O terceiro mundo vai explodir… E só as baratas sobrarão!

Revendo esta ótima animação no último Festival de Curtas de SP, resolvi escrever umas breves palavras, que ficam como dica para os que gostam de animação, documentário, Hqs e o que mais acharem de tema dentro do filme!

A questão da linha tênue que divide os campos do documentário e da ficção é um assunto recorrente ao se tratar de um filme considerado como um documentário de animação, como é o caso do premiado curta-metragem “Dossiê Rê Bordosa” (2008), do diretor brasileiro César Cabral.
O cineasta trabalha de maneira inusitada e criativa a narrativa, invertendo o que seria uma entrevista comumente empregada nos documentários em um depoimento típico do gênero policial de ficção. O gênero de entrevista tornou-se quase que uma premissa narrativa no documentário contemporâneo, principalmente entre os brasileiros. Nesse contexto, muitos cineastas a trabalham de forma inventiva, até mesmo a contestando ou mesmo subvertendo sua fórmula.
O documentário animado vem ganhando espaço nos últimos anos, não só por experimentar na forma, mas também inovando na própria linguagem do documentário. Só para citar, temos os conhecidos longas “Persépolis” (2007), da cineasta e quadrinista iraniana Marjorie Satrapi (baseado em sua HQ homônima); “Valsa com Bashir” (2008) do israelense Ari Folman, sendo que ambos partem de narrativas biográficas. No que diz respeito aos curtas e sua maior liberdade para experimentações, temos um ótimo exemplo brasileiro de “O Divino, de repente” (2009), que vem colecionando prêmios nos festivais.
Com um tom investigativo, “Rê Bordosa” colhe depoimentos de personagens reais, que são substituídos ao final por bonecos de massinha filmados com a ótima técnica de stop motion. Mais do que pensar no conteúdo da história que nos é contada, “Rê Bordosa” nos presenteia com uma forma muito bem elaborada do como essa se desenrola.
Influenciado por diversos elementos importantes na história de nosso cinema, seu mote é investigar o assassinato da famosa personagem fictícia das “tirinhas” brasileiras (que dá titulo ao filme) em 1987 – em seu auge de popularidade – por seu criador: o cartunista Angeli. O filme se estrutura através de entrevistas realizadas com o próprio Angeli e com pessoas que conviviam com o mesmo naquela época, além de reconstituições que rememoravam o caso, para tentar desvendar o crime.
A narração em voz off tem uma referência clara ao cinema marginal paulista dos anos 1960 (por sua vez influenciado pelos programas policiais da rádio nos anos 1950), mais especificamente ao “Bandido da Luz Vermelha” de Rogério Sganzerla. O underground paulistano do clássico marginal cai muito bem nesse diálogo com o submundo dos anos 80 característico das histórias e personagens de Angeli, sabiamente transposto para a misé-en-scene de “Rê Bordosa”.
Há uma sequência dedicada ao personagem Bob Cuspe – testemunha ocular do crime – em que a personagem (tratada aqui do mesmo modo que as personagens reais) ao narrar os fatos testemunhados, tem sua memória ativada e vemos a reconstituição do assassinato: um cenário soturno e literalmente do submundo, onde Bob transita pelos esgotos da cidade sob uma trilha punk bem periférica, num clima de cinema noir decadente.
Se o crime foi desvendado pelos investigadores, nada sabemos, mas podemos dizer que a animação empregada como recurso estético deste que é mais que um documentário, foi a melhor opção e, mais que isso, a principal atração desse bem realizado curta.

Dois Mundos

Antes de começar a escrever este texto fecho os olhos e me deixo ser levada pelos sons que tomam conta deste sábado calmo. Um passarinho em alguma arvora próxima pia, alguns carros passam na rua,uma moto com o motor desregulado faz um barulho insuportável, longe consigo distinguir um ônibus,minha mãe mexe em alguma coisa na cozinha,nos talheres provavelmente por causa do barulho,metálico, meu pai passou no corredor arrastando seus chinelos,som arrastado,como vento baixinho e agora a TV está ligada,parece uma melodia,estaria meu pai vendo um de seus filmes de cowboy?ou seria apenas Tom e Jerry? Você lendo o texto, experimente esta sensação, ouça o que esta ao seu redor,e agora imagine e se todo este barulho desaparecesse? E se só te restasse o silencio?

“Dois Mundos” retrata o universo dos surdos, não é um documentário de imagens,mas de sons,sinestésico. A diretora Thereza Jessouroun explora de maneira inventiva o seu objeto,o ouvir. Já de inicio,nos causa estranheza o som altíssimo da projeção,amplificado ele dói aos ouvidos,atordoa um pouco. Gostaria que fosse um pouco mais baixo,penso eu num primeiro momento,mas quem já teve até uma leve inflamação no ouvido sabe que dentro de locais fechados cria-se como se fosse um vácuo, o som é abafado, e sendo mais baixo,conseguiriam ouvir ao documentário as pessoas com problemas auditivos?Na fila para a sessão noto na minha frente um grupo conversando em libras,um papo animado pelas expressões e pela velocidade de seus gestos,uma conversa silenciosa, fiquei imaginando como seria ir ao cinema e não ouvir nada,qual a percepção de um filme,todo construído para o uso do som sem este ,as imagens por si só e os atores bastam?

