Carol

Faz dois anos desde a minha ultima postagem. Curiosamente, um post sobre o casal lésbico da novela das nove. Abandonei o blog por inúmeras razões, entretanto o longa Carol me deu impulso para voltar a escrever novamente. Pode ser um post solitário ou quem sabe um retorno, ainda não sei.

O que sei bem é como o filme de Todd Heynes baseado no livro “Price of a Salt” de Patricia Hightsmith mexeu comigo. Poderia fazer um post sobre como a direção de fotografia chega ser de tirar o fôlego, ou como a direção de arte é magnífica e tem aquela matiz de cores bem característica de Hoper, ou da direção sempre elegante e sensível de Heynes, ou como Cate Blanchett é uma deusa ou Rooney Mara é maravilhosa, ou como tudo, absolutamente tudo funciona perfeitamente neste filme! Mas não…é um post que extrapola o filme através de seu roteiro.

Patricia era lésbica. Phyllis Nagy, roteirista, também. Não achem mero detalhe, é importante. Após a estreia de Carol e a esnobada dada pela Academia ao filme eu li vários textos em revistas de cinema, blogs de audiovisual e feministas tentando explicar o inexplicável: como um filme sensível e excelente pode ter sido solenemente ignorado pelo Oscar? Um dos textos, se não me engano na própria Variety, falava em não compreensão de seus membros: a esmagadora maioria composta por homens, héteros e com 60 anos ou mais. Parece bobo dizer isto, mas o curioso é que não, não o é!

Ouvi de gays que faltou pegada na cena de sexo entre as duas, faltou algo como Azul é a Cor Mais Quente. Ouvi de mulheres héteros que faltou um embate de como era difícil a questão da homossexualidade na época, quase um panorama histórico.

Eu acho Azul…um excelente filme, já escrevi sobre ele aqui, entretanto muitas ( e muitas MESMO) lésbicas o acham um filme deveras heteronormativo. Sim, ele tem algo mesmo nesta pegada: uma assume o papel da dona de casa, a outra é o espírito livre, pegadora. O longa é uma adaptação de uma grafic novel escrita por uma mulher, Julie Maroh, e o plot é bem diferente do que o filme se tornou ( só dar uma busca rápida na winkipedia), este roteirizado e dirigido por um homem. Não, este também não é mero detalhe porque ao ler os três parágrafos sobre como a narrativa se desenvolve nos quadrinhos é possível perceber que a escritora é mulher e lésbica. Sutilezas e detalhes…

…estes presentes em Carol e em qualquer relação lésbica.

A cena chave no longa de Heynes é quando Therese ( Rooney Mara) vai encontrar seu novo amigo no New York Times. Ele a convidou dizendo ser uma boa conhecer a redação e que podia a apresentar para o editor de fotografia, quem sabe ela poderia descolar um emprego de assistente. Não há nem o que pensar, a oportunidade de trabalhar com o que gosta de fazer e deixar a enfadonha loja de departamento. Pois bem, ela chega e só há ele no jornal. Isto já não é o que era para ser, penso logo eu. Realmente não é, conversa vai, conversa vem e ele a beija. Ela não corresponde e vai embora. É uma cena rápida, talvez as pessoas tenham prestado atenção no excelente diálogo entre os dois sobre como gostamos de alguém ( uma referencia entre a vida ser um jogo de pimball, bolinhas esbarrando o tempo todo uma nas outras, e como gostamos ou não de alguém, simples assim) do que neste gesto, porque ele já está naturalizado. Sim, podemos até ficar incomodadxs pela cara de pau do cara, entretanto não damos muita atenção e a vida segue.

Imaginem: ao invés do cara, ela é quem trabalha no jornal e  o convida da mesmíssima maneira e o beija como ele o fez. Não, eles nem precisam estar na década de 50, posso afirmar para vocês que não seria nem de longe encarado com a naturalidade com que a audiência viu a iniciativa dele. Afinal mulher mesmo em pleno século XXI sofre quando quer ela tomar a iniciativa e sinceramente não consigo imaginar uma mulher tomando uma atitude destas, quando não há NENHUM sinal de reciprocidade. Imaginem mais: é Carol quem trabalha no jornal e a convida para conhece-lo. Piorou não?

Sutilezas e detalhes… Repito porque é importante e porque o filme é isto!

