A Trapaça

David O. Russel reúne em  A Trapaça atores que já dirigiu em outros excelentes filmes: Jennifer Lawrence, Amy Adams, Christian Bale e Bradley Cooper. Ele também assina o roteiro. Dizem ser o favorito ao Oscar, o que não quer dizer nada, afinal na maioria das vezes, o melhor nem sempre vence. O que é importante saber é que A Trapaça é um senhor filme! Uma história muito bem contada, simples assim. O roteiro é muito bem amarrado, com sacadas ótimas, boas reviravoltas e personagens muito bem construídos. A direção é segura, muito boa, com bons jogos de camera, um ritmo um pouco acelerado, na medida certa. O elenco é um show a parte, temos quatro grande atuações e todos foram indicados ao premio máximo do cinema norte-americano.

Irvin é um trapaceiro de marca maior, junto com a amante Sydney forma uma dupla de estelionatários trambiqueiros com bastante sucesso, até serem pegos pelo agente do FBI, Richie. A partir daí para sairem ilesos de seus crimes precisam colaborar com os federais para captura de outros falsários. Só que o agente é ambicioso e quando vê a oportunidade de pegar um político ele agarra com unhas e dentes,para desespero de Irvin que sabe bem que isto não pode acabar bem. Para adicionar uma pimenta a mais no meio desta quase comédia de erros, a esposa do trambiqueiro, Rosalyn, aparece entornando mais o caldo.

O longa começa com um aviso ao público: alguns destes eventos são verdade. Veja bem, alguns… é a partir desta premissa da verdade pela metade, ou a meia mentira, que o roteiro se desenvolve brilhantemente. Tudo parece meio falso, nada é o que diz ser, ninguém é e assim se sobrevive. A história se passa no final da década de 70 entre New Jersey e Nova York e os personagens parecem saídos de um filme da máfia de Las Vegas. Causa um incomodo a caracterização dos personagens, não dá para embarcar completamente naquilo, é como se a direção de arte avisasse ” acredite…mas duvide um pouquinho”, Bradley Cooper está absolutamente ridículo com permanente no cabelo, Christian Bale gordo e com um topete ridículo, Jenniffer Lawrence faz a esposa loira fatal ( no melhor estilo mulher de mafioso de Michelle Pfeiffer em  Scarface e Stone em Cassino) mas os traços de menina permanecem, a única que parece ali de verdade é justamente aquele que constrói outra identidade para si: Sydney, papel de Amy Adams. Neste jogo de aparencias e de xadrez vamos aos poucos sacando um pouco mais dos personagens, às vezes o discurso não bate com as ações, muitas vezes não dá para saber se o você espectador está sendo enganado junto, o roteiro é muito habilidoso em criar nós, em nos deixar em dúvida sobre as reais intensões de cada um ali, um dos recursos muito bem utilizados é a criação de momentos de fluxo de pensamento dos personagens nos contando a história do ponto de vista de cada e eles sem embaralham entre a narrativa do filme.

