NYNPHOMANIAC

 

Nymph()maniac foi propalado aos quatros ventos antes mesmo de ser gravado,durante as filmagens uma quantidade enorme de posters, trailers invadiram as redes sociais, assim como todo o tipo de boato: os atores transaram de verdade, os atores precisaram mandar fotos de seus órgãos genitais para von Trier antes de serem escolhidos, o elenco é estelar. Um filme de Lars von Trier com toda a cara de blockbuster pela enorme, gigantesca campanha de marketing que girou em torno do longa durante todo seu processo e que culminou com a notícia que o corte final não seria do diretor e sim dos produtores, se é verdade ou não ( bem capaz) o fato é que antes de seu início aparece uma tela “informando” o espectador que a edição não é do diretor, um mis- en- scène muito bem feito. Muita expectativa, pouco resultado, ao menos nesta primeira parte que está no cinema. A segunda, pelos trailer parece melhor, muito mais radical e polemica.

Polemica, palavra bem adequada quando se trata do genioso dinarmaquês. Impressionante como sexo ainda é tabu. Um filme sobre sexo com cenas mais quentes e todo mundo fica em polvorosa. Sexo há muito, cenas de penis e vaginas também. Todas bem coreografadas, nenhuma delas chocante. Um filme excitante? Não, afinal, Joe, a personagem principal tem o sexto como uma necessidade, às vezes goza, às vezes encara a coisa como algo necessário como comer, dormir, sem muita emoção.

O mais importante é o que o sexo e o amor representam em nossa sociedade. Os temas caros ao diretor aparecem todos: cristianismo, pecado, luxúria ligada à mulher, homem como o ser fraco, o Homem como um ser decaído e nunca bom, ou ao menos como o cristianismo nos ensinou a ver. Joe desde o início diz não ser uma pessoa boa, desde pequena é uma pecadora, sedenta por prazer, ao que seu interlocutor sempre questiona esta sua posição, talvez na segunda parte fique claro, nesta por mais que ela faça um esforço para ser a “vilã”, vemos apenas uma mulher querendo seguir seus instintos, procurando a liberdade. Liberdade do que? Do amor, oras! A maior e mais terrível prisão de todas! Em nossa sociedade tiranica em relação ao amor, em que tudo precisa ser amor e o sexo é visto como algo sujo e ainda obsceno, a personagem principal vira as costas para ele, ou tenta, o que parece uma lição de moral boba vindo de von Trier, entretanto como nada é o que parece para o dinamarques, espero que na segunda parte ele mostre que não é bem por aí, de um nó.

Para contar as proezas sexuais de sua personagem o diretor se vale de seus recursos de sempre e claro muito bem explorados: distanciamento brechtiano através de divisão por capítulos da narrativa, insersão de comentários, de elementos gráficos quebrando a quarta parede e a ilusão, edição fragmentada. O início do filme me lembrou Haneke, planos lentos com pouca informação, apenas com som diegético e num rompante entra um metal pesado quebrando a relação com a cena, assim como Funny Games, e a cor amarelada, doente, apática, angustiante do quarto do homem que salva Joe lembra a palheta de cor de  A Professora de Piano. Coincidencias apenas, bem provavelmente, entretanto se tratam de dois diretores que tem por base o incomodo do espectador, a quebra da quarta parede ( Haneke fazia isto, não mais nos ultimos longas) ,relações sociais nada fáceis e que não possuem o Homem em alta conta.

No fim, Nimph()maniac é o filme mais aguardado e mais festejado de von Trier, entretanto por enquanto não disse ao que veio. Eram melhores, infinitamente melhores, quando a maior preocupação não residia em ter um elenco de estrelas nem em publicidade. Dogville, Anti Cristo e Melancolia, para ficar nos últimos, são trabalhos maduros e infinitamente mais complexos do que este. Esperemos pela segunda parte para bater o martelo….

Melancolia

Lars von Trier anda introspectivo e soturno. Melancolia pode, a principio, parecer menos sombrio do que Anti Cristo,mas é uma impressão que se dissipa ao longo do filme. Não temos cenas chocantes,assassinatos,uma floresta aterrorizadora,mas temos a mais completa apatia,a sensação latente de não pertencimento,o afastamento irrestrito do que chamamos de vida.

O longa é dividido em duas partes,e como o diretor gosta,por capítulos,cada um focado em uma das irmãs: Claire e Justine. Justine é engraçada,divertida e está se casando no primeiro momento do filme. Uma daquelas festas de arromba, ela,a noiva,chega feliz sem se importar com formalidades,enquanto Claire,está grave como uma boa anfitriã. Logo temos desenhado a diferença entre ambas,a primeira é mais espontânea enquanto Justine é mais severa e leva o papel de irmã mais velha a sério,sempre cuidando da caçula.

