Trabalhar Cansa

 

No cartaz do filme,uma frase de uma crítica de um jornal norte-americano ” De Sica encontra o Iluminado” . Uma combinação um tanto estranha é verdade,mas que podia ser bem interessante afinal estamos falando de dois grandes diretores. Entretanto fica apenas na promessa de uma frase de efeito.

Vittorio De Sica,aristocrata e membro do partido comunista,problematiza de maneira vertical e sempre de maneira delicada a sociedade capitalista,em nenhum de seus longas o tom é panfletário ou cheio de cliches,muito pelo contrário. Já não é possivel dizer o mesmo de Trabalhar Cansa. O filme usa e abusa de cliches opondo a classe média à classe trabalhadora,se carregasse menos na tinta,conseguiria dar um retrato mais humano desta dicotomia. A relação mais emblemática é entre a personagem principal e a empregada doméstica,a menina é nova,é o seu primeiro emprego,ela reluta em aceitar o posto pois não será registrada,ao que a patroa replica que será muito dificil encontrar um emprego de carteira assinada e os encargos são muitos para ela. Ao final do longa,a moça torna-se funcionária de limpeza de um shopping,quando está saindo do seu turno,um moço engravatado vem em sua direção, lhe entrega sua carteira e diz ” voce está registrada. Parabéns,agora voce existe”.Completamente desnecessário e sintomático do que acontece ao logo da narrativa.

O lado Iluminado fica por conta do supermercado adquirido pela personagem principal.Coisas estranhas acontecem por lá.Entretanto por serem tão espaçadas entre si,perdem um fio condutor e são situações jogadas que não acrescentam em nada ao longa. Para lembrar nem que de longe o filme de Kubrick o mínimo que deveria acontecer seria a personagem entrar em completa simbiose com o local e aquilo começar a afetá-la profundamente. Não acontece. Sua relação com o local vai se deteriorando porque sua relação com sua família cada vez mais é abalada pela falta de emprego do marido.

É um filme que pretender ser tudo ao mesmo tempo: critica social,drama,suspense,terror psicológico e não consegue verticalizar em absolutamente nada.Mas Trabalhar Cansa tem algo extremamente positivo: o casting e a direção de atores. É um filme de atores,se não fosse pela interpretação o filme seria ainda mais fraco. É impressionante a qualidade de atuação do casting. Muito bem resolvida. Longe do engessamento que às vezes nossos atores são acometidos,não conseguindo entrar na linguagem cinematográfica,ou da atuação histérica da Fátima Toledo,o casting de Trabalhar Cansa é afinado e em sintonia,muito bem colocados dentro de uma vertente naturalista.

O cinema nacional precisa ainda buscar o tom da critica social sem cair na denuncia panfletária e maçante.

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Ilha dos Mortos

George Romero é um dos grandes nomes do terror,sem duvida alguma. O pai do gênero zumbi ( ao que parece,o monstro da vez). Em A Ilha dos Mortos ele revisita o gênero que o fez famoso na década de 60. Não espere a camera na mão ágil e muitas vezes subjetiva,cortes secos e rápidos,gritaria,monstros fortes e velozes,como são estes novos filmes de zumbi,com estética de video game,do qual Resident Evil é obviamente a referencia.Não,o diretor dá o tempo de as coisas acontecerem, de situações serem estabelecidas. Mortos vivos são burros,lentos,se precisam de comida vão atrás,se não ficam no seu canto.Não existem heróis nesta história,não se trata  apenas de praticar tiro ao alvo nos corpos que andam. Há uma questão moral explicita no longa: uma ilha,zumbis e duas famílias com opiniões distintas sobre o que fazer com a ameaça,um lado quer matar com tiro na cabeça todos,o outro quer mante-los…bem,vivos não é a palavra certa,mas na condição em que se encontram,e por causa desta rusga uma batalha começa para ver quem tem razão. Um conflito moral,no qual as leis não mais se aplicam. Os homens estão por sua conta,as barreiras sociais,políticas se esvaneceram,o instinto fala mais alto.Os longas do gênero tocam de leve no assunto sempre,mas neste caso é o cerne da questão. Entretanto não espere um filme filosófico,parado. Apesar da camera mais fixa,de zumbis nem tão ameaçadores como os de outros longas,é um ótimo filme de terror. Se nos outros existe um pudor quando um ser humano é atacado,o perigo eminente é sempre o mais ressaltado,aqui Romero mostra tudo em detalhes,zumbis mastigando carne,dilacerando um corpo,almoçando tripas,no melhor estilo trash. E como não pode deixar de ser o estilo pede uma certa dose de non sense e consequentemente humor bagaceiro.