Para dar certo este jogo de cena só atuações absolutamente sólidas poderiam dar conta do recado. Bradley Cooper é o mais fraquinho dos quatro, o que não signifique que sua atuação seja ruim, nada disso, ele está bem convincente e engraçadíssimo como um agente ególatra, frustrado pela vidinha que tem e absolutamente transloucado. Amy Adams vai para sua quinta indicação, é uma atriz excelente, ela trabalha no pequeno, nas nuances, nos olhares e sua personagem é muito difícil exatamente por ser a única a fugir do registro mais histriônico que os outros demandam. Entretanto o show é de Bale e Lawrence. O interessante do Bale é como ele opera muitas vezes no limiar do caricato para criar um tipo, mas faz isto com tanta destreza e sensibilidade que geralmente seus personagens são absolutamente vivos, é o caso de Irvin, no início vem uma estranheza, aquele homem bonito sendo barrigudo, calvo, com roupas estranhíssimas, o objetivo é este, o choque, entretanto isto se incorpora de tal maneira que no final ele é o personagem por completo, os gestos, os tiques, a fala. E Jennifer…Lawrence merece um parágrafo a parte! Vinte e cinco anos e é capaz de coisas maravilhosas, ela se entrega, mergulha de um tal modo…ela faz a femme fatale e  ao mesmo tempo,mesmo linda, maquiada, ela tem aquele rosto de garota, esta dubiedade é por si só interessante, sua personagem é desequilibrada e infantil, carente, desesperadamente carente e ela cria um tipo irresistível, insuportável e digno ao mesmo tempo de compaixão. Sua cena mais marcante é uma cena rápida, muito rápida, ela com ódio do marido, diz mais do que deveria para um outro personagem, ela está em casa furiosa, o filme vem vindo num crescente de tensão, a trilha sonora num rock psicodélico é muito, muito alta, ela aparece, um plano fechado em seu rosto, ela canta a música ( não a ouvimos, ouvimos a música mesmo) de maneira furiosa e ridícula, a camera é lenta, ela agita todo o corpo cantando e dançando de maneira vigorosa, ela está linda e maquiada e…com luvas amarelas de limpeza na mão, limpando a sala…é absolutamente ridícula a cena, engracadíssima e só alguém sem o menor senso de ridículo, só um ator sem nenhum pudor para abraçar aquilo com tanta verdade e parecer ridículo e demasiadamente humano ao mesmo tempo, não é fácil, nem um pouco aliás.

Se A Trapaça ganhará ou não tudo em março nos Academy Awards, como disse, tanto faz, o importante é saber que se trata de cinema: uma história muito bem contada através de direção, roteiro e atuações trabalhando para isto.

BLUE JASMINE

 

Allen volta à tragédia moderna com Blue Jasmine, um tema recorrente em muitos de seus filmes e em suas peças. Destino, livre arbítrio, acaso, está tudo lá colocado de maneira agridoce, às vezes amarga e tendo como a cereja do bolo a atuação magistral de Cate Blanchett.

Não é o melhor de Allen, o que é uma pena, pois ele tende  a trabalhar a tragédia de maneira extremamente interessante e inteligente, como foi no caso de Match Point. Este seu ultimo longa é um pouco arrastado, com algumas barrigas no roteiro, personagens não muito bem desenvolvidos, a parte de Jasmine, a personagem central. Quem conhece Um Bonde Chamado Desejo consegue enxergar as semelhanças entre alguns pontos do texto de Tennessee e o filme de Allen, embora o trailer seja muito mais explicito do que o filme propriamente dito.

Não há nada de espetacular na vida pequena burguesa, nada. Pessoas desinteressantes, assuntos banais e vidas sem muito sentido, preenchidas por sub empregos necessários para sobreviver e pagar as contas e relações sem muita emoção e que poderiam ser tão melhores. Sou muito melhor do que isto, certo? Pensou já Blanche e pensa sua versão 2.1, Jasmine. Talhadas para a grandeza, a beleza e a riqueza. Perseguem um destino que não se concretiza a não ser de maneira efemera, pois a conjuntura muda, o cotidiano não permanece imutável e aí se encontra o problema para estas personagens: contarem com um destino que pensam que foram destinadas, não se encaixarem na pequenes da vida e tomarem péssimas decisões, mas não endossando nenhuma e não tendo consciencia da ação. “A existencia precede a essencia”, diz Sartre e elas não acreditam nisto, de forma alguma. E Allen é cínico neste ponto. Jasmine, ao final é responsável, a única responsável no limite, por sua derrocada, pelo seu fim. Ao tomar decisões infantis, ao ser irresponsável, ao se recusar a verdade. Ele vai dando estas pistas ao longo da narrativa, a personagem vai se enredando cada vez mais em suas fantasias, em sua realidade paralela. O “engraçado” é que ao mesmo tempo em que nega a realidade e sua responsabilidade, Jasmine repete ao menos três vezes ao longo do filme que não é possível jogar a culpa toda na genética, ou seja no determinismo, para os problemas da vida, ela diz isto para sua irmã, ambas adotadas por uma família, a caçula sempre diz que Jasmine tem os melhores genes ( linda, inteligente e casada com um cara milionário, enquanto ela é baixinha, feinha, empacotadora num super mercado). Se em Match Point, o acaso dá aquela forcinha para Chris, aqui ele é emplacável e é por conta de um encontro no meio da rua quando parecia que nossa anti heroína iria colocar a vida novamente nos eixos, iria conseguir,apesar de todas as mentiras contadas, sua vida de glamour novamente, que tudo volta a estaca zero, ou melhor a realidade vem avassaladora e a esmaga. Jasmine, assim como Blanche, não consegue lidar com este mundo concreto, nem um pouco bonito, nem um pouco brilhante, nem um pouco inspirador, ela se volta para dentro, para seu mundo de faz de conta, muito mais colorido e bonito.