A festa começa bem,mas existe algo estranho que não se encaixa.Basta alguém bater com o talher na taça de cristal para discursar que aqueles que assistiram Festa de Família,um dos ícones do movimento Dogma do qual Lars von Trier foi o grande nome,saberem que algo muito ruim vai acontecer. Dito e feito,a partir do discurso do pai e principalmente da mãe a coisa se transforma no inferno. Não,ao contrário do filme da década de 90 a situação não explode,ela implode. Dentro de Justine. A noiva esfuziante vai se calando,se encolhendo. Nada vai bem. A camera ágil na mão,tão característica do movimento dinarmaques, nos dá a sensação de vertigem,com planos as vezes por demasia fechados sufocando quem assiste. Entretanto nada caminha para um desfecho,a situação se prolonga,se arrasta,como se os personagens,principalmente Justine dessem voltas em circulo.Para quem assiste é angustiante,não é a toa que em algumas sessões pessoas se levantaram e saíram. Será que nada será feito?E quando o fazem,quando dão o ponto final,não é trágico,não é incisivo,é apenas um acontecimento a mais no labirinto da personagem.

A segunda parte é quando a melancolia já atingiu a atmosfera,literalmente,pois o longa ganha contornos fantásticos quando um planeta chamado melancolia está vindo em direção à Terra,um planeta completamente azul ( blue em ingles é triste). A parte é destinada a irmã mais velha,responsável e que teme pela vida que possui ( seu marido,filho,casa) por causa da proximidade que Melancolia .A camera sossega um pouco apenas,o tempo se arrasta menos,mas temos mais silencios. Justine já não mais compartilha este mundo,CLairee se agarra desesperadamente à ele. A dicotomia entre irmãs é evidente. A caçula é alheia a tudo,enquanto a mais velha tenta traze-la de volta ao circulo familiar. Duas visões opostas e apenas uma que tem algo a perder.

Como de praxe em seus filmes,os personagens masculinos são boçais e principalmente fracos. As mulheres dominam,são muito mais intrigantes. E como sempre as atrizes dão o seu melhor. Trata-se de um filme de ator,se Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg não estivessem em equilíbrio e sintonia perfeita como se encontram,o roteiro podia ir ralo a baixo. O não pertencimento externado no corpo de Dunst assim como a solidez que se torna com o desespero em puro instinto no caso de Gainsbourg  dão a tonica de Melancolia. Duas forças antagônicas muito bem equilibradas por Lars von Trier.

Ao se debruçar em seu lado mais sombrio e intimista o diretor dinamarques vem conseguindo bons resultados

Os Melhores da Década

Quem não gosta de uma lista?Que o diga Rob Gordon! Por isso o cenas resolveu fazer a sua própria lista dos 10 melhores filmes da década.Sempre dificil,e com uma generosa dose de subjetividade porque querendo ou não os gostos entram na jogada!Portando não será uma lista com classificações,são os 10 melhores e ponto,sem primeiro,segundo lugar,cada um que de a sua posição!
AS HORAS
O livro de Michael Cunniham é fantástico e a adaptação para o cinema pelo ótimo David Hare é primorosa. Tudo se encaixa no longa,direção,edição,fotografia,direção de arte, a maravilhosa trilha de Phillp Glass,mas o que realmente impressiona é a atuação do casting,Julianne Moore como Mrs Brown tem a melhor atuação da década!
DOGVILLE
Lars Von Trier faz uma obra-prima ao ir fundo no distanciamento bretchiano, através do simbolismo teatral ele conta sua história no local onde magia e realidade andam juntas,no cinema. Quem mais faria uma cidade desenhada com giz ganhar vida na tela! Ótima fase de Nicole Kidman também.
A PROFESSORA DE PIANO
Michal Hanake e Isabelle Huppert,como dar errado?Sufocante,tenso,angustiante,sádico e obrigatório. Trata-se de um filme de ator,o diretor austríaco permitiu a atriz criar e mergulhar fundo no universo perverso da professora.
CIDADE DOS SONHOS
Depois de Twin Peaks, Cidade dos Sonhos foi que alçou o diretor a estrela pop,listas para entender o filme foram criadas nos EUA. Bobagem pura,é só embarcar no enredo policial surrealista e se deliciar com a nova estrela em ascensão Naomi Watts. Silencio,silencio,no hay banda,no hay orquesta já se tornou uma das frases mais famosas do cinema.
ENCONTROS E DESENCONTROS
Muito melhor que seu filme de estréia, Sophia Coppola acertou a mão nos atores escolhidos para personagens principais,o então decadente Bill Murray e a desconhecida Scarlett Johanson, nas cores pastéis do universo habitado pelos personagens,pelo tempo estendido das cenas,pela trilha melancólica. Assitir sozinho o filme numa sessão no meio da tarde com 2 ou 3 gatos pingados é desolador e impossivel de não se sentir como o casal.
EDIFICIO MASTER
Vale pelo simbolismo de ter Coutinho voltando com força ao cinema,pelo seu estilo de documentário de achar personagens únicos e extrair deles o mais interessante.
CINEMA,ASPIRINAS E URUBUS
Belíssimo,fotografia ímpar e o nordeste não é apenas um cenário escolhido como modinha para que o filme fosse feito,é personagem também,os personagens,o road movie tudo se encaixa perfeitamente!
BASTARDOS INGLÓRIOS
Tarantino virou muito pop e seus filmes super produções como o caso de Bastardos Inglórios,com elenco espetacular várias locações. O longa é espetacular cinematograficamente e Tarantino salva os filmes históricos de si mesmos!
MATCH POINT
Woody Allen faz sua grande obra prima ao decidir sair de Nova York. O conceito trágico de destino que o instiga em suas peças e em alguns de seus filmes encontra a forma perfeita ao relacioná-lo com o trágico em Dostoiévsky. Brilhante!
O CAVALEIRO DAS TREVAS
Sempre tem de ter espaço para um blockbuster e O Cavaleiro das Trevas é o escolhido. Filme bem feitinho,Cris Bale já tinha se mostrado um bom Batman,Michael Cane como Alfred cria um contraponto blasé na medida para o intenso Bruce,mas claro que o longa não seria nada sem o personagem do Coringa,pontos para o entendimento do roteirista para o vilão,mas aplausos calorosos para a contrução inacreditável por parte de Leadger!

