Carol

Faz dois anos desde a minha ultima postagem. Curiosamente, um post sobre o casal lésbico da novela das nove. Abandonei o blog por inúmeras razões, entretanto o longa Carol me deu impulso para voltar a escrever novamente. Pode ser um post solitário ou quem sabe um retorno, ainda não sei.

O que sei bem é como o filme de Todd Heynes baseado no livro “Price of a Salt” de Patricia Hightsmith mexeu comigo. Poderia fazer um post sobre como a direção de fotografia chega ser de tirar o fôlego, ou como a direção de arte é magnífica e tem aquela matiz de cores bem característica de Hoper, ou da direção sempre elegante e sensível de Heynes, ou como Cate Blanchett é uma deusa ou Rooney Mara é maravilhosa, ou como tudo, absolutamente tudo funciona perfeitamente neste filme! Mas não…é um post que extrapola o filme através de seu roteiro.

Patricia era lésbica. Phyllis Nagy, roteirista, também. Não achem mero detalhe, é importante. Após a estreia de Carol e a esnobada dada pela Academia ao filme eu li vários textos em revistas de cinema, blogs de audiovisual e feministas tentando explicar o inexplicável: como um filme sensível e excelente pode ter sido solenemente ignorado pelo Oscar? Um dos textos, se não me engano na própria Variety, falava em não compreensão de seus membros: a esmagadora maioria composta por homens, héteros e com 60 anos ou mais. Parece bobo dizer isto, mas o curioso é que não, não o é!

Ouvi de gays que faltou pegada na cena de sexo entre as duas, faltou algo como Azul é a Cor Mais Quente. Ouvi de mulheres héteros que faltou um embate de como era difícil a questão da homossexualidade na época, quase um panorama histórico.

Eu acho Azul…um excelente filme, já escrevi sobre ele aqui, entretanto muitas ( e muitas MESMO) lésbicas o acham um filme deveras heteronormativo. Sim, ele tem algo mesmo nesta pegada: uma assume o papel da dona de casa, a outra é o espírito livre, pegadora. O longa é uma adaptação de uma grafic novel escrita por uma mulher, Julie Maroh, e o plot é bem diferente do que o filme se tornou ( só dar uma busca rápida na winkipedia), este roteirizado e dirigido por um homem. Não, este também não é mero detalhe porque ao ler os três parágrafos sobre como a narrativa se desenvolve nos quadrinhos é possível perceber que a escritora é mulher e lésbica. Sutilezas e detalhes…

…estes presentes em Carol e em qualquer relação lésbica.

A cena chave no longa de Heynes é quando Therese ( Rooney Mara) vai encontrar seu novo amigo no New York Times. Ele a convidou dizendo ser uma boa conhecer a redação e que podia a apresentar para o editor de fotografia, quem sabe ela poderia descolar um emprego de assistente. Não há nem o que pensar, a oportunidade de trabalhar com o que gosta de fazer e deixar a enfadonha loja de departamento. Pois bem, ela chega e só há ele no jornal. Isto já não é o que era para ser, penso logo eu. Realmente não é, conversa vai, conversa vem e ele a beija. Ela não corresponde e vai embora. É uma cena rápida, talvez as pessoas tenham prestado atenção no excelente diálogo entre os dois sobre como gostamos de alguém ( uma referencia entre a vida ser um jogo de pimball, bolinhas esbarrando o tempo todo uma nas outras, e como gostamos ou não de alguém, simples assim) do que neste gesto, porque ele já está naturalizado. Sim, podemos até ficar incomodadxs pela cara de pau do cara, entretanto não damos muita atenção e a vida segue.

Imaginem: ao invés do cara, ela é quem trabalha no jornal e  o convida da mesmíssima maneira e o beija como ele o fez. Não, eles nem precisam estar na década de 50, posso afirmar para vocês que não seria nem de longe encarado com a naturalidade com que a audiência viu a iniciativa dele. Afinal mulher mesmo em pleno século XXI sofre quando quer ela tomar a iniciativa e sinceramente não consigo imaginar uma mulher tomando uma atitude destas, quando não há NENHUM sinal de reciprocidade. Imaginem mais: é Carol quem trabalha no jornal e a convida para conhece-lo. Piorou não?

Sutilezas e detalhes… Repito porque é importante e porque o filme é isto!

Mais contexto histórico da luta pelos direitos LGBT? posso dizer que a minha vida e de outras lésbicas é uma luta praticamente diária no micro, no cotidiano, no sutil. Não importa o quão aceita você é pela família, amigos, a sociedade está aí e juntar ser homossexual e mulher é ser oprimida. Pior do que isto só as trans, imagine nascer homem e querer perder esta dádiva para ser mulherzinha? A questão é: a vida de uma lésbica não se dá no macro em seu dia dia, nós vivemos, respiramos, amamos, sofremos, como qualquer pessoa. E honestamente Carol é uma paulada violenta. Perder a guarda da filha, se submeter aos caprichos do ex marido escroto, de sua família nojenta, ter seu comportamento tachado de imoral e precisar ir a um analista para se corrigir é de uma brutalidade gigantesca. Me embrulhou o estômago.

Entretanto também amamos e vivemos. Não se enganem, não é uma roadtrip bobinha. Sutilezas e delicadeza, certo? Existe a tensão sexual entre as duas,  mais do que isto, existe companheirismo, carinho, cuidado, entretanto mesmo estando claro que há algo ali obviamente, elas precisam cruzar metade do país para finalmente consumarem o que sentem. Pode ser os anos 50, pode ser o fato de Therese nunca ter tido uma experiência homossexual e até uns dias atrás ter um namorado,pode ser o fato de mulheres não serem criadas para expressar seus desejos, pode ser tudo isto. Tão mais fácil roubar assim do nada um beijo, não? Então não!

