12 ANOS DE ESCRAVIDÃO

“Sobreviver é não dizer à ninguém quem você é.”

Assisti ontem 12 Anos de Escravidão com o péssimo texto de André Forastieri na cabeça, intitulado “16 razões para não ver 12 Anos de Escravidão“. Se ele pretendia ser irônico é fraco, se queria chocar, existem pseudos filósofos que fazem melhor, agora, se for para valer, é patético. Eu ao contrário do blogueiro poderia dar 16 razões para ve-lo.

Já faz algumas boas décadas que Hollywood aborda os temas escravidão e segregação racial em seus filmes. De forma mais melodramática como Amistad e A Cor Púrpura, ambos de Spielberg, ou mais política como os filmes de Spike Lee,entretanto desde a chegada de Barak Obama ao poder é que tais temas se tornaram parte da agenda realmente e principalmente do Oscar: Histórias Cruzadas, Django ( já comentado aqui) e agora 12 Anos de Escravidão. Eles tem em comum o fato de não aliviar a condição sub humana na qual negros por séculos foram colocados nos EUA. São cruéis em retratar a bestialidade W.A.S.P e a intricada relação “paternalista”  entre negros e brancos.

Como em Django, o filme do diretor britanico Steve McQueen apresenta matizes variadas na relação entre senhores e escravos. Sempre nos foi mostrado como os EUA com uma relação muito bem definida entre brancos e escravos, cada um em seu espaço e no Brasil, ao contrário, uma pretensa democracia racial, onde os espaços são mais flúidos. O que nos mostram estes dois longas é que ao contrário do que pensamos estes limites na “América” também podem se borrar, entretanto em hipótese alguma é sequer levantada hipótese de uma democracia racial, no final os papéis estão bem sólidos. Podemos ter escravos que se beneficiam da simpatia do senhor, principalmente escravas, pelo viés sexual, entretanto mesmo gozando de prestígio na casa grande, eles continuam sendo propriedades e podem perder as regalias por absolutamente nada.

O longa é cruel não só pelas cenas fortes de açoitamentos, mas principalmente nas relações, em como seres humanos são objetificados, retirados de sua humanidade, reduzidos à nada, a corpos e mentes dos quais não são senhores. O mais desesperador, brutal no filme é ver a condição passiva dos escravos diantes aos senhores, lhes foi imposta, o medo, a sobrevivencia dentro de uma sociedade sufocante e absolutamente excludente os faz ali manter sua posição ( não conheço a história dos EUA a fundo para saber lá como aqui, existiram comunidades quilombolas, de resistencia). Salomon, o personagem principal, é um escravo liberto, leva uma vida no início do filme como um homem livre, é até chocante ver como ele é integrado à sociedade, se pensarmos que para negros libertos a vida não é fácil, entretanto é apenas para ao longo do filme nos mostrar que não, as coisas não são tão bonitas e democráticas quanto parecem, sua liberdade é retirada a força e ninguém, absolutamente ninguém faz nada, é contrabandeado ilegalmente e passa como o próprio nome diz 12 anos como escravo. 12 anos! McQueen nos mostra sua vida entre dois senhores, sem mostrar em absoluto a passagem do tempo, apenas somam-se os dias, todos iguais aos outros: colheita, violencia, revolta, submissão, sobrevivencia. Não sabemos quanto tempo ele já está lá, assim como nem ele. Negros jovens, velhos, todos “abaixando a cabeça para sobreviver”, como diz um escravo a outros,incluso Salomon, logo no início do longa. O chocante é ver em várias cenas, negros com facas, machados e em número infinitamente superior ao número de brancos, capatazes. É impossível não pensar “alguém se revolta e faz um motim!”. Sim e depois? São propriedade, a lei está lá para amparar o dono, eles não existem como pessoas perante à sociedade, irão acabar mortos de um jeito ou outro. Isto é muito cruel. Ser retirado o mais básico e fundamental de um ser humano: existir.