O Anti-Cristo

“Tudo depende dos céus,à excessão de um pequeno numero de sábios,capazes de resistir à paixões por eles provocada” ( Dicionário do Ocidente Medieval)

Quando Lars Von Trier apresentou seu filme em Cannes os jornais o anunciaram como um filme de terror. Não o vejo assim,mas sim como um filme simbólico que como tal traz elementos que escapam ao convencional,uma ligação com o inconsciente. O diretor cria um universo imagético através de seus dois personagens com profunda conexão com cristianismo medieval.
Se desde Os Idiotas o Homem não é naturalmente bom, é corrompido e capaz de ações vis, em o Anti-Cristo esta condição humana atinge seu ápice. William Dafoe e Charlotte Gainsbour são casados e perdem seu filho bêbe, a mulher mergulha num luto intenso, e o marido,terapeuta,tenta ajudá-la levando-a para a Floresta de Éden. Na tradição bíblica,Adão e Eva são puros no Éden até cair em tentação,e assim serem expulsos do Paraíso. No longa, o Éden é o local para se temer,estranho,onde não existe controle. O homem e a mulher voltam para casa mas apenas para constatar que a Natureza não é um local seguro,nem podem resgatar a inocencia perdida. O “caos reina”,não só é o nome de um dos capítulos do filme, é a atmosfera criada por Lars Von Trier para seus personagens.
Somos compelidos a seguir a linha de racicínio do terapeuta,cada gesto desmedido da mulher,intriga,cada exercicio proposto pelo marido e seus resultados nos faz achar que estamos mais perto de descobrir o que realmente preocupa e perturba esta mulher,somente para na próxima cena convicções serem desmachadas, e voltar tudo a estaca zero. O diretor dinarmaques consegue mais uma vez num equilibrio raro combinar o envolvimento profundo que a platéia cria com seus personagens com distanciamento bretchiniano,através ,neste caso, de cortes abruptos,camera tremula,suspensão do tempo,realidades sobrepostas,fazendo com que os espectadores não sejam meramente passivos,mas que questionem a todo momento o que estão vendo na tela. Soma-se ainda neste caso particular todo simbolismo presente no longa. Animais,falas,gestos,astrologia. Confundindo quem assiste,buscando sempre a atenção de seu publico.
Na tradição cristã,nascemos todos já corrompidos devido ao pecado original,que ao contrario do que se pensa,não é o sexo,mas sim a consciencia de sua condição,criando assim no ser humano o livre arbítrio para ir e vir,deixando de ser inocente. Esta é uma questão muito tratada ao longo do filme,podemos escolher o que fazer. O terapeuta,que representa a razão,coloca esta questão a todo momento,para a mulher,que representa o instinto. Papéis absolutamente enraízados no pensamento medieval, a mulher como insáciavel,o homem como senhor da situação.Condenada já está a mulher que rompe o voto de castidade para o Cristianismo.Desejo,volúpia,luxúria,adjetivos que acompanham não uma cristã,mas sim uma feiticeira,que pela tradição é adoradora de Diana, a deusa da caça, que representa justamente a natureza. Em o Anti- Cristo, temos muitas cenas de sexo, sempre comandadas pela personagem feminina, e a Natureza é sufocante,sempre em planos gerais que faz com que os personagens sejam parte deste meio,como em simbiose. Se a Natureza é representada por uma deusa pagã,e o local do instinto não do logus,é um local perigoso,ou como a própria mulher diz, a casa do Diabo.Ou seja,trata-se de um filme sobre simbolismo e tradições europeias,e não terror,por mais que seja um bom genero,é diminuí-lo. Como é de se esperar em um filme de Lars Von Trier,algum evento desencadeia o que existe de pior no ser humano,criando uma situação limite, para no fim existir mais um ponto de virada em que as máscaras caem e o espectador se sinta no mínimo desconfortável.
Talvez seja um dos filmes mais dificeis do diretor,mas tenho certeza que Tartovsky,para quem o filme é dedicado,apreciaria.