Para quem gosta do gênero é um prato cheio e suculento!

Panico 4

“Do you like scary movie?”.Há 15 anos atrás,esta frase ficou famosa. O telefone toca,do outro lado da linha,uma voz metálica faz a pergunta. Na década de 90 o terror estava,digamos,meio morto. Estava longe com certeza de seu auge. Wes Craven,diretor de A Hora do Pesadelo,um dos maiores clássicos do genero,foi convidado então para dirigir um longa com um assassino em série que matava suas vítimas com uma faca,se vestia com uma fantasia pavorosa e tinha fixação por uma adolescente. Com Panico,o diretor revitalizaria não só a sua carreira,mas o genero horror. Adolescentes com hormonios em ebulição, muito sangue,muita carnificina,e assassinos de carne e osso. Está aí a formula do longa que deu horigem a tantos outros filmes durante a década,pavorosos por sinal,no sentido não de serem assustadores mas sim de serem terrivelmente ruins.

Uma década e meia após o estrondoso sucesso,Craven volta a dirigir o 4 filme da série (os outros dois são dispensáveis).Não economiza no humor em relação ao filme original,à moda dos anos 2000 de refilmagens e da mania do genero em criar séries intermináveis que vão ficando pior a cada roteiro.

É um longa bem divertido para quem viveu a experiencia do primeiro Panico,cheio de auto-referencia. No original,tudo girava em torno das regras dos filmes de terror que deviam ser obedecidas e claro não eram e por isso as mortes ocorriam. Nesta sequencia,as regras já se tornaram parte da própria estrutura da franquia,quem já assistiu,consegue identificar e antecipar o movimento do assassino e aí está a graça. Não mais no terror em si,mas na identificação com a história.

No primeiro longa,a fama instantanea, a vontade de ser reconhecido,o circo midiático montado pela imprensa são temas que permeiam toda a história. Em Panico 4,estes motes voltam e com força ainda maior devido agora ao poder da internet. É muito facil ser reconhecido, só é preciso uma camera e fãs. O uso do ciberespaço pelos personagens,o jeito que eles se relacionam com o espetáculo criado por qualquer evento,a facilidade de hoje em dia em se criar uma celebridade,em fazer qualquer coisa acontecer é o que norteia o filme.

O trio original de mocinhos está velho,são coadjuvantes do massacre,e embora Sidney seja  desgraçada como sempre,o proprio assassino diz em uma ligação ” o mundo não gira em torno de voce”. Se nos outros 3 filmes o espectador fica apreensivo por sua vida,logo no começo o mascarado já aponta que ela não é o alvo principal a ser esquartejado,ou seja até como vitima principal a garota perdeu espaço para adolescentes bonitinhas.

Vale a pena assisti-lo pois Panico 1 já se tornou um classico do genero,e Panico 4 presta uma divertida e boa homenagem ao original,com nomes de sucesso para o publico adolescentes e até Robert Rodrigues no meio.

A Noite dos Mortos Vivos

Gosta de filmes de terror? Se sim,não tem como não assistir A Noite dos Mortos Vivos; se não,bom também não tem como perder este longa incrível.

Se os filmes de terror hoje em dia mostram o mais do mesmo,esteticamente pobres,mais preocupados com o número de efeitos especiais e o quão sanguinolento podem ser,antigamente existia classe.Romero que o diga!

