Matterhorn

 

Impecável. Uma boa palavra para definir o longa holandes já em suas primeiras cenas. Impecável na fotografia e na Direção de Arte: o enquadramento estudado de cada plano, a palheta de cores pastel e preta. De encher os olhos e bem perceptível  para o público. Não sem motivo, o personagem principal, Fred, um calvinista fervoroso,leva a vida de maneira absolutamente meticulosa: horários, disposição de objetos, comida na medida certa. Tudo tão certo e arrumado quanto a fotografia e a direção de arte.  Outro filme que se utilizou de recurso semelhante, exteriorizar  o personagem na mis-en-scène, foi A Single Man, tudo muito impecável e certo como o personagem de Colin Firth. Opção interessante,mas que facilmente pode cair em algo banal, truque fácil, felizmente não é o caso aqui e muito menos no longa de estréia de Tom Ford.

Já o roteiro não é tão impecável assim. É um bom filme, sem dúvidas. Um calvinista com uma vida temente à Deus e regrada,solitário, num dia qualquer se depara com um homem estranho, Theo, que não fala praticamente, que não tem habilidades sociais nenhuma, quase uma criança aprendendo coisas básicas, sozinho, sem ninguém e sem lugar, e resolve “adota-lo”como bom samaritano que é. A partir daí uma relação de cumplicidade se estabelece entre os dois, este homem completamente sem história, sem marcas aparentes decretará uma ruptura no modo de vida de Fred, ao ponto do calvinista tão solitário misturar as coisas, enxergar no homem sua falecida esposa, e a comunidade local virar as costas para um dos seus por não entender o ruído causado pela aquela estranha presença.

O que está em jogo são afetos, pessoas solitárias,duras e frias, sozinhas pelas próprias regras rígidas que impuseram para elas e para os que as cercam, afastando todos. Como Theo burla absolutamente todas estas regras, por ignorá-las e por não seguir nenhum padrão socialmente aceito, ele não se afasta, muito pelo contrário cada vez mais se sente ligado a Fred.

O que quebra um pouco o roteiro é o final edificante e uma liçãozinha de moral dada pelo longa. Descobrimos que Fred tem um filho logo de cara e somos levados a acreditar que está morto,como a mãe, porém ele está “morto” para o pai por ser gay e assim foi expulso de casa. No estante que Fred tem uma relação dúbia com Theo e aos olhos da comunidade eles possuem uma união homoafetiva (mesmo não sendo, as aparencias sempre enganam não?) estes padrões vão sendo dissolvidos a duras penas para Fred e ele ao final aceita o filho, cantor numa boate gay, ao som de ” I am what I am”.  Foi um pouco demais.

Pode não ser impecável em tudo,mas é adorável em sua esquisitice.

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As Vantagens de Ser Invisível

 

Talvez algumas pessoas tenham a adolescencia mais fácil que outras,posso afirmar que a minha não foi um mar de rosas, na verdade comemorei muito o fim do colegial. Assim como o personagem principal de As Vantagens de Ser Invisível, eu também contava os dias para que terminasse. Com certeza muitas outras por aí também, e esta é a beleza provavelmente dos filmes independentes que tratam deste período : são os losers os personagens principais, os freaks, os outsiders…bem provavelmente roteiristas e diretores destes filmes não deveriam ser as cheerleaders nem os garanhões do futebol americano,para ficar  no cliche do cinema norte americano.

O longa segue o modelo bem feito e sempre cativante dos independentes: trilha fantástica, o loser, o outsider gente boa, garota descolada, um drama adolescente e final melancólico. Não, eu com isto não estou diminuindo o filme, ele realmente é sensacional,muito bem filmado e com um trio de atores muito afiado: Logan Lerman, Ezra Miller ( É Preciso Falar Sobre Kevin) e a “British ” sweet heart Emma Watson.