Cate Blanchett carrega nas costas o filme inteiro, é um monstro. Sua Jasmine é cheia de nuances, humana, frágil, implacável, fria, amorosa, comica, trágica. A cena final é linda. Derrotada, esgotada, Jasmine sai com sua melhor roupa, com a cara limpa, cabelo desgrenhado, andando pela cidade, senta-se num banco e começa a falar sozinha, nem estranhos podem a ajudar agora, só ela, sozinha. Se tinhamos em boa parte do filme, uma diva que foi aos poucos se desmontando, uma mulher belíssima, chegamos ao seu final com um trapo, um resto de gente, humana, demasiadamente humana. Pode não ser o melhor de Allen, mas é uma das melhores atuações de Blanchett.

Para Roma Com Amor

Roma!! Bella cittá!!! Roma é caótica, feia e belíssima, chique, provinciana, católica! O melhor retrato da cidade foi feito por um dos maiores diretores de todos os tempo, Federico Fellini. Muitos de seus filmes são rodados na capital, tem espaço para os paparazzi, para as prostitutas, para a high society, para o suburbio extremamente pobre. Falar do onírico, do elemento clownesco, do cinismo em suas obras é chover no molhado,mas são estes os componentes que fazem de seus filmes fantásticas obras primas. Depois de anos esmiuçando a cidade o que resta a um diretor cronista urbano, e nova yorquino dizer sobre Roma?

Se ele for fã declarado do diretor italiano, basta lhe render uma homenagem. É isto que Woody Allen faz em Para Roma Com Amor. Como já foi dito em post anteriores, o diretor norte americano ao filmar longe de sua ilha procura em suas crônicas manter o olhar do turista em relação à cidade, o que é ótimo, afinal ao invés de querer se colocar numa cultura não sua e vir com verdades absolutas, ele brinca com os estereótipos da sociedade em questão, bem caricato, e sua visão sobre seus conterraneos nunca é a melhor do mundo. Assim ele fez grandes filmes como Match Point e Vicky Cristina e Barcelona, o ótimo Meia Noite em Paris e dirigiu o desastre Scoop.  O longa rodado na Itália não  faz parte da ultima categoria porque Allen presta com o filme uma homenagem a Fellini, mas me pergunto se para aqueles que não entenderam a piada interna, o longa não se torna menor e até mesmo massante. E se para mim, apaixonada confessa pelo diretor italiano, ele tem lá seu charme justamente por isto.