Mais contexto histórico da luta pelos direitos LGBT? posso dizer que a minha vida e de outras lésbicas é uma luta praticamente diária no micro, no cotidiano, no sutil. Não importa o quão aceita você é pela família, amigos, a sociedade está aí e juntar ser homossexual e mulher é ser oprimida. Pior do que isto só as trans, imagine nascer homem e querer perder esta dádiva para ser mulherzinha? A questão é: a vida de uma lésbica não se dá no macro em seu dia dia, nós vivemos, respiramos, amamos, sofremos, como qualquer pessoa. E honestamente Carol é uma paulada violenta. Perder a guarda da filha, se submeter aos caprichos do ex marido escroto, de sua família nojenta, ter seu comportamento tachado de imoral e precisar ir a um analista para se corrigir é de uma brutalidade gigantesca. Me embrulhou o estômago.

Entretanto também amamos e vivemos. Não se enganem, não é uma roadtrip bobinha. Sutilezas e delicadeza, certo? Existe a tensão sexual entre as duas,  mais do que isto, existe companheirismo, carinho, cuidado, entretanto mesmo estando claro que há algo ali obviamente, elas precisam cruzar metade do país para finalmente consumarem o que sentem. Pode ser os anos 50, pode ser o fato de Therese nunca ter tido uma experiência homossexual e até uns dias atrás ter um namorado,pode ser o fato de mulheres não serem criadas para expressar seus desejos, pode ser tudo isto. Tão mais fácil roubar assim do nada um beijo, não? Então não!

Chega ser tocante a aparente facilidade em que duas pessoas que se gostam decidem ficar juntas. Você gosta ou não gosta de alguém, bolinhas de pimball se batendo por aí…e ao mesmo tempo nas camadas internas de uma dificuldade abissal: família e sociedade que cobram um preço alto por aquilo que você é. Carol dizendo que ela não irá deixar de ser quem é, correndo o risco de perder completamente a filha é doído, é muito forte porque é algo que ao negar é morrer em vida.

Carol é o filme com a melhor identificação com o universo lésbico. É tão bom se ver representada na tela. O amor é universal, até a página 10, as formas de amar são muitas e nós somos bombardeadxs com o modelo heteronormativo. E isto inclui Azul…com uma inclinação para esta “normalidade” e um olhar masculino ( e repito acho um excelente filme), a tal cena de sexo para mim é sem graça, o filme é muito mais do que uma trepada de 10 minutos, total visceral, já em Carol a cena é mais delicada e tem muito mais verdade, nem acho tão essencial a cena em si, o primeiro beijo delas, apaixonado, terminando com toda a tensão sexual, a dúvida e angustia é muito mais interessante.

Eu acho  ótimo o fato de não ter atingido universalmente, porque isto mostra o quanto precisamos avançar em narrativas, em olhares outros. Não só na produção, mas na fruição também e nas relações. Empatia é a chave.

Como disse o texto extrapola o filme. É quase um desabafo do porque te-lo achado genial. E para quem é lésbica e já assistiu muitas produções ( das mais mainstream às toscas) sabe como os longas com esta temática terminam mal, na impossibilidade do encontro. Terminar da maneira bonita como termina chega ser um alento…

 

 

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Em Família

Este é um blog dedicado ao cinema. Uma vez abri uma exceção e tratei da novela A Favorita, João Emanuel Carneiro fazia sua primeira novela no horário nobre e mudava o paradigma da teledramaturgia ( acabou ao final caindo na dicotomia bem e mal, mas de forma brilhante), a cena da Patrícia Pilar com Mauro Mendonça é uma das cenas mais fantásticas feitas em novelas, terror puro.

Abro mais uma exceção agora, só desta vez para trazer um exemplo negativo. A tv Globo é capaz de trazer boas produções de obras seriadas, de teledramaturgia como o exemplo a cima e atualmente com a estéticamente belíssima Meu Pedacinho de Chão, entretanto é incapaz de ousar, dar voz a qualquer grupo social que não seja o padrão, médio. It’s all business, certo? Todavia, falamos de uma concessão pública, o que não faz isto tão certo assim.