Charlie é um garoto tímido,sem amigos e que entendemos desde o início do filme tem sérios problemas psíquicos, ele acaba se tornando amigo de Patrick, ou Nothing como é chamado por sua turma por ser o repetente, garoto divertido,absolutamente contra as regras e gay, e de sua meia irmã, Sam, divertida e descolada com péssimo gosto para namorados. Ele se torna da turma, a turma dos “descolados”, ou os que fogem de todos os padrões certinhos da sociedade norte americana. Drogas, sexo e rock´n´roll são abordados na trama de maneira suave,  como rituais de passagem de todo adolescente. O ponto de tensão está exatamente no problema que Charlie carrega, ele está sempre no limiar, trata-se de um equilibrio delicado que ao escorregar pode trazer consequencias não muito boas para o garoto.

Ser invisível tem lá suas vantagens, não é preciso lidar com assuntos desagradáveis e difíceis, no entanto é no encontro com o outro que nos formamos, que podemos saber quem somos. Saber sua turma e ter o apoio dela é meio caminho andado para não se perder, ou se perder mais e conseguir se achar. Sorte de Charlie!

Eu Matei Minha Mãe

Eu Matei Minha Mãe foi realizado por Xavier Dolan,um canadense de inacreditáveis 17 anos.Dirigiu,escreveu e atuou em seu primeiro longa,não o bastante o filme possui maturidade de gente grande,sem perder o frescor na ousadia de linguagem.

O longa está muito além da discussão homossexual presente nas resenhas,a orientação sexual do personagem é apenas um dos muitos aspectos que circundam a relação tumultuada com sua mãe.Quem nunca teve atritos com os pais que jogue a primeira pedra! O roteiro delicado,consegue de maneira imbricada dar conta da complexa relação entre pais e filhos,aqueles que se amam a cima de qualquer coisa,mas que nunca foi dada a opção real do não amor,o amor de mãe é o incondicional,o de filho também,mas como esta relação em que a escolha não é possível pode ser saudável? Xavier dá conta de mostrar as várias facetas do conflito,ora a mãe,ora o filho são vitimas e algozes de seus próprios caprichos. Amor e ódio são apenas dois lados da mesmíssima moeda.
A camera em planos médios e estáticos criam a sensação artificial nas relações,nada se move,estáticos como que posados os personagens se distanciam,não existe calor.Em contraponto a estas imagens o diretor cria escapes belíssimos e de açao,muitas vezes violentas.As aparencias não se encaixam nos desejos,muito mais cruéis,muito mais vivos,capturados em camera lenta. Para arrematar,a direção de arte é precisa,fazendo da casa dos personagens principais um espaço de sufocamento,de não pertencimento.
Saindo da sessão,ouvi a conversa entre dois amigos,um deles disse “imagina uma mãe vendo este filme?”Talvez fosse um interessante programa familiar…

A Fita Branca

O homem não é bom. Esta é a premissa de Michael Hanake em todos os seus filmes,não seria diferente em A Fita Branca. Numa pequena comunidade protestante alemã pré-primeira guerra crimes sórdidos acontecem sem que a população descubra os culpados. Se nos outros longas do diretor assistíamos estarrecidos a violencia brutal cometida pelos personagens,aqui Hanake cria uma atmosfera que faz o espectador também ser o agressor.Nisto reside o amadurecimento de sua filmografia e como resultado a tão merecida Palma de Ouro. Nas outras fitas o austríaco trabalha o distanciamento do publico frente a história,é quase impossível se identificar com Isabelle Huppert em A professora de Piano, com a dupla terrível de Funny Games, com a frieza do algóz em Caché nem com o clima hostil em Código Desconhecido,entretanto não são monstros,são seres humanos e é isto que Michael Hanake quer deixar muito claro em A Fita Branca. Não há nada diferente entre eles e nós.