No mesmo diálogo onde aparece a frase do abre deste post e sobre abaixar a cabeça logo em cima, Salomon profere ” eu não quero sobreviver, eu quero viver”. Isto é quando ele ainda está sendo contrabandeado, ainda existia uma parca esperança de que alguém o ouvisse. Foram necessários 12 anos.

Anúncios

A Trapaça

David O. Russel reúne em  A Trapaça atores que já dirigiu em outros excelentes filmes: Jennifer Lawrence, Amy Adams, Christian Bale e Bradley Cooper. Ele também assina o roteiro. Dizem ser o favorito ao Oscar, o que não quer dizer nada, afinal na maioria das vezes, o melhor nem sempre vence. O que é importante saber é que A Trapaça é um senhor filme! Uma história muito bem contada, simples assim. O roteiro é muito bem amarrado, com sacadas ótimas, boas reviravoltas e personagens muito bem construídos. A direção é segura, muito boa, com bons jogos de camera, um ritmo um pouco acelerado, na medida certa. O elenco é um show a parte, temos quatro grande atuações e todos foram indicados ao premio máximo do cinema norte-americano.

Irvin é um trapaceiro de marca maior, junto com a amante Sydney forma uma dupla de estelionatários trambiqueiros com bastante sucesso, até serem pegos pelo agente do FBI, Richie. A partir daí para sairem ilesos de seus crimes precisam colaborar com os federais para captura de outros falsários. Só que o agente é ambicioso e quando vê a oportunidade de pegar um político ele agarra com unhas e dentes,para desespero de Irvin que sabe bem que isto não pode acabar bem. Para adicionar uma pimenta a mais no meio desta quase comédia de erros, a esposa do trambiqueiro, Rosalyn, aparece entornando mais o caldo.

O longa começa com um aviso ao público: alguns destes eventos são verdade. Veja bem, alguns… é a partir desta premissa da verdade pela metade, ou a meia mentira, que o roteiro se desenvolve brilhantemente. Tudo parece meio falso, nada é o que diz ser, ninguém é e assim se sobrevive. A história se passa no final da década de 70 entre New Jersey e Nova York e os personagens parecem saídos de um filme da máfia de Las Vegas. Causa um incomodo a caracterização dos personagens, não dá para embarcar completamente naquilo, é como se a direção de arte avisasse ” acredite…mas duvide um pouquinho”, Bradley Cooper está absolutamente ridículo com permanente no cabelo, Christian Bale gordo e com um topete ridículo, Jenniffer Lawrence faz a esposa loira fatal ( no melhor estilo mulher de mafioso de Michelle Pfeiffer em  Scarface e Stone em Cassino) mas os traços de menina permanecem, a única que parece ali de verdade é justamente aquele que constrói outra identidade para si: Sydney, papel de Amy Adams. Neste jogo de aparencias e de xadrez vamos aos poucos sacando um pouco mais dos personagens, às vezes o discurso não bate com as ações, muitas vezes não dá para saber se o você espectador está sendo enganado junto, o roteiro é muito habilidoso em criar nós, em nos deixar em dúvida sobre as reais intensões de cada um ali, um dos recursos muito bem utilizados é a criação de momentos de fluxo de pensamento dos personagens nos contando a história do ponto de vista de cada e eles sem embaralham entre a narrativa do filme.