Em 1996, a comediante Ellen Degeneres, sai do armário no último episódio de sua série homônima. Último episódio porque nunca na televisão norte-americana um personagem principal havia abertamente dito ser gay e a Disney não quis pagar para ver a reação dos telespectadores e patrocinadores do que poderia vir a seguir. São dezoito anos atrás. Quase duas décadas depois, personagens gays, lésbicas são comuns em séries, eles se relacionam como qualquer outro casal heterossexual ( o que inclui cenas de afeto e sexo) e Ellen…bem Ellen é a nova Oprah, seu talk show é o mais visto nos EUA e sua esposa, a atriz Portia de Rossi, aparece bastante por lá e a demonstração de afeto entre as duas é normal.

Em 1999, ou seja três anos após Ellen ter saído do armário lá nos EUA, estréia no Brasil a novela Torre de Babel. A novela de Silvio de Abreu poderia ficar marcada pela boa atuação de Adriana Esteves como a insuportável Sandrinha, a estréia de Cacá Carvalho em novelas como Jamanta, e o primeiro e único papel de vilão de Tony Ramos (modificado no meio da trama), mas não, o folhetim ficou marcado pela morte de duas personagens na explosão do shopping center ( ato central na trama). As personagens de Christiane Torlone e Silvia Pfeifer morrem por serem lésbicas e o público não as aceita. Uma violencia contra a comunidade LGBT. No produto nacional de maior visibilidade, aquele que entra nas casas das pessoas seis vezes por semana, a parcela LGBT da sociedade brasileira é extirpada de maneira brutal.

Em 2003, depois da enorme polêmica, um casal adolescente lésbico aparece na novela Mulheres Apaixonadas de Manoel Carlos. As personagens Clara e Rafaela caem nas graças do público e ganham torcida para um final feliz, longe das maldades da mãe de Clara que não aceita o namoro da filha. Como toda novela das oito ( ou nove) há cenas de sexo,sensuais, etc, ressalvas feitas apenas para as garotas. Não podendo colocar sequer uma cena de beijo entre as duas, o escritor é habilidoso em criar situações de intimidade, sugestivas, apesar do não beijo, existe um casal muito bem desenhado ali. Após “Maneco” é a vez de Aguinaldo da Silva colocar um casal de lésbicas em sua Senhora do Destino. Mais uma vez, nada de beijos, mas novamente situações de bastante intimidade, sugestivas e bem sensuais ( como a primeira noite das duas juntas, um plongée das duas na cama, abraçadas e semi nuas) e introduzindo o tema da adoção por casais homossexuais.

Uma década após estas novelas e consequentemente dezoito anos após Ellen, chegamos ao primeiro ( ok não é o primeiro de fato, o SBT já havia mostrado um beijo em sua novela, mas de grande audiencia pode ser considerado o primeiro) beijo gay na televisão brasileira aberta ( porque na fechada a MTV já tinha resolvido a questão no início dos anos 2000) com Matheus Solano e Thiago Fragoso. Penúltima cena da novela. A comemoração do beijo foi como a da conquista de campeonato, na região central de São Paulo se ouvia gritos de alegria nos prédios.

Quem sabe a dor de ser invisível, sabe a conquista que é a maior emissora do país, em seu programa de maior audiencia, finalmente reconhecer plenamente a existencia de uma parcela da população marginalizada e muitas vezes violentada ( e posso dizer por experiencia própria, pois já fui vítima da violencia homofóbica).

Após o beijo gay era de presumir que o tema poderia ser tratado de forma natural nos outros produtos da emissora certo? “Onde passa boi, passa boiada” e saindo o peso do primeiro, os próximos podem vir normalmente…quer dizer…

Em Família sucede Amor a Vida, novamente uma novela de Manoel Carlos tem um casal lésbico. É de se esperar que após seu casal teen tão querido e após a conquista na novela anterior, as coisas fluam fáceis, mas não. A novela que acaba em três semanas é uma sucessão de equívocos. As personagens Clara e Marina caíram no gosto das lésbicas que criaram até a hastag #clarina para tudo que se relaciona sobre as duas, mobilizam ferozmente as redes à favor das personagens e a Rede Globo de Televisão e Manoel Carlos as desrespeitam sempre. Depois de mais de 100 capítulos num “chove não molha” as duas personagens ficam juntas, se alguém perdeu alguns capítulos e não se deu conta que a personagem Clara se separou do marido, nem irá notar a diferença entre a relação das duas. Um exemplo claro foi a cena exibida ontem ( sábado, 21 de junho): as duas personagens conversam sobre relacionamento e estão afastadas,nem parece que estão no início do relacionamento, falta afeto, por fim Marina diz que não vai a um evento com Clara por ter coisas para fazer, Clara diz que vai embora e…dá um abraço em Marina! Atenção, elas já são um casal. Imagine a mesma cena, com um casal heterossexual, quais as chances de não haver nem que seja um selinho na despedida? Exato, inexistente. ( a cena é esta).