Um casal jeca chega à Roma para sua lua de mel, esperam encontrar na capital italiana melhores condições de vida. Os tios do noivo, família rica e tradicional fará uma visita aos dois já no primeiro dia, é preciso impressioná-los . A esposa se perde, encontra um galã de cinema italiano, o noivo sem a mulher, tenta enrolar os tios com uma prostituta que do nada surge em seu quarto. Soa familiar? Sim, o primeiro filme dirigido por Fellini, uma deliciosa comédia com influencia de foto novela, tem roteiro bem semelhante, só que no caso, a mulher deliberadamente foge para ver seu galã favorito e não há a voluptuosa Penélope Cruz, uma mistura de Sofia Loren com as mulheres sedutoras fellinianas, no meio do enredo. É divertido ver como a história de Allen se desenvolve. O roteiro do diretor italiano é uma comédia rasgada,  o norte americano  mantém o tom de comédia, mais comedida e  adiciona a visão do turista ao acrescentar uma cidade mal sinalizada, um povo solicito mas sem senso de direção, roubos comuns em hotéis e galãs de cunho duvidoso, claro sem contar  Cruz, que está ali apenas para representar o ideal da mulher italiana, bela, belíssima, sensual até o ultimo fio de linha do decote, de personalidade marcante, um que suburbano das personagens de Loren, um que fatal das mulheres fellinianas e claro uma prostituta como Fellini tanto retratou. A melhor história do filme.

Sim porque o longa é dividido em quatro histórias que não se cruzam, completamente independentes entre si, e intercaladas ao longo do filme. A narrativa nunca é linear. Ao invés de contar cada bloco em separado como todos estes longas sobre cidades fazem ( Paris eu te amo, Nova York eu te amo, etc) ele mistura todos seus micro cosmos.

Não teve muita receptividade na sessão que fui, mas se não é a melhor parte do filme, é a mais interessante, a história do personagem de Roberto Benigni é uma bela e muito cínica homenagem à Doce Vitta. Por causa do longa da década de 60 a palavra paparazzo surgiu pela primeira vez, Fellini focou na vida das celebridades, na futilidade da high society , das grandes estrelas. Entretanto hoje em dia, todos possuem seus minutos de fama, não é preciso fazer absolutamente nada de especial, um vídeo banal no youtube pode desencadear histeria em grande escala, reality shows nos quais um grupo passa tres meses falando sobre o nada e não fazendo…bem nada são o que muitos hoje em dia almejam. Pois bem, é partindo desta premissa que Allen faz de Benigni, um cidadão comum, padrão e completamente dentro das normas e regras, a grande presa dos paparazzi. É de um cinismo escancarado, enquanto antes ficávamos vidrados na tela com Anita Ekberg se banhando na Fontana di Trevi, agora temos o sem sal, ordinário Roberto Benigni discorrendo sobre seu café da manha em rede nacional. É pedir que o diretor seja misericordioso e termine a história o mais rápido possível,porque é muito, muito chato e vazio, e é claro que Allen saboreia este pedaço e o estende até a beira do insuportável.Entendo que aqueles que não sabem da existencia do longa de Fellini não riam, não achem a menor graça, porque não há nada para rir, é possível apenas ficar estupefato, mas é a melhor homenagem do diretor nova iorquino para o diretor italiano, e bem ao seu estilo.

As outras duas histórias são absolutamente dispensáveis, e curiosamente uma é com o próprio diretor e a outra com seu auter ego. Sem propósito estremamente chatas. Lá está Allen neurótico, pessimista, ironico, derrotado, e seu auter ego jovem é nerd, tímido, deslocado. É claro que se tratando de Itália, ele tinha que inserir sua grande paixão pela ópera de alguma maneira e consegue em sua história ao misturar um cantor de ópera amador fantástico, um esquerdista italiano, um amor em Roma e sua obsessão pela morte e psicanálise, mas acaba tornando-se boba, sem recheio, um vislumbre do que já foram  as neuroses de Woody Allen. A parte de  seu auter ego tem um pouco de seu roteiro de Igual a Tudo na Vida, mas sem as sacadas geniais, apenas sobrando o nerd loser que se apaixona e se deixa ser seduzido pela mulher errada.

No fim, é melhor ficar com Fellini para descobrir Roma, e filmes mais antigos de Woody Allen para conhecer seu universo.

