AMOUR

 

Michael Haneke sempre foi sinonimo de obras violentas,impactantes,chocantes. Em A Fita Branca comentado neste mesmo blog,coloquei uma mudança na direção de seus filmes: a identificação do espectador com seus personagens, algo que não ocorria anteriormente. Assistíamos chocados ao terror adolescente em Funny Games, à psicopatia da professora de piano, à vingança do imigrante em Caché, nos sentíamos quase como se fossemos suas vítimas mas não havia a identificação. Em Amour,acontece o inverso, o tema é tão demasiadamente humano,tão real que nos é impossível não nos vermos no casal de velhos,na filha.

Um casal da terceira idade leva a vida cotidiana tão banal quanto qualquer um, a mulher sofre um derrame e o marido toma para si a responsabilidade de cuidar de sua companheira.Todos os dias milhares de tragédias cotidianas como esta acontecem e o curso da vida é de repente interrompido para ser re arranjado novamente de modo a comportar esta nova configuração. A morte, a noção de finitude se instala naquele microcosmos e na maior parte do tempo as pessoas tentam não pensar nisto,entretanto ela está lá muito,extremamente  presente e então é preciso lidar com ela todos os dias. Amour nos mostra o que pode acontecer a qualquer momento com qualquer um de nós porque é muito plausível,porque é o que acontece todos os dias. E é incomodo. Ninguém quer pensar na finitude de seus parentes queridos e mais,ninguém quer tomar a consciencia que também envelhecerá e o destino é o mesmo: a decrepitude.

Na saúde e na doença, pois bem ninguém quer pensar na parte ruim, quando ela chega como lidar? O homem prefere ele mesmo lidar e cuidar de sua companheira a vida toda. O bonito é a delicadeza com que o diretor trata a cumplicidade do casal mesmo em situações tão adversas. O longa é permeado de silencios,tempo dilatado,cameras fixas deixando a ação correr livremente em seu tempo cotidiano. Não há espetáculo para ser visto,apenas a vida banal e simples e já é muito.

A vida é boa diz a mulher já debilitada pela doença ao ver as fotos antigas de família. A vida é boa…

Anúncios

Os Melhores da Década

Quem não gosta de uma lista?Que o diga Rob Gordon! Por isso o cenas resolveu fazer a sua própria lista dos 10 melhores filmes da década.Sempre dificil,e com uma generosa dose de subjetividade porque querendo ou não os gostos entram na jogada!Portando não será uma lista com classificações,são os 10 melhores e ponto,sem primeiro,segundo lugar,cada um que de a sua posição!
AS HORAS
O livro de Michael Cunniham é fantástico e a adaptação para o cinema pelo ótimo David Hare é primorosa. Tudo se encaixa no longa,direção,edição,fotografia,direção de arte, a maravilhosa trilha de Phillp Glass,mas o que realmente impressiona é a atuação do casting,Julianne Moore como Mrs Brown tem a melhor atuação da década!
DOGVILLE
Lars Von Trier faz uma obra-prima ao ir fundo no distanciamento bretchiano, através do simbolismo teatral ele conta sua história no local onde magia e realidade andam juntas,no cinema. Quem mais faria uma cidade desenhada com giz ganhar vida na tela! Ótima fase de Nicole Kidman também.
A PROFESSORA DE PIANO
Michal Hanake e Isabelle Huppert,como dar errado?Sufocante,tenso,angustiante,sádico e obrigatório. Trata-se de um filme de ator,o diretor austríaco permitiu a atriz criar e mergulhar fundo no universo perverso da professora.
CIDADE DOS SONHOS
Depois de Twin Peaks, Cidade dos Sonhos foi que alçou o diretor a estrela pop,listas para entender o filme foram criadas nos EUA. Bobagem pura,é só embarcar no enredo policial surrealista e se deliciar com a nova estrela em ascensão Naomi Watts. Silencio,silencio,no hay banda,no hay orquesta já se tornou uma das frases mais famosas do cinema.
ENCONTROS E DESENCONTROS
Muito melhor que seu filme de estréia, Sophia Coppola acertou a mão nos atores escolhidos para personagens principais,o então decadente Bill Murray e a desconhecida Scarlett Johanson, nas cores pastéis do universo habitado pelos personagens,pelo tempo estendido das cenas,pela trilha melancólica. Assitir sozinho o filme numa sessão no meio da tarde com 2 ou 3 gatos pingados é desolador e impossivel de não se sentir como o casal.
EDIFICIO MASTER
Vale pelo simbolismo de ter Coutinho voltando com força ao cinema,pelo seu estilo de documentário de achar personagens únicos e extrair deles o mais interessante.
CINEMA,ASPIRINAS E URUBUS
Belíssimo,fotografia ímpar e o nordeste não é apenas um cenário escolhido como modinha para que o filme fosse feito,é personagem também,os personagens,o road movie tudo se encaixa perfeitamente!
BASTARDOS INGLÓRIOS
Tarantino virou muito pop e seus filmes super produções como o caso de Bastardos Inglórios,com elenco espetacular várias locações. O longa é espetacular cinematograficamente e Tarantino salva os filmes históricos de si mesmos!
MATCH POINT
Woody Allen faz sua grande obra prima ao decidir sair de Nova York. O conceito trágico de destino que o instiga em suas peças e em alguns de seus filmes encontra a forma perfeita ao relacioná-lo com o trágico em Dostoiévsky. Brilhante!
O CAVALEIRO DAS TREVAS
Sempre tem de ter espaço para um blockbuster e O Cavaleiro das Trevas é o escolhido. Filme bem feitinho,Cris Bale já tinha se mostrado um bom Batman,Michael Cane como Alfred cria um contraponto blasé na medida para o intenso Bruce,mas claro que o longa não seria nada sem o personagem do Coringa,pontos para o entendimento do roteirista para o vilão,mas aplausos calorosos para a contrução inacreditável por parte de Leadger!