Para dar certo este jogo de cena só atuações absolutamente sólidas poderiam dar conta do recado. Bradley Cooper é o mais fraquinho dos quatro, o que não signifique que sua atuação seja ruim, nada disso, ele está bem convincente e engraçadíssimo como um agente ególatra, frustrado pela vidinha que tem e absolutamente transloucado. Amy Adams vai para sua quinta indicação, é uma atriz excelente, ela trabalha no pequeno, nas nuances, nos olhares e sua personagem é muito difícil exatamente por ser a única a fugir do registro mais histriônico que os outros demandam. Entretanto o show é de Bale e Lawrence. O interessante do Bale é como ele opera muitas vezes no limiar do caricato para criar um tipo, mas faz isto com tanta destreza e sensibilidade que geralmente seus personagens são absolutamente vivos, é o caso de Irvin, no início vem uma estranheza, aquele homem bonito sendo barrigudo, calvo, com roupas estranhíssimas, o objetivo é este, o choque, entretanto isto se incorpora de tal maneira que no final ele é o personagem por completo, os gestos, os tiques, a fala. E Jennifer…Lawrence merece um parágrafo a parte! Vinte e cinco anos e é capaz de coisas maravilhosas, ela se entrega, mergulha de um tal modo…ela faz a femme fatale e  ao mesmo tempo,mesmo linda, maquiada, ela tem aquele rosto de garota, esta dubiedade é por si só interessante, sua personagem é desequilibrada e infantil, carente, desesperadamente carente e ela cria um tipo irresistível, insuportável e digno ao mesmo tempo de compaixão. Sua cena mais marcante é uma cena rápida, muito rápida, ela com ódio do marido, diz mais do que deveria para um outro personagem, ela está em casa furiosa, o filme vem vindo num crescente de tensão, a trilha sonora num rock psicodélico é muito, muito alta, ela aparece, um plano fechado em seu rosto, ela canta a música ( não a ouvimos, ouvimos a música mesmo) de maneira furiosa e ridícula, a camera é lenta, ela agita todo o corpo cantando e dançando de maneira vigorosa, ela está linda e maquiada e…com luvas amarelas de limpeza na mão, limpando a sala…é absolutamente ridícula a cena, engracadíssima e só alguém sem o menor senso de ridículo, só um ator sem nenhum pudor para abraçar aquilo com tanta verdade e parecer ridículo e demasiadamente humano ao mesmo tempo, não é fácil, nem um pouco aliás.

Se A Trapaça ganhará ou não tudo em março nos Academy Awards, como disse, tanto faz, o importante é saber que se trata de cinema: uma história muito bem contada através de direção, roteiro e atuações trabalhando para isto.

A Batalha do Passinho

 

“É som de preto e favelado, mas quando toca ninguém fica parado”.

Hoje, dia 07 de fevereiro de 2014, outro juíz expediu uma liminar proibindo rolezinhos em São Paulo. Poucos dias atrás um garoto de rua no Rio foi espancado e acorrentado a um poste com uma trava de bicicleta. Dois dias atrás uma professora ( uma professora!) postou uma foto de um homem no aeroporto Santos Dumont com a seguinte legenda: aeroporto ou rodoviária?

Este deveria ser um post sobre um documentário, A Batalha do Passinho, e é…mas não só, todas as notícias do parágrafo a cima estão diretamente relacionadas com o filme. Totalmente relacionadas!

Conheci o fenomeno cultural que as batalhas do passinho são nas comunidades cariocas através de texto da Ivana Bendes, bastante envolvida com estas manifestações. O grande diferencial das batalhas é que a internet serviu como um mediador poderoso em sua propagação. Desde o início dos anos 2000, meninos das favelas inventaram um novo tipo de dança, baseada no passinho, ou seja no gingado com a perna, para dançarem os bailes funks, uma forma de diversão, na pista desafiavam um aos outros para ver que dançava melhor, até o dia em que um deles colocou um dos registros no youtube e o negócio cresceu de maneira exponencial, a garotada acessava os vídeos feitos e remixava a coreografia, colocando a sua na rede e isto foi crescendo, juntando comunidades, um garoto de uma favela x não teria como saber de outros dançarinos e outros modos de dançar se não fosse a rede mundial de computadores. A coisa foi ficando sofisticada em vários níveis: as coreografias começaram a incorporar vários estilos de musica, teatralidade, uma comunidade no orkut foi criada e dois agitadores culturais criaram a Batalha do Passinho, unificando todas as comunidades num evento no qual os dançarinos duelavam entre si para ver quem sairia coroado.