A BaladaTriste do Amor e Ódio

Palhaços possuem em nossa sociedade caráter dúbio. Tanto podem simbolizar o parvo,o ingênuo,o puro,como também o esperto que uma hora ou outra acaba metendo os pés pelas mãos.Nem sempre sua posição é comica,assumindo muitas vezes a condição trágica,como é o caso dos clowns de Beckett,atormentados por um vazio existencial,ou possuídos de ódio e ciúmes como é o caso da ópera “Pagliacci”. A Balada Triste do Amor e  Ódio é um pouco dos dois,com ares meio de palhaços de terror.E exatamente o que faz com que estes personagens sejam temidos? O uso da máscara,que esconde a identidade,permite exageros grotescos nos gestos,costumes e na expressão.

O filme,espanhol,inicia-se durante a Guerra Civil Espanhola e segue até o declínio do poder Franquista. O personagem principal é um palhaço triste,é triste porque teve uma existência sofrida e nunca fará ninguém rir,assim sentencia o pai do palhaço,ele mesmo também um membro do circo. O personagem é puro e ingênuo, e desde pequeno sofreu com a vida.Quando entra para o circo sua vida dá uma guinada e o filme também se transforma.

É verdade que desde o início do longa,temos a sensação de algo mais fantástico e fora da ordem como o uso dos palhaços como soldados da facção esquerdista. Causa estranhamento a admiração alguém vestindo enormes sapatos,vestido,peruca e maquiagem com um facão na mão degolando soldados franquistas. Entretanto é a inserção do palhaço triste na trupe que radicaliza o filme.

Temos uma história de amor,um triangulo impossivel: a bela e sedutora trapezista,o marido,o palhaço principal e violento,e o enamorado, gentil,ingenuo,palhaço triste.A garota flerta com o pobre palhaço,pois gosta da adrenalina do risco em deixar seu esposo furioso. Claro,que assim como na ópera,a história não acaba bem, e a tríade: sangue,paixão,morte andam juntos na história.

O enredo ganha contornos fantásticos e dignos de filmes de terror. As personas dos palhaços se tornam cada vez mais grotescas e violentas. Não existem mais opostos,tanto um palhaço quanto o outro são igualmente assassinos,violentos,e tudo isto por causa da atenção dispensada pela bela moça. A beleza dela é o estopim para mudanças drásticas e surreais.

Os espanhóis são dramáticos e intensos,e os personagens não fogem a regra. Uma sociedade que convive com a violencia grotesca de Franco,cheia de mortes e horror. Não por acaso,as relações entre os personagens se desenvolvem na agressividade,na repulsa. Tendo a fé cristã tão presente no país como baliza, na menção desde o início do longa ao monumento megalomaníaco construído pelo general: um mausoléu em forma de uma cruz de proporções inimagináveis. Horror,Horror,Horror. E a igreja não  apenas não se pronunciou,como ficou do lado do poder,como fez durante séculos (vide Inquisição).

Os dois personagens principais querem indiretamente produzir o caos,pois o objetivo é conquistar nem que a força a mocinha da história,e conseguem por um breve período.A unica resposta dada pela dupla é a violência pura e simples.

Pode soar estranho em um primeiro momento,e até cômico a mudança de rumos do longa,de um drama para um filme violento,mas ao situar a história em torno do universo circense o diretor legitima a farsa,o maravilhoso,a fantasia.

Sintomático de uma sociedade tratada a base da violencia,da dramaticidade,e que desde o início do período franquista não foi lhe dada a chance de sorrir.

Meia Noite em Paris

 

Paris bem vale uma missa. Henrique IV proferiu tal frase no século XVI,quando protestantes e católicos gladiavam entre si pelo poder.O monarca protestante para assumir o trono preferiu deixar sua fé de lado e abraçar o catolicismo. A Cidade Luz exerce fascínio na civilização ocidental faz  muitos séculos. Sempre cercada de jogos de poder,intelectualidade,mudanças radicais sociais e políticas com reflexos globais e arte. Pois bem,é esta a cidade que Woody Allen elegeu para ser a personagem principal de seu novo longa.