Seu longa pode não assustar como provavelmente assustou e chocou a platéia na década de 60,mas tudo que temos hoje em filmes de zumbi,e coisas semelhantes devemos a ele. A paranóia da contaminação,o instinto de sobrevivencia e principalmente este instinto quando as leis já não valem muita coisa,a sociedade derretendo-se e dando vez ao caos. Mais do que zumbis,temos uma crítica social,confinados uma noite numa casa abandonada,a unica e frágil proteção contra os seres comedores de gente,um grupo de pessoas terá de se manter coeso para conseguir sobreviver,é preciso um líder que consiga o respeito na base da porrada ( é melhor ser temido,do que amado,já dizia a muito tempo Maquiavel) e sem espaço para o politicamente correto dos dias atuais.

As cenas são em maioria primeiro plano,closes e detalhes,com enquadramentos distorcidos remetendo à loucura que alguns personagens são submetidos. Cria-se assim a sensação de sufocamento,confinamento,todos dependendo da estrutura da casa para sobreviverem à noite.Não existe escapatória.

Cinco anos antes de Romero,Hitchcock filmou Os Pássaros,no qual aves sem nenhuma explicação atacavam seres humanos e assim como os personagens de A Noite dos Mortos Vivos,os personagens encontravam abrigo mais ou menos seguro numa casa,até o momento em que o ataque explodia. Se um ataque de aves já é assustador,saber que voce pode também virar algo bestial é mexer com nossos instintos mais primitivos de sobrevivencia,o que significa matar sem dó outros seres humanos,deixando os limites éticos e morais de lado.

Grande Romero!

REC 2


Em 1999 os responsáveis por a Bruxa de Blair assombraram publico e industria com um filme barato e com belo marketing. A idéia era realmente genial,aproveitar o uso cada vez mais comum de cameras de video caseiras para fazer um filme de terror,ou melhor um documentário,pois todas as imagens foram gravadas pelos personagens e toda trama foi feita como um registro real de algo muito macabro que teria acontecido numa floresta norte-americana. Florestas já são assustadoras por si por serem o local das forças da natureza,do desconhecido,onde o homem não tem o controle,junte cenas de pavor de algo que nunca tomar forma,nunca se manifesta na frente da camera,sendo mera sugestão e voi lá,temos um ótimo filme. Alguns anos mais tarde, a industria cinematográfica retoma a idéia original de registro pensando agora no boom da internet e documentaçao exaustiva na rede, o que não está no youtube,não existe,já está sentenciado. A partir desta premissa e voltando-se para a experiencia bem sucedida do final dos anos 90,os filmes de terror começam a sair da ficçao para quererem-se reais,ou seja o sobrenatural não mais como parte da fantasia,mas como algo possível,o que por si só já seria assustador,afinal é o grande medo,saber que o Mal não é apenas história da carochinha. Rec 2 faz parte desta leva de longas de terror.

O longa espanhol abusa do registro documental,o olhar é fragmentado na perspectiva de vários personagens que detém o poder da imagem,eles portam cameras de qualidade diversas,entretanto seu uso é tradicional, a narrativa poderia ser pulverizada na perspectiva destes diversos olhares,entretanto se matem linear,salvo raríssimas excessões onde o diretor consegue explorar um pouco melhor sua idéia estética, no primeiro registro dos personagens adolescentes quebrando o ritmo do filme,com o policial encurralado no banheiro,somos testemunhas passivas assim como os outros de sua situação, uma ou duas imagens das cameras dos capacetes dos soldados,criando a impressão da camera subjetiva do video game na qual a arma sempre aparece e os movimentos são ageis e bruscos e o aparelho com infra vermelho que grava no escuro que envoca a discussão do dispositivo fotográfico ou videografico como capaz de captar o invisível, de reter a “alma”.
Com toda esta parafernália Rec2 é obssessivo em criar uma atmosfera de real,do registro,tudo é preciso ser dito para camera e um dos personagens diz a cada dois minutos que absolutamente tudo precisa ser registrado,arquivado. Nem com muita boa vontade compramos a idéia do diretor. Só verbalizando,explicando para tentarmos entender porque o longa foi feito. Uma mistura de filmes de zumbi com Exorcista e O ChamadoItálico, o filme espanhol não chega a lugar algum,fica dando voltas em torno da documentaçao do acontecimento e de um objetivo fraco que não se sustenta nem por dez minutos,conseguir o sangue da zumbi/possuida causadora primordial de toda a tragédia.