Causa expanto ver como ao invés de progredir no tratamento da comunidade LGBT, a tv Globo regride em uma década, se antes existia ao menos intimidade, sugestão de um relacionamento, agora é praticamente velado, não sabendo lidar com o beijo gay na novela anterior, a direção da tv prefere ignorar completamente as personagens, as tornar mais assexuadas ainda.

Manoel Carlos não as explodiu num shopping, mas do jeito que conduz a história, as implode na impossibilidade de contar uma história verdadeira. Mostrando que uma boa parcela da sociedade brasileira na última década encaretou ainda mais, se tornou ainda mais intolerante e a produção cultural de massa não sabe como lidar com esta parcela consumidora e com a parcela mobilizada pelas redes e de forte poder de opinião, absolutamente contrária a estas posições retrógradas. Colocar no final, na última cena da novela um beijo entre Clara e Marina não adiantará nada, reforçará apenas o papel que cabe à comunidade LGBT na televisão brasileira aberta: o resto, a xepa.

Oxalá temos o cinema nacional não é mesmo?!

HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO

O curta Eu Não Quero Voltar Sozinho (2010) de Daniel Ribeiro foi alvo de uma confusão no Acre.Selecionado para fazer parte do programa Cine Educação e portanto ser exibido nas escolas públicas, o filme foi censurado por sua temática gay. Sorte de Daniel. Sorte de todos nós! Por conta da atitude preconceituosa o curta rapidamente se espalhou como viral na rede e não havia quem assistisse e não se encantasse pela história delicada de amor entre dois adolescentes em plena descoberta da sexualidade: Leonardo, deficiente visual, e Gabriel. Com a notícia meses após o boom na internet de que a história poderia ser contada em um longa, todos os fãs angariados neste período torceram e muito para que fosse verdade. E era! O filme com o título Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é o desdobramento do roteiro em longa. Na verdade Ribeiro disse que havia escrito um longa metragem,mas antes espertamente decidiu por explorar melhor o roteiro e possibilidades experimentando o formato curta. Não poderia ter acertado mais. O longa foi ganhador de dois prêmios no Festival de Berlim, de crítica e o Teddy Bear, voltado para a temática LGBT. A estréia no Brasil foi um estouro e hoje ( 6 de maio de 2014) a distribuidora Vitrine anunciou em seu facebook que havia feito mais de 150mil espectadores. Um fenomeno!

Eu poderia focar este texto em alguns problemas de roteiro apresentado pelo filme, acredito que o curta é melhor resolvido em termos narrativos, entretanto prefiro focar em outros aspectos. Eu só havia visto filme ser aplaudido no final em Mostras, pois em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho eu vi a sessão vir a baixo em uma das cenas finais. Já tinha lido relato de outros amigos no facebook sobre o mesmo comportamento. A sala estava repleta de casais…héteros!

O filme de Ribeiro saiu do nicho específico LGBT e atingiu um público amplo, sensível e aberto para um romance adolescente construído de maneira bela e delicada pelo diretor e também roteirista. Leonardo precisa enfrentar o fato de ser deficiente visual num mundo onde é minoria, é afirmar sua identidade em casa, na escola, na rua, tarefa árdua para qualquer adolescente já construir uma identidade, imagine ter de afirmar uma? Ele nunca beijou ninguém, tampouco parece ter se apaixonado por outra pessoa, até conhecer Gabriel, menino novo que se muda para sua escola e rapidamente entra para seu ciclo mais íntimo de amizade, constituído basicamente por Giovanna, sua melhor amiga. Ele nunca beijou ninguém, ele nunca viu um homem, uma mulher, entretanto acaba se apaixonando pelo garoto novo. O longa vai construindo esta descoberta do adolescente, de sua sexualidade, de sua identidade, de sua independencia, a relação super protetora dos pais, o bullying sofrido na escola. Um filme adolescente…