O documentário acompanha a batalha entre os anos de 2011 e 2012 e entrevista a “elite” da manifestação cultural. Crianças de todas as idades, adolescentes, adultos, todos dançando. Uma das moderadoras da comunidade explica bem a importancia do passinho nas comunidades ” hoje em dia tem poder na favela, o traficante e o dançarino do passinho”. “Mas geeeeeente, como pode um dançarino ter tanto prestígio assim?” pensa o leitor da classe média ( da qual me incluo). Por que um dançarino de passinho, um menino que coloca vídeos bobos e ingenuos e se torna o rei do rolezinho, adquirem tanto prestígio na periferia? O que eles tem? A rigor se pensarmos a fama nos dias atuais, nada. Mas se você caro leitor pode ficar maravilhado quando ve um ex-BBB num restaurante ( eu espero que não fique, mas tem quem fique) por que eles também não podem? O garoto, ou a garota, do passinho, tem a admiração por dois motivos, primeiro pela dança mesmo e depois é porque estão ali mesmo na comunidade, são próximos. Sabe qual a chance dos adolescentes que moram no morro darem de cara com um ator gostosão global na praia? Quase nula, ainda mais com a atitude do governo do Rio de parar todo e qualquer ônibus proveniente da ZN indo para as praias da ZS. Assim como as chances da menina que mora na periferia extrema de São Paulo encontrar um galã no shopping center em São Paulo. É o que mais próximo eles tem da fama. Pff, por favor, irão dizer alguns. Longe de mim querer acabar com a ilusão de alguns que acham que a cidade é para todos, mas vou contar uma historinha que pode ser elucidativa: trabalhei durante muitos anos como arte educadora, mas foi em 2009 e 2010 que tomei o que chamo de choque de realidade. Trabalhava numa instituição cultural na av. Paulista e recebia muitos grupos da extrema periferia de São Paulo e sabem quantos daqueles jovens já haviam pisado no centro expandido? Uns 3% se isto, sim a esmagadora maioria estava saindo da sua região pela primeira vez, sabe por que? Porque eles precisam pegar umas duas conduções ou mais, e isto leva muito tempo,muito mesmo, aí eles chegam no centro e tudo será absurdamente caro e eles serão olhados tortos pela população que habita e frequenta normalmente o espaço. O que nos leva às batalhas e aos rolezinhos e ao menino no Flamengo e ao moço “mal vestido” no aeroporto. Estamos falando de querer ser visto. O triste é pensar que nos dias atuais se é cidadão pelo consumo. Para não ser confundido com ladrão, “vagabundo”, o garoto da periferia quer desesperadamente consumir marcas, no documentário de 2011/2012 os motivos dos rolezinhos de SP estavam já ali, todos eles gastavam uma pequena fortuna para ter roupas da Nike, Adidas, original, cabelo arrumado, perfume, sobrancelha aparada. Ter é ser. Bom para você branco, de cabelo liso e castanho claro sair de chinelo e bermuda sem camisa, no máximo vai levar um enquadro pois vão achar que pode ser “maconheiro”, agora vai o menino da favela sair assim, periga acontecer o que ocorreu com o menino no Rio. E isto mostra o abismo social brutal em que nossa sociedade vive e o consequentemente o racismo velado também. No documentário os meninos não acreditavam na fama repentina que eles adquiriam nas comunidades e nem nas chances que estavam tendo na vida, de conseguir começar a viver do passinho: shows de dança, Olimpíadas e idas à programas de tv. Um deles não se deslumbrava, sabia que um dia isto poderia acabar,mas ia vivendo até onde desse. Outro, um dos garotos mais cativantes do documentário, grande dançarino, esperto, o Gambá diz que seu chefe ( era auxiliar de gesseiro) o chamou para um “papo reto”, ele precisaria escolher entre a dança e o trabalho, a dança não pagaria suas contas e se ele faltasse no dia em que ele havia pedido ele não precisava mais voltar. Gambá preferiu pedir as contas para poder gravar com a Xuxa. Por que seu patrão não o deixou faltar?! Hoje saíu um texto muito bom na Carta Capital sobre o recalque da classe média quando o seu subordinado consegue também os mesmos “privilégios”, Gambá não podia ir na Xuxa, mas gostaria de ver qual reação este senhor teria se o chefe de seu filho tomasse a mesma atitude…o que nos leva novamente aos rolezinhos: preto e favelado não pode, agora alunos da FEA podem entrar aos berros no Eldorado.

