula a cena, engracadíssima e só alguém sem o menor senso de ridículo, só um ator sem nenhum pudor para abraçar aquilo com tanta verdade e parecer ridículo e demasiadamente humano ao mesmo tempo, não é fácil, nem um pouco aliás.

Se A Trapaça ganhará ou não tudo em março nos Academy Awards, como disse, tanto faz, o importante é saber que se trata de cinema: uma história muito bem contada através de direção, roteiro e atuações trabalhando para isto.

NYNPHOMANIAC

 

Nymph()maniac foi propalado aos quatros ventos antes mesmo de ser gravado,durante as filmagens uma quantidade enorme de posters, trailers invadiram as redes sociais, assim como todo o tipo de boato: os atores transaram de verdade, os atores precisaram mandar fotos de seus órgãos genitais para von Trier antes de serem escolhidos, o elenco é estelar. Um filme de Lars von Trier com toda a cara de blockbuster pela enorme, gigantesca campanha de marketing que girou em torno do longa durante todo seu processo e que culminou com a notícia que o corte final não seria do diretor e sim dos produtores, se é verdade ou não ( bem capaz) o fato é que antes de seu início aparece uma tela “informando” o espectador que a edição não é do diretor, um mis- en- scène muito bem feito. Muita expectativa, pouco resultado, ao menos nesta primeira parte que está no cinema. A segunda, pelos trailer parece melhor, muito mais radical e polemica.

Polemica, palavra bem adequada quando se trata do genioso dinarmaquês. Impressionante como sexo ainda é tabu. Um filme sobre sexo com cenas mais quentes e todo mundo fica em polvorosa. Sexo há muito, cenas de penis e vaginas também. Todas bem coreografadas, nenhuma delas chocante. Um filme excitante? Não, afinal, Joe, a personagem principal tem o sexto como uma necessidade, às vezes goza, às vezes encara a coisa como algo necessário como comer, dormir, sem muita emoção.

O mais importante é o que o sexo e o amor representam em nossa sociedade. Os temas caros ao diretor aparecem todos: cristianismo, pecado, luxúria ligada à mulher, homem como o ser fraco, o Homem como um ser decaído e nunca bom, ou ao menos como o cristianismo nos ensinou a ver. Joe desde o início diz não ser uma pessoa boa, desde pequena é uma pecadora, sedenta por prazer, ao que seu interlocutor sempre questiona esta sua posição, talvez na segunda parte fique claro, nesta por mais que ela faça um esforço para ser a “vilã”, vemos apenas uma mulher querendo seguir seus instintos, procurando a liberdade. Liberdade do que? Do amor, oras! A maior e mais terrível prisão de todas! Em nossa sociedade tiranica em relação ao amor, em que tudo precisa ser amor e o sexo é visto como algo sujo e ainda obsceno, a personagem principal vira as costas para ele, ou tenta, o que parece uma lição de moral boba vindo de von Trier, entretanto como nada é o que parece para o dinamarques, espero que na segunda parte ele mostre que não é bem por aí, de um nó.

Para contar as proezas sexuais de sua personagem o diretor se vale de seus recursos de sempre e claro muito bem explorados: distanciamento brechtiano através de divisão por capítulos da narrativa, insersão de comentários, de elementos gráficos quebrando a quarta parede e a ilusão, edição fragmentada. O início do filme me lembrou Haneke, planos lentos com pouca informação, apenas com som diegético e num rompante entra um metal pesado quebrando a relação com a cena, assim como Funny Games, e a cor amarelada, doente, apática, angustiante do quarto do homem que salva Joe lembra a palheta de cor de  A Professora de Piano. Coincidencias apenas, bem provavelmente, entretanto se tratam de dois diretores que tem por base o incomodo do espectador, a quebra da quarta parede ( Haneke fazia isto, não mais nos ultimos longas) ,relações sociais nada fáceis e que não possuem o Homem em alta conta.

No fim, Nimph()maniac é o filme mais aguardado e mais festejado de von Trier, entretanto por enquanto não disse ao que veio. Eram melhores, infinitamente melhores, quando a maior preocupação não residia em ter um elenco de estrelas nem em publicidade. Dogville, Anti Cristo e Melancolia, para ficar nos últimos, são trabalhos maduros e infinitamente mais complexos do que este. Esperemos pela segunda parte para bater o martelo….