Sair de Nova York fez bem ao diretor ( com a exceção de Scoop).De excelente cronista da cidade que nunca dorme,ele se mostrou um genial contador de histórias através do olhar estrangeiro,que não pertence,que ve com maravilhamento tudo o que lhe é estranho. Chega a flertar com o estereótipo do nativo,mas também sabe como sempre rir de si mesmo e no caso rir da visão estreita norte-americana,puritana,fechada e com ares de superioridade.

Em Meia-Noite em Paris Woody assume seu amor pela cidade e a euforia que acomete grande parte dos visitantes que a visitam. Sim Paris est très belle! O filme se inicia justamente com cenas estáticas de todos os cartões postais possíveis de se imaginar da cidade: os monumentos,os museus,os cafés,as ruas,a moda,o Sena,as pessoas. Quase sete minutos de imagens turísticas e “feitas” por turistas pois o enquadramento é sempre um pouco estranho,quase acidental,um encanto completo e irrestrito por qualquer coisa que aparecer no caminho. Paris é a grande estrela do filme!

Para nos encaminhar pela sua Paris Allen tem como alter ego Owen Wilson no papel de Gil Pender,um roteirista de sucesso mas que quer ser escritor,divertido,medroso e que não acha ser grande coisa. O próprio figurino do personagem é tirado do diretor: calças sociais caquis,camisas xadrez para dentro da calça,cinto combinando com o sapato. Só faltaram os óculos,porque Wilson coloca em seu personagem até os trejeitos de Woody,estão lá a hesitação na hora de falar que o faz gaguejar um pouco,a exaltação quando está conversando,as mãos que gesticulam sempre apontando e com a palma para cima.

Paris é personagem principal,Wilson o condutor e o restante do elenco coadjuvantes para contar esta divertida história. E que coadjuvantes! Temos Marion Cotillard como a mocinha,bela,ingenua,sexy e irresistível, Adrien Brody em aparição rápida mas divertidíssima, Corey Stoll,ator absolutamente desconhecido que faz excelente atuação como Ernest Hemingway e Carla Bruni em participação breve porém simbólica do que Paris é hoje em dia: cosmopolita (Bruni não é francesa),intelectual (é escritora,militante gauche) pop ( cantora e atriz de sucesso) e sempre com raízes na política ( é a primeira-dama francesa).

A história em cima das descobertas surreais e magníficas que Gil Pender faz de Paris depois da meia-noite são de encher os olhos de qualquer um que assista o filme. Com certeza gostaríamos todos de ser o personagem. Entretanto resta uma duvida: o filme se constrói em torno do fascínio criado pela cidade tão ligada sempre às coisas mais fantásticas da civilização ocidental,todavia quem não liga a mínima para artes terá com o longa a experiencia de extase que é possível a cada descoberta do personagem, a cada deslumbramento?Não resta duvida que trata-se de um filme muito bem filmado,mas a graça reside neste maravilhamento que temos ao assisti-lo assim como teríamos ao visitar a cidade. Trata-se de uma indagação e não de um ponto negativo.

O ponto negativo mesmo vem ao final quando Woody Allen insiste em sublinhar o mote sobre a passagem do tempo que já estava mais do que claro. Sobre as duvidas existenciais em relação ao presente e o olhar nostálgico em relação ao passado. Era desnecessário. Esteva lá da primeira à ultima cena. Na realidade está,esteve e sempre estará em Paris.

Paris vale todas as missas do mundo!

 

 

Machate

Um filme que tem como vilão Steve Segall merece muito respeito.Imagine todos os filmes ruins que voce já viu,o cliche, o herói solitário que vive apenas para vingar a morte de seus entes queridos,não tem nada a perder,é matar ou morrer,e o vilão é um bandido inescrupuloso que faz qualquer coisa por ganancia. Machate é tudo isto,só que ao invés de levar a sério todo este arcabouço de referencias Bs,torna-se uma grande piada.