Chega ser tocante a aparente facilidade em que duas pessoas que se gostam decidem ficar juntas. Você gosta ou não gosta de alguém, bolinhas de pimball se batendo por aí…e ao mesmo tempo nas camadas internas de uma dificuldade abissal: família e sociedade que cobram um preço alto por aquilo que você é. Carol dizendo que ela não irá deixar de ser quem é, correndo o risco de perder completamente a filha é doído, é muito forte porque é algo que ao negar é morrer em vida.

Carol é o filme com a melhor identificação com o universo lésbico. É tão bom se ver representada na tela. O amor é universal, até a página 10, as formas de amar são muitas e nós somos bombardeadxs com o modelo heteronormativo. E isto inclui Azul…com uma inclinação para esta “normalidade” e um olhar masculino ( e repito acho um excelente filme), a tal cena de sexo para mim é sem graça, o filme é muito mais do que uma trepada de 10 minutos, total visceral, já em Carol a cena é mais delicada e tem muito mais verdade, nem acho tão essencial a cena em si, o primeiro beijo delas, apaixonado, terminando com toda a tensão sexual, a dúvida e angustia é muito mais interessante.

Eu acho  ótimo o fato de não ter atingido universalmente, porque isto mostra o quanto precisamos avançar em narrativas, em olhares outros. Não só na produção, mas na fruição também e nas relações. Empatia é a chave.

Como disse o texto extrapola o filme. É quase um desabafo do porque te-lo achado genial. E para quem é lésbica e já assistiu muitas produções ( das mais mainstream às toscas) sabe como os longas com esta temática terminam mal, na impossibilidade do encontro. Terminar da maneira bonita como termina chega ser um alento…

 

 

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BLUE JASMINE

 

Allen volta à tragédia moderna com Blue Jasmine, um tema recorrente em muitos de seus filmes e em suas peças. Destino, livre arbítrio, acaso, está tudo lá colocado de maneira agridoce, às vezes amarga e tendo como a cereja do bolo a atuação magistral de Cate Blanchett.

Não é o melhor de Allen, o que é uma pena, pois ele tende  a trabalhar a tragédia de maneira extremamente interessante e inteligente, como foi no caso de Match Point. Este seu ultimo longa é um pouco arrastado, com algumas barrigas no roteiro, personagens não muito bem desenvolvidos, a parte de Jasmine, a personagem central. Quem conhece Um Bonde Chamado Desejo consegue enxergar as semelhanças entre alguns pontos do texto de Tennessee e o filme de Allen, embora o trailer seja muito mais explicito do que o filme propriamente dito.

Não há nada de espetacular na vida pequena burguesa, nada. Pessoas desinteressantes, assuntos banais e vidas sem muito sentido, preenchidas por sub empregos necessários para sobreviver e pagar as contas e relações sem muita emoção e que poderiam ser tão melhores. Sou muito melhor do que isto, certo? Pensou já Blanche e pensa sua versão 2.1, Jasmine. Talhadas para a grandeza, a beleza e a riqueza. Perseguem um destino que não se concretiza a não ser de maneira efemera, pois a conjuntura muda, o cotidiano não permanece imutável e aí se encontra o problema para estas personagens: contarem com um destino que pensam que foram destinadas, não se encaixarem na pequenes da vida e tomarem péssimas decisões, mas não endossando nenhuma e não tendo consciencia da ação. “A existencia precede a essencia”, diz Sartre e elas não acreditam nisto, de forma alguma. E Allen é cínico neste ponto. Jasmine, ao final é responsável, a única responsável no limite, por sua derrocada, pelo seu fim. Ao tomar decisões infantis, ao ser irresponsável, ao se recusar a verdade. Ele vai dando estas pistas ao longo da narrativa, a personagem vai se enredando cada vez mais em suas fantasias, em sua realidade paralela. O “engraçado” é que ao mesmo tempo em que nega a realidade e sua responsabilidade, Jasmine repete ao menos três vezes ao longo do filme que não é possível jogar a culpa toda na genética, ou seja no determinismo, para os problemas da vida, ela diz isto para sua irmã, ambas adotadas por uma família, a caçula sempre diz que Jasmine tem os melhores genes ( linda, inteligente e casada com um cara milionário, enquanto ela é baixinha, feinha, empacotadora num super mercado). Se em Match Point, o acaso dá aquela forcinha para Chris, aqui ele é emplacável e é por conta de um encontro no meio da rua quando parecia que nossa anti heroína iria colocar a vida novamente nos eixos, iria conseguir,apesar de todas as mentiras contadas, sua vida de glamour novamente, que tudo volta a estaca zero, ou melhor a realidade vem avassaladora e a esmaga. Jasmine, assim como Blanche, não consegue lidar com este mundo concreto, nem um pouco bonito, nem um pouco brilhante, nem um pouco inspirador, ela se volta para dentro, para seu mundo de faz de conta, muito mais colorido e bonito.

Cate Blanchett carrega nas costas o filme inteiro, é um monstro. Sua Jasmine é cheia de nuances, humana, frágil, implacável, fria, amorosa, comica, trágica. A cena final é linda. Derrotada, esgotada, Jasmine sai com sua melhor roupa, com a cara limpa, cabelo desgrenhado, andando pela cidade, senta-se num banco e começa a falar sozinha, nem estranhos podem a ajudar agora, só ela, sozinha. Se tinhamos em boa parte do filme, uma diva que foi aos poucos se desmontando, uma mulher belíssima, chegamos ao seu final com um trapo, um resto de gente, humana, demasiadamente humana. Pode não ser o melhor de Allen, mas é uma das melhores atuações de Blanchett.