A Prova de Morte

Finalmente chega às telas brasileiras A Prova de Morte,filme de 2007 de Quentin Tarantino,que faz parte de um projeto maior, Grindihouse, entre o diretor americano e Robert Rodrigues. Os dois amigos prestam uma homenagem aos filmes de horror B da década de 70, cada um dirigiu uma parte e infelizmente estas foram lançadas como independentes uma da outra mundialmente,o que criou este hiato entre o filme de Rodrigues lançado no país faz tempo e o de Tarantino.

Em A Prova de Morte o diretor experimenta livremente sua linguagem cinematográfica,seus traços estão lá : o underground, os rincões norte-americanos,a cultura negra,o pop, a violencia, a ironia, a musica,os diálogos ácidos e banais,mas todos potencializados. A edição do longa,ao invés da agilidade pop de seus outros filmes, é cuidadosamente pensada para expandir o tempo,alargá-lo de tal forma que ficamos ansiosos e inquietos procurando onde entrará o sangue,a violencia. Tarantino sabe disso,ele brinca com nossas espectativas e quando a ação esperada acontece ela é rápida e impactante como se o fosse no momento real. Todos os enquadramentos e tempos são pensados como os movimentos de um predador a espreita de sua presa, ele dá-lhe tempo,sem pressa a cerca,se diverte com a situação. Somos colocados na posição de Stuntman Mike,papel de Kurt Russel, o serial killer que mata suas presas,sempre mulheres,com uma arma poderosa,seu carro envenenado.
A Prova de Morte é ,apesar deste jogo de captura, um filme extremamente rápido,quando nos damos conta ele já terminou e estamos contaminados pela adrenalina da caça. Um ótimo exercício cinematográfico de Tarantino,que assina também a direção de fotografia.

 

 

Zumbilandia

Quem é fã do genero vai se decepcionar com o filme, afinal zumbies são apenas pretexto nesta comédia nonsense. O diretor bem que tentou se valer de nomes como de Jesse Eisenberg e Abigail Breslin para dar ao longa um ar mais cult,mas acaba esbarrando em cliches bobos e uma trama bem chatinha.

Depois que um vírus mortal se espalha pelo mundo através de um hamburguer infectado, quatro sobreviventes se encontram em uma rodovia : um caipira maluco, um nerd, e duas irmãs trambiqueiras. Cada um está indo para um lugar, por motivos variados, encontrar um bolinho de creme, rever os pais nunca próximos,se divertir num parque de diversões. Boa sacada do roteiro em ridicularizar os pretensos filmes sérios de zumbies,onde realmente não há um objetivo a não ser sobreviver claro, encontrando o local livre das criaturas.Entretanto existe um porém, a graça destes filmes está justamente na tensão que criam, um numero bem pequeno de pessoas tem de lutar por sua sobrevivencia com milhares de monstros famintos, ao primeiro arranhão se tornam um deles, qualquer lugar que se vá,lá estarão eles e a comida está acabando. O problema em satirizar tudo isto é cair no oposto,nada faz sentido, vamos aproveitar o momento e então os zumbies tornam-se mero detalhe e o espectador fica se perguntando por que é que estou assistindo a tudo isso. A história falha pelo excesso e por não explorar melhor as regras estabelecidas pelo garoto nerd que servem como um manual de sobrevivencia para qualquer filme de terror ( o filme começa utilizando bem este “toc” mas depois se perde pelo caminho).

Melhor esperar A Madrugada dos Mortos 2.