Não é a toa que no longa existem tres persogens chaves, o médico, o pastor e o professor. Os dois primeiros são respeitadíssimos pela comunidade ( e em qual sociedade não o são?),já aquele que detém o conhecimento laico, o que pode operar mudanças naquele pequeno nucleo é fraco, um pouco ridicularizado e possui um sub-emprego, melhor ser alfaiate com o pai do que professor em uma vila. Existe também uma grande gama de personagens,muitos,o que faz com que num primeiro momento venha o questionamento se o roteiro acaba querendo abarcar tudo e não aprofunda em nada,mas o temor é logo dissipado pois todos são a massa obediente,sempre foram,sempre serão,seus filhos,seus netos, todos muito coretos aos olhos da rígida sociedade cristã protestante que não permite falhas,apenas virtudes,na qual tudo é transformado em pecado. É um filme duro neste sentido, a postura dos personagens é engessada como qualquer passo em falso fosse a própria condenação, os que saem do padrão são vistos com maus olhos e sumariamente castigados pelos misteriosos crimes que acometem a vila.Entretanto nem tudo é preto e branco na vida,como mostra a belíssima fotografia em p&b do longa que explora nuances de sombras, texturas da luz dando profundidade para algo que poderia ser facilmente chapado.
Onde entra o espectador? Michael Hanake quando do lançamento de A Fita Branca declarou que cinema era iludir e ele aprendeu bem com Eisenstein como conduzir seu filme. Ele trabalha bem o dilatamento do tempo em algumas cenas que um diálogo banal pode ser algo muito mais perigoso e faz com isso que o publico crie em sua cabeça a continuação da ação, normalmente o pensamento é sórdido, quando a cena se desenrola é sempre inofencivo e foi o espectador sentadinho em sua poltrona, que sempre teve horror dos personagens detestáveis de seus filmes,´quem imaginou pêlo em casca de ovo. O Protestantismo opera assim. A Sociede Cristã como um todo opera assim. Sempre o pecado,sempre o pior.
Somos todos monstros em potencial,não existem inocentes,literalmente.

Abraços Partidos

Almodovar faz em Abraços Partidos uma declaração de amor ao cinema. A trama gira em torno do meio cinematográfico, as personagens principais são um diretor,uma atriz,uma diretora de produção,um aspirante a roteirista,um documentarista amador e um produtor. Seus destinos se cruzam devido a um filme feito 14 anos antes de quando se passa a ação. A metalinguagem é constante por existir até dois filmes dentro de Abraços Partidos; se fala de cinema o tempo todo, e os generos se misturam durante os 120 minutos. Nos primeiros 40 minutos as personagens são apresentadas,as relações são estabelecidas muito concretamente para que o salto no tempo e os diversos níveis de narração não confundam o espectador,entretanto pelo menos tres generos apontam neste começo,deixando quem assiste se perguntando se o que se passa na tela é o “filme dentro do filme” ou não. Nos primeiros minutos trata-se de um drama,para logo em seguida guinar para um suspense,através dos diálogos que despertam a duvida de quem é determinada personagem,o que ela quer ali, e também através da trilha sonora que perfeitamente poderia ter saído de um filme de Hitchcok por seu clímax; para culminar no melodrama um pouco caricato. Estes elementos provocam a duvida e deixam em suspenso o espectador até que o “filme dentro do filme” comece a ser rodado e assim entendemos que teremos ao longo da película vários generos caminhando lado à lado.
Apesar de Almodóvar abusar de suas marcas registradas como cores fortes e grafismo,o resultado é muito mais sóbrio do que seu clima passional latino costumaz. As atuações são mais contidas e a direção aponta para um caminho mais introspectivo do que de grandes arroubos através da história dos personagens e como eles lidam com estas. Não é dado um grande espaço de tempo para que cada ação se desenrole e culmine cada uma num grande clímax explosivo. O tempo é enxuto,seco. O tempo é suspenso,mas rapidamente já se transforma em outra ação,e as consequencias são logos vistas, como se não houvesse tempo para perder.Talvez seja assim que o diretor consiga com que os três generos caminhem juntos. Nos envolvemos na história extraconjulgal da atriz,interpretada por Penélope Cruz, com o diretor, o drama deste relação,ao mesmo tempo existe o suspense do que terá acontecido à ela no tempo presente,uma vez que ela é totalmente ausente neste momento,teria sido assassinada pelo marido?Teria o enteado que filma um documentário sobre os bastidores algo haver na história?E o melodrama que marca o tom do longa, que por mais sóbrio que seja, ainda é um filme de Almodóvar, e ele parece brincar com o genero colocando cenas que a primeira vista parecem fora de lugar,como confissões bastante explicativas, ou revelações seguidas de musica de suspense,que acabam por criar um aspecto até cômico.
As mulheres para variar marcam presença em Abraços Partidos,além da ação girar em torno de Penélope Cruz,outras atrizes do diretor aparecem em pontas. Também vemos Katherine Hepburn na tela de tv, Jeanne Moreau é mencionada por causa de Ascensor para o Cadafalso ( suspense com um triangulo amoroso!), Penélope aparece meio Audrey Hepburn,meio Marlyn.
O grande trunfo do filme são fotografia e edição,impecáveis. Talvez seja o filme estéticamente mais bem cuidado de Almodóvar,com planos belíssimos e muito poéticos, e edição muito cuidadosa que flui a narrativa de forma muito organica, e cria situações. Não é à toa que o ponto de mutação dos personagens se dá por causa da montagem do filme de “mentira”. Como a partir de todas as peças do quebra-cabeça montar algo coeso, que honre a história que está sendo contada?
Almodóvar parece querer nos dizer que cinema é imagem em movimento,narrativas,simples assim!