A Fita Branca

O homem não é bom. Esta é a premissa de Michael Hanake em todos os seus filmes,não seria diferente em A Fita Branca. Numa pequena comunidade protestante alemã pré-primeira guerra crimes sórdidos acontecem sem que a população descubra os culpados. Se nos outros longas do diretor assistíamos estarrecidos a violencia brutal cometida pelos personagens,aqui Hanake cria uma atmosfera que faz o espectador também ser o agressor.Nisto reside o amadurecimento de sua filmografia e como resultado a tão merecida Palma de Ouro. Nas outras fitas o austríaco trabalha o distanciamento do publico frente a história,é quase impossível se identificar com Isabelle Huppert em A professora de Piano, com a dupla terrível de Funny Games, com a frieza do algóz em Caché nem com o clima hostil em Código Desconhecido,entretanto não são monstros,são seres humanos e é isto que Michael Hanake quer deixar muito claro em A Fita Branca. Não há nada diferente entre eles e nós.

Não é a toa que no longa existem tres persogens chaves, o médico, o pastor e o professor. Os dois primeiros são respeitadíssimos pela comunidade ( e em qual sociedade não o são?),já aquele que detém o conhecimento laico, o que pode operar mudanças naquele pequeno nucleo é fraco, um pouco ridicularizado e possui um sub-emprego, melhor ser alfaiate com o pai do que professor em uma vila. Existe também uma grande gama de personagens,muitos,o que faz com que num primeiro momento venha o questionamento se o roteiro acaba querendo abarcar tudo e não aprofunda em nada,mas o temor é logo dissipado pois todos são a massa obediente,sempre foram,sempre serão,seus filhos,seus netos, todos muito coretos aos olhos da rígida sociedade cristã protestante que não permite falhas,apenas virtudes,na qual tudo é transformado em pecado. É um filme duro neste sentido, a postura dos personagens é engessada como qualquer passo em falso fosse a própria condenação, os que saem do padrão são vistos com maus olhos e sumariamente castigados pelos misteriosos crimes que acometem a vila.Entretanto nem tudo é preto e branco na vida,como mostra a belíssima fotografia em p&b do longa que explora nuances de sombras, texturas da luz dando profundidade para algo que poderia ser facilmente chapado.
Onde entra o espectador? Michael Hanake quando do lançamento de A Fita Branca declarou que cinema era iludir e ele aprendeu bem com Eisenstein como conduzir seu filme. Ele trabalha bem o dilatamento do tempo em algumas cenas que um diálogo banal pode ser algo muito mais perigoso e faz com isso que o publico crie em sua cabeça a continuação da ação, normalmente o pensamento é sórdido, quando a cena se desenrola é sempre inofencivo e foi o espectador sentadinho em sua poltrona, que sempre teve horror dos personagens detestáveis de seus filmes,´quem imaginou pêlo em casca de ovo. O Protestantismo opera assim. A Sociede Cristã como um todo opera assim. Sempre o pecado,sempre o pior.
Somos todos monstros em potencial,não existem inocentes,literalmente.