Neste documentário não, a presença do som é onipresente, alto, abafado,eco,todas as maneiras de se ouvir e se sentir o barulho, pois quem é surdo pode não ouvir aquilo que está sendo escutado pela maioria,mas ele sente,afinal som não são ondas propagadas no espaço?Ele vibra,eles sentem a vibração,coisa que nós ouvintes perdemos um pouco a sensibilidade de perceber, Thereza coloca a sala de exibição para vibrar com a chegada de um metro na estação,com a musica alta de uma discoteca.

Partindo de vários depoimentos de jovens surdos, a diretora cria um panorama rico de impressões deste mundo,como cada um se relaciona com o silencio e com o barulho quando com o aparelho,como cada um ouve.Eles ouvem diferentemente,os sons não são tão claros,as vezes os menores sons não são captados,mas nós ouvintes captamos, estamos abertos para estas pequenas coisas? Uma das garotas disse que ficou maravilhada em saber que seus passos na areia produziam barulho,podemos ouvir nossas próprias pegadas,quantas vezes você ouviu o barulho de seus pés? A mesma entrevistada relatou que por viver no silencio inventava os sons das coisas. O poeta Manoel de Barros diz que “tudo que não invento não existe”,ela inventou o mundo a sua maneira,preencheu lacunas,o som existe como nós o percebemos,o mundo existe a nossa maneira.

“Dois Mundos” não trata de maneira complacente os surdos, não os transforma em vitimas, eles vêem,ouvem o mundo de outra maneira,nem pior,nem melhor,apenas diferente. E se por algum momento o espectador ficar tentado a se compadecer do grupo,muitos deles nos lembram que ouvir excessivamente,tudo, a todo momento,sem trégua pode ser desgastante, “meditar” um pouquinho,ou seja retirar o aparelho e se apartar do mundo sonoro, pode ser muitas vezes algo revigorante. É verdade,enquanto termino este texto,um carro pára em baixo da minha janela com o som alto, sou obrigada a ouvir funk e sertanejo contra minha vontade,o passarinho em alguma arvore próxima silencia, e sou deixada com este barulho nada agradável.

Chyntia ainda tem as chaves

O filme de Gonzalo Tobal é delicado e assertivo. Cynthia ainda permanece com as chaves do apartamento que dividia com o namorado e se aproveita deste fato para passar seus dias em companhia de suas memórias de uma vida feliz. Perdeu-se de si mesma, sua vida foi interrompida com a separação e portanto se apega com afinco àquele espaço ausente de vida a dois,mas que para ela representa seu amado e seus momentos. Cozinha,ouve,musica, dorme, usa as roupas do namorado, e tudo isto com o cuidado de apagar sua existência naquele apartamento,traz a comida que cozinha,os produtos de limpeza ,arruma a cama como a encontrou. Cynthia é como um fantasma,uma sombra.

Absolutamente tudo no curta corrobora para a sensação de deserto que a personagem tem em si, o silencio, a musica melancólica do Smith, os planos abertos que transformam o apartamento em um local muito maior e Cynthia em algo pequeno se esforçando para ocupá-lo. O vermelho presente nela contrasta com as cores frias do espaço. Quanto amor desperdiçado,diz ela em determinado momento.

Entretanto algo incomoda no curta, não é porque Cynthia está melancólica,desgostosa da vida que a personagem não deve ter vida. Minha professora de interpretação costumava dizer que a personagem pode estar triste,a a triz não. É justamente o que ocorre. Falta presença cênica, tudo é esmaecido, os gestos são fracos, os silêncios muitas vezes vazios,não se sustentam. A cena em que prepara a comida,em que corta os pimentões carece de força, suas mãos estão como mortas ao segurar a faca,ao cortá-los , e saberemos ao final do filme a força e a importância que este jantar tem na sua vida. Sua voz é monocórdia, um problema já que a personagem assume a câmera desde o começo,estabelece um monologo conosco de fato, o tom melancólico faz com que o filme perca um pouco das nuances.

Aqui se coloca um problema longe de ser exclusividade de “Cynthia ainda tem as chaves”,com o orçamento enxuto e tempo de filmagem idem, é preciso se perguntar até onde os curtas conseguem bom elenco e tempo para prepará-lo,e se isto muitas vezes não acaba por prejudicar um bom filme. Como resolver este dilema é algo a se pensar uma vez que o curta tem todo um caráter experimental que se perde com os caros longas metragens.Entretanto com um roteiro tão fantástico como este, Gonzalo Tobal poderia apresentá-lo a qualquer atriz que com certeza toparia na hora. Quem não gostaria de ganhar um presente destes?

Festival Internacional de Curtas Metragens

Hoje foi o encerramento do Festival,os meus textos no tablóide foram sobre os filmes : Intervalo,Tanto,Cynthia ainda tem as chaves e Ninjas. Claro que com o tempo curto para a produção dos textos alguns outros curtas vistos ficaram de fora,pretendo agora publicar criticas a respeito. Começo por Cynthia ainda tem as chaves,pois foi feito uma edição que ao meu ver deixou alguns pontos interessantes de fora,seguido por Dois Mundos.