Colin

Uma camera na mão,uma idéia na cabeça,muito sangue, 70 dólares e mais de cem figurantes. O resultado é Colin,filme de terror,mais precisamente de zumbis que vem para transformar o genero.Geralmente estes longas ou flertam com o trash,ou com a comédia,não raro com os dois. O filme ingles tem trash,tem cenas comicas,mas é um drama. Acompanhamos a saga do anti-herói, Colin,após ter sido mordido e se tornado um morto-vivo. Ele vaga por Londres e o seguimos. O longa tem 97 minutos,pouquissimos diálogos, e sequencias de silencio e vazio profundos. O personagem parece flanar pela cidade abandonada por humanos e tomada por zumbis. Os planos são em sua maioria planos gerais que o mostram andando sozinho durante muito tempo,nos dando a sensaçao de abandono e desesperança,não há motivação,ou closes que o humanizam, os pés caminhando torto e arrastado,as mãos deformadas,como se fosse alguem com limitações.Tomadas da arquitetura ou do tempo, a propria mudança temporal gradual.
Em seu caminho Colin se depara com humanos que lutam por sua sobrevivencia,neste momento ele se torna de fato o que é : um zumbi. Ou seja, o instinto de matar e comer suas vítimas é o que o move,até que algo chame sua atençao.Neste momento o diretor presta uma homagem ao classico cinema de terror,pois as cenas não deixam a desejar nada ao mais sanguinário exemplar do genero,muito sangue e víceras para todos os lado.Entretanto, não existem mocinhos,nem vilões, o garoto morto-vivo e outros apenas fazem aquilo porque é o que deveriam fazer,a maquiagem é quase inexistente,o que lhes confere uma afeição assustadoramente humana ( tao mais fácil seria se eles fossem monstros horrendos…) e os humanos de fato não são muito melhores que os mortos. Estes não possuem consciencia do que fazem, apenas agem,já aqueles possuem o que é de mais caro a raça humana,o raciocínio, e cometem barbaridades enquanto o mundo se aproxima do fim. Ficando a pergunta de quem é realmente o perigo.
Em sua jornada o espectador é convidado a reflexao sobre sua própria condição e sentido ou nao de nossa própria existencia,afinal Colin está fadado a eternidade a marchar sem rumo alheio a toda vida que o cerca ? A consciencia é algo libertador ou é capaz de nos tornar tão piores do que zumbis ?