Rodriguez refere-se aos filmes policiais latinos da década de 70,uma espécie de faroeste mexicano,aos filmes de luta dos anos 80 que tem Steve Segall como o herói supremo e as gangs como as grandes vilãs, e aos filmes de Tarantino com a violencia exagerada e comica.Assim como seu grande amigo e parceiro, Robert Rodriguez flerta com o kitsch, o alternativo do alternativo,a ultra violencia, o popular, os quadrinhos,para depois juntar tudo num caldeirão pop e voi lá temos os seus filmes.Entretanto o que difere o diretor de seu parceiro de “pulp fictions” é sua pegada mais latina,mas quente,intensa,viceral,enquanto Tarantino é mais cômico,mais ácido em sua violência. Outro ponto de divergencia entre os dois é a sexualidade das personagens. Em Tarantino é mais sugerida,em Rodriguez a sensualidade é reiterada a todo momento,ele brinca com fantasias e todos os cliches possíveis e imagináveis, a dupla caliente e antagônica Michelle Rodriguez e Jessica Alba é coptada pelo ogro sensível Machate e ambas caem de amor pelo “feo”, na outra ponta temos a patricinha desmiolada,drogada que não possui muito local na história ao não ser o de fazer Lindsay Lohan rir de si própria.Atores decadentes ou outsiders sempre possuem espaço no imaginário Tarantino/Rodriguez.
Podemos ver Machate também como filme político por discutir um tema muito atual da agenda americana,a imigração. Com a lei anti-imgração do Arizona nos holofotes, o debate sobre como tratar esta minoria que cresce rapidamente no país, não perdendo de foco a liberdade e democracia tão caros a constituição norte-americana ( país feito de imigrantes,aliás) está em todos os meios de comunicação. O longa de Rodriguez coloca o dedo na ferida ao mostrar que a política whasp é financiada pelos próprios cucarachos que eles querem se livrar,ao deixar claro que ideologia nos dias atuais não conta mais e tudo é pensado em lucros e que o problema sério e grave do narcotráfico não é em hipótese alguma um problema para o lado de lá da fronteira.
Mas no final,trata-se mesmo é de uma boa brincadeira!

Voce Vai Encontrar o Homem dos seus Sonhos

Parece que filmar fora de casa faz bem a Woody Allen,especialmente na Inglaterra,onde o humor é peculiar como o seu, e existe uma boa dose de fatalismo impregnado na sociedade. Como em Match Pointele explora o tema destino,livre arbítrio e tragédia,só que desta vez de maneira comica,e muito ácida.

Com ares de comédia romantica o longa vai se tornando menos comico e mais tenso ao longo da narrativa. O narrador nada condescendente com os personagens nos guia pela história de final nada feliz ao menos para grande maioria. A trilha de jazz sempre presente nos filmes de Allen servem aqui para pontuar as cenas conferindo-lhes um ar comico,ironico e muitas vezes patético. A direção de arte é ponto forte,com tons pastéis sem vida ou branco asceptico,combinada com casas entulhadas de coisas,que criam uma sensação de sufocamento cada vez mais crescente.
Todos os personagens fracassam,querem atingir o sucesso,criam milhares de planos lindos,mas os destino sempre vem para lhes pregar uma rasteira.Projeções são feitas de maneira calculada,pensadas friamente,entretanto uma avalanche de fatos se sobrepõem as expectativas de todos.
Voce Vai Encontrar o Homem dos seus Sonhos torna-se amargo,de riso dificil por ser tão mundano,de ser tão possivel,de ser muitas vezes nós mesmos.
O narrador abre o filme com a célebre frase “A Vida é feita de Som e Furia” e ao final percebemos que a vida “não significa nada”. Mesmo!