…um filme adolescente que eu gostaria de ter tido a oportunidade de ver quando estava nesta fase. Ser adolescente já é confuso, descobrir que sua sexualidade não se encaixa nos padrões heteronormativos da sociedade é um pouco mais, garanto. Pela primeira vez no cinema nacional, um jovem gay pode se identificar com o que vê na tela. Não é pouco. Se enxergar no outro, se sentir representado é importante para formação, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho permite isto. E como disse, ele é muito mais, não só os gays se identificam, todos que assistem se comovem com a história, a ponto de aplaudirem quando Leonardo age de maneira contundente e esperta para lutar contra o preconceito ( tanto por sua sexualidade quanto por ser deficiente visual) que sofre ao longo do filme.

O longa de Daniel Ribeiro,me permito dizer, é um filme necessário para filmografia brasileira. Que desta porta aberta, saiam muitos mais!

Azul É a Cor Mais Quente

 

Quando La Vie d’ Adèle ( o nome em português é detestável) ganhou a Palma de Ouro em Cannes todos os jornais se apressaram em perguntar ao presidente do júri, Steven Spielberg, se aquele era um prêmio político pelo tema que o longa abordava e por estar Paris tomada por protestos pela aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Engraçado, ou melhor triste, como a imprensa é tomada por sensacionalismo barato, ao invés de analisar de fato o filme vencedor. Acreditar que eventos políticos não tenham nenhuma influencia  num júri é ser ingênuo e não levar a história do cinema em conta, agora apontar para um longa excelente como o é La Vie d’ Adèle como vencedor pela política apenas, é leviano. Cannes em 2004 deu sem pestanejar a Palma de Ouro para Fahrenheit 9/11, que tinha entre seus concorrentes Old Boy, Edukators e 2046, no mínimo difícil de acreditar que o documentário de Moore seja melhor cinematograficamente que qualquer um dos três. A lebre do oportunismo político foi levantada na época é claro, entretanto não com o mesmo vigor que se viu na imprensa pelos meses seguintes à Cannes como este ano.

Outro ponto explorado exaustivamente  foi em torno das cenas de sexo. A sociedade anda “encaretando” de maneira absurda, fico imaginando um filme de Pasolini nos dias atuais, deve chocar mais do que há 40 anos atrás…as cenas de sexo entre as duas personagens principais do longa chocam porque fogem completamente do esteriótipo lésbicas de filmes pornográficos, fakes, na verdade as cenas chocam porque não são esteticamente bonitas, não foram feitas para plasticamente serem aprazíveis, muito pelo contrário são cruas, desajeitadas, vicerais, como uma boa trepada. Se compararmos apenas com as cenas dos trailers apresentados de Ninfomaniac, Abdellatif Kechiche mostra muito mais sexo do que Lars, ou pelo menos mostra de maneira muito mais real do que as bonitas cenas que recheiam as pílulas do filme que foram lançadas até agora.

Posto o problema político levantado e as cenas de sexo ( acredite, elas não estão ali apenas como chamariz de público) vamos ao filme propriamente dito.

La vie d’Adèle acompanha Adèle desde sua adolescencia até o início de sua vida adulta tendo como fio condutor sua relação com Emma, sua primeira namorada, mais velha.

Não, acredito que não de para ir ao filme propriamente dito…tinha me preparado para escrever um texto que falasse das escolhas de câmera do diretor, muito interessantes aliás, com planos muito fechados, tudo muito intenso, vivo, latente, sexual como a adolescencia costuma ser; para falar nos conceitos de tragédia que o longa é permeado e nos deixa como texto claramente em duas passagens: o conceito grego de tragédia, o destino já traçado, e o conceito sartriano trágico, o homem moderno já dotado de  livre arbítrio, no qual “a existencia precede a essencia”.