Gambá foi na Xuxa, continuou indo aos bailes, continuou dançando. Gambá foi assassinado no dia 31 de dezembro de 2011, ou melhor dia 01 de janeiro de 2012 ao sair de um baile funk. Foi espancado. Ele tenta buscar ajuda e em todos os lugares que tenta achar proteção é escorraçado. O documentário só chega ao ponto em que ele é morto e tem imagens de segurança da rua mostrando um ônibus em movimento que não pára para ele. O que sabe nos ultimos meses é que ele pode ter despertado a fúria de um traficante local por dançar com a namorada deste, ele tenta se proteger, ninguém o ajuda e o pior o acabam matando. Negro. Pobre.

A mulher que deu  depoimento no primeiro rolezinho de SP, diz ter visto um moleque armado. Ninguém viu nada. Negro. Pobre.

O menino no Flamengo foi acusado de ter assaltado várias pessoas na região junto com um “bando”, quem é o bando, quem faz parte dele? Ninguém sabe, só sabem que eles são negros e pobres.

Estamos à beira de uma guerra civil e ninguém se dá conta. Nem a elite, nem a periferia ainda tentando procurar seu espaço. Ela força limites e a elite responde na truculencia. Quando esta maioria vai responder realmente à altura? Ninguém sabe….

NYNPHOMANIAC

 

Nymph()maniac foi propalado aos quatros ventos antes mesmo de ser gravado,durante as filmagens uma quantidade enorme de posters, trailers invadiram as redes sociais, assim como todo o tipo de boato: os atores transaram de verdade, os atores precisaram mandar fotos de seus órgãos genitais para von Trier antes de serem escolhidos, o elenco é estelar. Um filme de Lars von Trier com toda a cara de blockbuster pela enorme, gigantesca campanha de marketing que girou em torno do longa durante todo seu processo e que culminou com a notícia que o corte final não seria do diretor e sim dos produtores, se é verdade ou não ( bem capaz) o fato é que antes de seu início aparece uma tela “informando” o espectador que a edição não é do diretor, um mis- en- scène muito bem feito. Muita expectativa, pouco resultado, ao menos nesta primeira parte que está no cinema. A segunda, pelos trailer parece melhor, muito mais radical e polemica.

Polemica, palavra bem adequada quando se trata do genioso dinarmaquês. Impressionante como sexo ainda é tabu. Um filme sobre sexo com cenas mais quentes e todo mundo fica em polvorosa. Sexo há muito, cenas de penis e vaginas também. Todas bem coreografadas, nenhuma delas chocante. Um filme excitante? Não, afinal, Joe, a personagem principal tem o sexto como uma necessidade, às vezes goza, às vezes encara a coisa como algo necessário como comer, dormir, sem muita emoção.

O mais importante é o que o sexo e o amor representam em nossa sociedade. Os temas caros ao diretor aparecem todos: cristianismo, pecado, luxúria ligada à mulher, homem como o ser fraco, o Homem como um ser decaído e nunca bom, ou ao menos como o cristianismo nos ensinou a ver. Joe desde o início diz não ser uma pessoa boa, desde pequena é uma pecadora, sedenta por prazer, ao que seu interlocutor sempre questiona esta sua posição, talvez na segunda parte fique claro, nesta por mais que ela faça um esforço para ser a “vilã”, vemos apenas uma mulher querendo seguir seus instintos, procurando a liberdade. Liberdade do que? Do amor, oras! A maior e mais terrível prisão de todas! Em nossa sociedade tiranica em relação ao amor, em que tudo precisa ser amor e o sexo é visto como algo sujo e ainda obsceno, a personagem principal vira as costas para ele, ou tenta, o que parece uma lição de moral boba vindo de von Trier, entretanto como nada é o que parece para o dinamarques, espero que na segunda parte ele mostre que não é bem por aí, de um nó.

Para contar as proezas sexuais de sua personagem o diretor se vale de seus recursos de sempre e claro muito bem explorados: distanciamento brechtiano através de divisão por capítulos da narrativa, insersão de comentários, de elementos gráficos quebrando a quarta parede e a ilusão, edição fragmentada. O início do filme me lembrou Haneke, planos lentos com pouca informação, apenas com som diegético e num rompante entra um metal pesado quebrando a relação com a cena, assim como Funny Games, e a cor amarelada, doente, apática, angustiante do quarto do homem que salva Joe lembra a palheta de cor de  A Professora de Piano. Coincidencias apenas, bem provavelmente, entretanto se tratam de dois diretores que tem por base o incomodo do espectador, a quebra da quarta parede ( Haneke fazia isto, não mais nos ultimos longas) ,relações sociais nada fáceis e que não possuem o Homem em alta conta.

No fim, Nimph()maniac é o filme mais aguardado e mais festejado de von Trier, entretanto por enquanto não disse ao que veio. Eram melhores, infinitamente melhores, quando a maior preocupação não residia em ter um elenco de estrelas nem em publicidade. Dogville, Anti Cristo e Melancolia, para ficar nos últimos, são trabalhos maduros e infinitamente mais complexos do que este. Esperemos pela segunda parte para bater o martelo….

BLUE JASMINE

 

Allen volta à tragédia moderna com Blue Jasmine, um tema recorrente em muitos de seus filmes e em suas peças. Destino, livre arbítrio, acaso, está tudo lá colocado de maneira agridoce, às vezes amarga e tendo como a cereja do bolo a atuação magistral de Cate Blanchett.

Não é o melhor de Allen, o que é uma pena, pois ele tende  a trabalhar a tragédia de maneira extremamente interessante e inteligente, como foi no caso de Match Point. Este seu ultimo longa é um pouco arrastado, com algumas barrigas no roteiro, personagens não muito bem desenvolvidos, a parte de Jasmine, a personagem central. Quem conhece Um Bonde Chamado Desejo consegue enxergar as semelhanças entre alguns pontos do texto de Tennessee e o filme de Allen, embora o trailer seja muito mais explicito do que o filme propriamente dito.