De fato, acho que não me desviarei de analisar o trágico, por ser ele o fio condutor das nossas vidas, acredito eu. Entretanto fiquei com outro existencialista na cabeça após assistir o longa: Camus. “É preciso imaginar Sísifo feliz”, setencia o argelino em seu livro ‘“O Mito de Sísifo”. Sísifo condenado pela eternidade a carregar uma rocha morro a cima e sempre, sempre na esperança que desta vez ela fique parada no cume, e ela rola morro a baixo toda vez, uma esperança débil, fugidia, para novamente a decepção, a tristeza, entretanto para Camus, Sísifo sabe que seu destino é este carregar morro a cima e a ver sempre despecancar morro a baixo e mesmo assim, mesmo com tudo contra, ele encontra um meio de ser feliz, um momento que seja. Relacionamentos podem ser as pedras, todavia, ao contrário de Sísifo que tem consciencia plena de que a rocha não permanecerá no cume, nós não temos ( coloco nós porque acredito que 99,9% da humanidade não seja composta por Sísifos e Mersaults), nós possuímos  a parca esperança que lá em cima ela repousará, para ve-la rolar e rolar e rolar novamentee assim entramos e saímos de relacionamentos, felizes, esperançosos, destruídos, dilacerados.

La Vie d’ Adèle pode ser um filme que trate de um relacionamento entre duas garotas,mas pode ser qualquer relacionamento. Um encontro entre duas pessoas que ao longo do tempo vai se desgastando, um combinado que precisa do esforço de ambas as partes.

Emma é mais velha, está na faculdade, estuda “Belas Artes” , Adèle está no primeiro ano do colegial, é prática, não quer estudar e não encontrar um emprego depois, quer ser professora primária. No início vemos uma vontade destes dois mundos distintos se encontrarem, Adèle acompanha Emma em museus para conhecer o seu mundo, entretanto não vemos o esforço contrário. Corta. Passaram-se uns dois anos. Adèle é professora assistente, ao invés de sair com seus colegas, volta para casa para preparar um jantar para os amigos de Emma, o desconforto é latente, enquanto Adèle tenta se ocupar com qualquer coisa, ser útil, para não precisar sentar e conversar com aquelas pessoas com as quais ela não compartilha muito, sua namorada parece muito a vontade com os outros, com uma amiga principalmente. A câmera que falei alguns parágrafos a cima, em closes fechados, é toda planos mais abertos quando se refere ao olhar de Adèle para Emma, tão distante. Na única cena juntas, uma garota, artista plástica, discorre sobre seu doutorado sobre um artista X, Emma diz para Adèle que a apresentou a obra deste artista, mas ela não se lembra, não faz idéia de quem seja, e os diálogos continuam como se ela não estivesse lá, afinal a roda de conversa entra em debate sobre as diferenças conceituais entre artistas X e Y. No fim da noite Emma diz à Adèle que gostaria muito que ela fizesse algo que ela gostasse e não apenas trabalhasse, era muito bacana ela ficar em casa cozinhando para os amigos dela, mas queria a ver mais ativa, Adèle responde que faz o que gosta, gosta de trabalhar e gosta da vida das duas, isto basta e questiona sobre a amiga com a qual ela passou boa parte da noite, se era uma ex namorada por estarem assim tão próximas. Emma apenas diz que não, nunca tinham tido nada, mas que ela também era pintora. Basta…qual “vida das duas basta”? E para quem? “Existencia precede a essencia” disse bem Sartre, cada uma vivendo uma vida, em paralelo, ter um relacionamento basta, mas e a construção diária? Não sei do seu mundo, você não sabe do meu…Corta. Três anos após o término, as duas se encontram num café. Tenso. Melancólico. Triste. Adèle não esqueceu Emma, Emma já está em outro relacionamento faz tempo. O típico Je t’aime, moin non plus. Atire a primeira pedra quem ao encontrar a (o)  ex pela primeira vez não sentiu algo estranho. Atire a  primeira pedra quem nunca demorou ao esquecer a (o) ex. Era o primeiro relacionamento de Adèle, relacionamento sério mesmo, anos juntas, uma vida juntas, a transição  entre a adolescencia para a maturidade. Seria este o motivo para o não desligamento de Adèle? Será que nos tornamos mais cínicos com o tempo? O longa termina com Adèle indo embora, sozinha pela rua, dando as costas para o acaso, ou talvez quem sabe estando aberta justamente para ele… estes foram apenas os capítulos I e II, ainda existirão muito pela frente… empurrando rochas morros a cima, esperando que não rolem para baixo. É preciso imaginar Sísifo feliz…e miserável também.