Não há nada de espetacular na vida pequena burguesa, nada. Pessoas desinteressantes, assuntos banais e vidas sem muito sentido, preenchidas por sub empregos necessários para sobreviver e pagar as contas e relações sem muita emoção e que poderiam ser tão melhores. Sou muito melhor do que isto, certo? Pensou já Blanche e pensa sua versão 2.1, Jasmine. Talhadas para a grandeza, a beleza e a riqueza. Perseguem um destino que não se concretiza a não ser de maneira efemera, pois a conjuntura muda, o cotidiano não permanece imutável e aí se encontra o problema para estas personagens: contarem com um destino que pensam que foram destinadas, não se encaixarem na pequenes da vida e tomarem péssimas decisões, mas não endossando nenhuma e não tendo consciencia da ação. “A existencia precede a essencia”, diz Sartre e elas não acreditam nisto, de forma alguma. E Allen é cínico neste ponto. Jasmine, ao final é responsável, a única responsável no limite, por sua derrocada, pelo seu fim. Ao tomar decisões infantis, ao ser irresponsável, ao se recusar a verdade. Ele vai dando estas pistas ao longo da narrativa, a personagem vai se enredando cada vez mais em suas fantasias, em sua realidade paralela. O “engraçado” é que ao mesmo tempo em que nega a realidade e sua responsabilidade, Jasmine repete ao menos três vezes ao longo do filme que não é possível jogar a culpa toda na genética, ou seja no determinismo, para os problemas da vida, ela diz isto para sua irmã, ambas adotadas por uma família, a caçula sempre diz que Jasmine tem os melhores genes ( linda, inteligente e casada com um cara milionário, enquanto ela é baixinha, feinha, empacotadora num super mercado). Se em Match Point, o acaso dá aquela forcinha para Chris, aqui ele é emplacável e é por conta de um encontro no meio da rua quando parecia que nossa anti heroína iria colocar a vida novamente nos eixos, iria conseguir,apesar de todas as mentiras contadas, sua vida de glamour novamente, que tudo volta a estaca zero, ou melhor a realidade vem avassaladora e a esmaga. Jasmine, assim como Blanche, não consegue lidar com este mundo concreto, nem um pouco bonito, nem um pouco brilhante, nem um pouco inspirador, ela se volta para dentro, para seu mundo de faz de conta, muito mais colorido e bonito.

Cate Blanchett carrega nas costas o filme inteiro, é um monstro. Sua Jasmine é cheia de nuances, humana, frágil, implacável, fria, amorosa, comica, trágica. A cena final é linda. Derrotada, esgotada, Jasmine sai com sua melhor roupa, com a cara limpa, cabelo desgrenhado, andando pela cidade, senta-se num banco e começa a falar sozinha, nem estranhos podem a ajudar agora, só ela, sozinha. Se tinhamos em boa parte do filme, uma diva que foi aos poucos se desmontando, uma mulher belíssima, chegamos ao seu final com um trapo, um resto de gente, humana, demasiadamente humana. Pode não ser o melhor de Allen, mas é uma das melhores atuações de Blanchett.

Album de Família

Álbum de Família é dirigido por John Wells, muito mais conhecido pelo seu papel como produtor executivo de séries de tv de grande sucesso como E.R, The West Wing e Bad Girls. O homem adora um drama e no caso de Álbum de Família, que drama! O roteiro é a adaptação de uma peça de mesmo nome ( August: Osage County). Apesar de um bom filme é possível vislumbrar o melhor funcionamento num palco do que nas telas de cinema, o ritmo impresso numa peça, o tempo se prestam mais a escala em espiral de loucuras e roupa suja lavada, do que no cinema, com o tempo mais espaçado e a escolha de direção de Wells.

O patriarca da família morre, a família volta para velha casa no meio oeste onde ainda mora a mãe, drogada, com cancer, insuportável, megera. As três filhas com suas respectivas famílias, a irmã da mãe e sua família. É um banquete para neuroses, segredos, mentiras virem a tona de maneira violenta, sem nenhum pudor. As relações são pura fachada, os laços desfeitos, muito cinismo substituindo o amor. A casa com pesadas cortinas todas cerradas é a própria metáfora daquelas pessoas: a vida não entra aqui, e ninguém sai para a vida também. Tenso.

Trata-se de um texto denso, sem respiro, que vai piorando cada vez mais, imagino a encenação como algo encerrado, claustrofóbico, é preciso sair dali, é preciso sair dali! Todavia no longa, Wells opta por cenas e mais cenas em panoramicas, abertas completamente, dando respiro ao calor insuportável do meio oeste norte americano e às loucuras da família. Seu grande trunfo está no elenco absolutamente genial capitaneado por aquele monstro chamado Meryl Streep. São os atores que conseguem manter coeso o ritmo e a tensão de um texto ótimo, mas que a direção falha, um elenco um pouco mais fraco e não perceberíamos a força daquela história, o tempo se esgarçaria demais e as tensões seriam dissolvidas. O bom de Wells é que sabendo a potencia de seus atores, ele também opta por deixar a camera em planos mais fechados no rosto de cada um deles, captando atuações fantásticas, especialmente de Streep, um assombro!

Um daqueles típicos filmes feitos para o Oscar, para as categorias de atuação. Apenas Cate Blanchett talvez possa fazer sombra a já onipresente Streep neste ano. Julia Roberts concorre como atriz coadjuvante, talvez por ser a american sweetheart porque falta dar profundidade a personagem, verticalizar mais, não que ela esteja ruim, tem bons momentos e os melhores textos ( fantásticos) são de sua personagem, mas o que lhe sobra em carisma, falta em sensibilidade e tecnica, fico imaginando o que a própria Cate Blanchett faria, ou uma Julienne Moore ou uma Jessica Chastain…

BLING RING

 

Quando há dois anos atrás escrevi sobre Somewhere, comecei o texto dizendo que necessitava de um tempo para digerir os filmes de Coppola pois saía num estado de torpor igual aos dos personagens. Não foi o que ocorreu com Bling Ring, não o achei interessante já antes do final. Embora esteja tudo lá, todo o universo de Sofia: os adolescentes, a futilidade e o vazio existencial de uma classe privilegiada, os poucos diálogos, entretanto algo não funciona, talvez porque dois elementos que já funcionaram muito bem antes fiquem devendo neste longa: os silencios e a camera que se deixa ficar e esgarça o tempo aparecem de maneira confusa, ela quer imprimir um tempo mais ágil a esta geração tão “fast “( live fast die young cantam os personagens numa das cenas) em cortes mais rápidos, entretanto acaba ficando no meio do caminho entre sua camera que se deixa ficar até o limite do insuportável no silencio e esta nova velocidade, causa incomodo, mas não é um incomodo proposital, aí mora o problema.

Na verdade, o grande problema é que parece haver um julgamento moral deste grupo de adolescentes que não tendo nada melhor para fazer e querendo um “life style” igual ao das celebridades, decide roubá-las. Talvez seja um objeto perto demais da realidade de Sofia, não se trata de uma transposição para o século XVIII, nem para década de 50, e ela acaba imprimindo uma superioridade em relação a aqueles garotos.

O ponto interessante é a falta de uma explicação convincente para as ações do bando, o personagem principal, o que será o fio condutor entre os personagens, esboça uma teoria de não ser aceito e de sua melhor amiga ser obcecada pelo tipo de vida que levam algumas celebridades como Lindsey Lohan, mas parece tudo tão banal e tão sem sentido, eles apenas agem, entram, pegam algumas coisas, saem e esbanjam. Ostentação é a palavra. Parece o mote de uma sociedade capitalista ávida para aparecer e mostrar que possui ( desde as próprias celebridades como Lohan e Paris Hilton, passando pela juventude endinheirada, chegando nas periferias brasileiras com o funk da ostentação e ao patético rei do camarote). Entretanto é neste ponto interessante que Sophia se perde, os personagens são todos patéticos, caricatos, embora bem construídos (como Sophia não se aprofunda em motivos, eles sempre são aquilo e nos é dado isto, eles precisam estar bem fundamentados), ela parece zombar da gangue, não que em seus outros filmes alguns personagens não apresentem algo de profundamente patético em suas banalidades, entretanto neste caso ela parece dizer “idiotas crianças ricas”.

Como sempre nada acontece, mas em seus outros longas o nada, o tempo esgarçado ao limite, o flanar, levam a um clímax, porque chega a ficar insuportável, em Bling Ring não, temos uma sucessão de cenas de invasões domiciliares, roubos, gastos volumosos de dinheiro, fotos na internet. Podemos até dizer que esta é a vida desta juventude abastada, como se nada os atingissem, mas os personagens podem ser blasé, o filme como um todo não,porque acaba se tornando desinteressante. Aí chegamos a questão, se nem a diretora os acha interessante, se ela os acha um bando de riquinhos mimados, o que sobra para o público?